1896 é um ano de referência para a carreira artística de Guilhermina.
Depois de 1892 apresenta-se mais duas ou três vezes em público, acompanhada ao piano pela irmã, conquistando sempre os mais fervorosos bravos. De um concerto em Janeiro de 1895, lê-se assim uma notícia então publicada: “ os espectadores acolheram-nas com as mais vivas demonstrações de agrado, aplaudindo-as freneticamente de modo que as encantadoras crianças tiveram de executar outros trechos que não faziam parte do programa. Do entusiasmo da sala compartilhou também o pai das pequerruchas, sr. Augusto Suggia, que teve de aparecer no palco sendo efusivamente aplaudido”.
Em 22 de Maio de 1896 tem a primeira grande apoteose “profissional”_ trata-se do concerto no Teatro Gil Vicente, no Palácio de Cristal do Porto, para apresentação aos sócios do Orpheon Portuense. Toca L’Etoile du Nord de Lee, acompanhada ao piano por Virgínia e o Andante Com Variações (hino Austríaco) de Haydn, integrada num quarteto de cordas. Já não se trata de concertos para o público restrito das aristocráticas agremiações como o Clube da Foz ou o Grémio de Matosinhos, mas de um concerto numa sala sem dimensão familiar. O público se entrou com uma atitude condescendente – afinal sempre é uma criança que vai tocar – perdeu-a quando Guilhermina aparece no palco. Muito determinada, com um sorriso calmo e fazendo sentir o prazer que tinha com o violoncelo. Consta, além disso, que recebeu o primeiro “cachet”.
Nesse mesmo ano de 1896, a 22 de Setembro, toca pela primeira vez no Clube de Leça. Interpreta Valsa Brilhante de Lee e Arlequim et Papillon de Popper, acompanhada ao piano por Virgínia. Depois do primeiro concerto no Teatro Gil Vicente, Suggia participa em todas as temporadas artísticas do Orpheon Portuense, como solista, integrando agrupamentos de música de câmara ( com ou sem acompanhamento de piano) ou ocupando o lugar de primeiro violoncelo na Orquestra dirigida por Bernardo Valentim Moreira de Sá (1853-1924)
Por esta altura tratava-se bem no Porto a grande música. Moreira de Sá, Nicolau Ribas, Miguel Ângelo, Marques Pinto e Joaquim Casella organizam a Sociedade de Música de Câmara, para dar a conhecer ao público do Porto as principais obras de música de câmara, apresentando não só o reportório clássico, mas também as obras contemporâneas. O Porto mantinha-se numa linha de vanguarda, não perdendo as obras de novos compositores.
Em O COMÉRCIO DO PORTO de 6 de Maio de 1874 pode ler-se sobre a Sociedade de Quartetos – a primeira portuguesa no seu género – que com esta iniciativa se procurou “constituir uma Sociedade destinada a propagar o gosto pela música clássica, por meio de concertos ou sessões musicais, em que serão executadas as mais apreciadas composições de Haydn, Boccherini, Mozart, Beethoven, Schumann, Mendelsshon, Sphor, Ries, Weber, Schubert e outros que cultivaram a música de câmara”. A inauguração desta SOCIEDADE DE QUARTETOS fez-se no Teatro S. João em 10 de Junho de 1874.
Em 1883 funda-se a Sociedade de Música de Câmara com Nicolau Ribas, Marques Pinto, Moreira de Sá, Alfredo Napoleão e Ciríaco Cardoso. Em 29 de Novembro de 1883 realiza-se a primeira sessão de música de câmara promovida por esta Sociedade.
Um outro acto pioneiro do Porto foi a criação do Orpheon Portuense. O Orpheon Portuense designava uma sociedade coral de amadores, com sede no nº 155 da Rua do Rosário. Henrique Carlos de Meirelles Kendall, que aí habitava, disponibilizou uma das suas salas e o seu piano para se fazerem os ensaios, enquanto o Orpheon não tivesse instalações próprias. A primeira apresentação em público é feita num concerto da Assembleia Portuense em 4 de Março de 1882 com composições corais.
