fevereiro 20, 2004

A Infância de Guilhermina Suggia

GUILHERMINA SUGGIA não teve infância de bonecas. Apenas com dois anos pedia para a levarem para perto do pai para o ouvir a estudar violoncelo. E tinha já preferências musicais pedindo ao pai para tocar esta ou aquela música, porque mais lhe agradava.

AUGUSTO JORGE DE MEDIM SUGGIA, natural de Lisboa, era violoncelista no Real Teatro de S. Carlos e professor no Conservatório de Música de Lisboa. A Convite da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos para exercer o cargo de professor nas escolas da localidade muda-se com a família para o Porto, para a Rua Ferreira Borges, na freguesia de S. Nicolau. Não é possível ver a casa que foi demolida para dar lugar a novos traçados urbanísticos. É nessa casa que nasce GUILHERMINA AUGUSTA XAVIER DE MEDIM SUGGIA em 27 de Junho de 1885, com ascendência espanhola e italiana (florentina) pelo lado paterno. A mãe, Elisa Augusta Xavier de Medim Suggia, é lisboeta de gema.

Guilhermina tem uma irmã, três anos mais velha: Virgínia. As duas crianças dependem dos sons: Virgínia cumprindo as suas obrigações com o piano e Guilhermina entregando-se ao violoncelo. O pai, vigia-lhes o estudo, dá ordens de solfejo e insiste com a técnica.
Virgínia, talentosa para o piano, obedece, cumprindo devotamente as obrigações. É discípula da professora Thereza Amaral, que a considera intérprete brilhante, de grande rigor técnico e com uma intensa intuição artística.
Guilhermina começa a aprender música com o pai quando ainda não conhecia as letras do abecedário e nem sequer pronunciava as palavras com toda a clareza. À semibreve chamava “semibebe”, à mínima “mina” e à semínima “sumina”. Dividia os compassos com perfeição e solfejava correctamente. Um ano e meio depois chega o violoncelo de ¾ de Paris, mandado vir expressamente para ela, pelo visconde Villar d’Allen.

É já em Matosinhos, na casa que habitavam na Rua do Godinho, para onde se mudam depois do Verão de 1891 – antes habitavam em Manhufe, próximo da igreja de Matosinhos – que Guil é iniciada no violoncelo. O pai é o primeiro professor. Guilhermina recusa a autoridade e consequentemente as indicações rígidas. As lições com o pai são tempestuosas quando lhe diz que ela está a exagerar no estilo da interpretação. Guilhermina parece não poder deixar de estar ligada ao violoncelo à maneira dela. Augusto Suggia não deixa, no entanto, de lhe espiar o vibrato, o legato, a arcada, reconhecendo-lhe um desmesurado talento. Guilhermina mantém a ligação quotidiana ao violoncelo e não se lhe conhecem factos que a impedissem.

Há talvez, entretanto, um acontecimento que para ela pode ter sido insólito: o seu baptismo. Certamente sem intensas convicções religiosas decide-se baptizar Guilhermina a 6 de Janeiro de 1891. Tem ela seis anos e vai pelo seu próprio pé à Igreja Paroquial de Stº Ildefonso no Porto inclinar a cabeça à água de bênçãos inodora. Não se reveste de nenhum facto especial o acontecimento. Regressam a Matosinhos recolhendo-se da humidade invernosa. É possível que ela ainda tenha pegado no violoncelo.

É outro o acontecimento inesquecível.

Está-se em Outubro de 1892. Guilhermina tem o seu primeiro concerto público no aristocrático salão da Assembleia de Matosinhos. A apresentação à sociedade é organizada por Guilherme Ferraz, amigo da família e figura de destaque na vida social de Matosinhos.

Tinha sete anos e apareceu de vestido escocês pela canela, de gola branca, larga e aos bicos. Os vestidos de concerto serão sempre uma preocupação particular de Suggia. “Estar num palco é comunicar com o corpo todo e não só com o violoncelo”, dirá ela mais tarde. Não se sabe se esse vestido de xadrez foi especialmente escolhido por ela, mas é muito possível que não o tenha recusado. A mãe teve a oportunidade de contar que desde bastante pequena Guilhermina tinha opinião sobre as coisas que a rodeavam e lhe diziam respeito.

Neste primeiro concerto é acompanhada pela irmã, ao piano. Foi o primeiro assombro.

O JORNAL DE NOTÍCIAS do Porto, de 13 de Outubro de 1892, referindo-se a esse concerto, depois de fazer os maiores elogios à criança prodígio, descreve-a “sentada em microscópica cadeira abraçada ao violoncelo, fazendo lembrar uma dessas bonequitas, que são o encanto das da idade dela (…) E ela sorria e brincava com o arco do instrumento. E a arcada era firme e segura. Assombrosa criança essa, é tão assombrosa que damas e cavalheiros se levantaram para a saudar, cobrindo-a de beijos e palmas, que ela sorrindo, agradecia”. Guilhermina com 7 anos fez suspeitar os circunspectos menos dados à disposição de que ela tinha a fibra das excepcionais. O pai, há muitos anos professor de violoncelo, proclamava as virtudes prematuras de Guilhermina para o violoncelo.
Contava também com agrado que a filha tinha um ouvido privilegiado. Pequena de 7 ou 8 anos Guilhermina, acompanhada ao piano por Xisto Lopes, que, também tocava violoncelo, deu provas de um ouvido apuradíssimo. Xisto Lopes afinou o violoncelo porque ela não tinha força para puxar as cravelhas e entregou-lho dizendo para começar quando quisesse. Ela passa o arco pelas cordas e pára. Xisto Lopes insiste, mais uma e outra vez, mas ela não começava. Temia-se que Guilhermina decidisse não tocar. Mas ela levanta-se muito envergonhada e tímida e ao ouvido de Xisto Lopes diz-lhe que “o sol não está afinado”. E era verdade.

Numa outra altura, à mesa de um hotel em Coimbra, ela ouvia a classificação que Tomás del Negro e outros músicos davam às vibrações de diversos objectos. Alguém se lembrou de fazer vibrar uma grande taça com água, com peixes vermelhos dentro, que estava no meio da mesa. Tomás del Negro afirmou que esse som não era nada, não cabendo dentro de um tom nem de um meio tom. Seria um ruído indefinido, musicalmente nada. Mas ela disse muito baixinho ao pai que a vibração da taça era “um fá natural”. O pai repete em voz alta a classificação que ela tinha dado àquele som, o que fez gerar grande discussão. Levaram a taça próxima de um piano e constatou-se que era realmente um fá natural que a taça a vibrar produzia.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre", de Fátima Pombo


Publicado por vm em fevereiro 20, 2004 12:05 PM
Comentários

Achei curiosa a referência ao violoncelo mandado vir de Paris por meu bisavô Alfredo Allen .
O violoncelo ainda existe, na colecção de Villar d'Allen !
José Alberto Allen

Afixado por: José Alberto Allen em outubro 23, 2004 06:56 PM

Gostaria de perguntar ao Sr. José Alberto Allen se a colecção de Villar d'Allen está aberta ao público, e onde, porque adoraria ver este violoncelo!

Afixado por: isabel Millet em novembro 2, 2004 12:13 AM