Embora tendo iniciado as suas apresentações com composições para coro, o Orpheon Portuense executa todas as formas musicais, desde a música de câmara até à sinfonia ou à oratória com solistas, coros e orquestra. Ao fim de 30 anos de existência é possível contabilizar cerca de 280 concertos com a execução de mais de mil obras diferentes, sendo em grande número obras com primeira audição no Porto e, por isso, em Portugal. Ficaram célebres, por exemplo, os concertos para orquestra, sendo interpretados pela primeira vez os Poemas Sinfónicos Parisina e Ave Libertas do compositor brasileiro Leopoldo Miguéz, com a presença do próprio compositor, e a Sinfonia “À Pátria” de Vianna da Motta. Foram interpretadas obras de música de câmara dos clássicos e dos românticos e até 1920, quase todos em primeira audição, entre outros, foram executados os quartetos de César Franck; Vincent D’Indy, Debussy, Dvorak, Saint-Saëns, Brahms, Hugo Wolf, Borodine, Conrado del Campo, Malipiero, Tanéiev e trios de César Franck, Brahms, Ravel, Tschaikovsky, Rachmaninov, Saint-Saëns… Igualmente se ouviram obras de literatura para piano, violino e violoncelo, também muitas delas em primeira audição.
A convite do Orpheon Portuense, foi possível que o Porto assistisse às interpretações dos mais notáveis músicos, muitos dos quais nunca se apresentaram noutro local português. A convite do Orpheon Portuense, vem Maurice Ravel a Portugal, mais concretamente ao Porto, para um concerto único em 24 de Novembro de 1928, com um programa constituído exclusivamente por obras suas, em primeira audição. A 1ª parte foi preenchida pela obra “ Le Tombeau de Couperain”, que Ravel interpretou ao piano, por “ Ronsard à Son Ame” interpretada pelo autor e por Madeleine Grey (canto) e pela “Sonata para piano e violino”, executada por Ravel e por Claude Lévi (violino). A 2ª parte foi constituída por Habanera, três melodias hebraicas ( Madeleine Grey – canto) e por “Pavana para uma Infanta Defunta”, interpretada por Claude Lévi (violino). O piano esteve sempre a cargo de Ravel.
A criação do Orpheon no Porto foi um acto pioneiro em Portugal, “Lisboa ainda não o tinha” e poucos havia, aliás, na Península. A acção deste organismo contribuiu estruturalmente para a implantação da música erudita no Porto e para a formação de uma cultura de que as gerações sucessivas de músicos não podem deixar de sentir-se descendentes. Deve-se à existência do “Orpheon” a introdução do género lied em Portugal, sendo no Porto que esta forma musical apareceu pela primeira vez em programas de concertos. Sobre a repercussão das iniciativas musicais portuenses, diz-nos Luís de Freitas Branco o seguinte:
“Quando comecei a estudar música em Lisboa, onde nasci e onde tinha residido, os círculos, de que me aproximaram os encarregados da minha educação, viviam em conflito aberto com a opinião lisboeta em matéria de gosto musical. Chamo opinião lisboeta, à corrente dominante em Lisboa, a corrente então característica do meio musical da cidade. Nela ocupavam os principais lugares de orientação musical, não os continuadores da tradição próxima de João Domingos Bomtempo, ou da tradição remota dos tempos em que na capital ensinavam Duarte Lobo e António Fernandes, mas os descendentes artísticos da decadência italiana, nos domínios da ópera e da música religiosa.
Vianna da Motta aparecia na Lisboa deste tempo como um meteoro, respeitado, aparentemente, por todos, mas, na verdade, apenas pelo pequeno círculo de oposição à corrente dominante. Mais tarde se viu que estes, e os seus continuadores, eram os únicos fiéis, porque os outros se voltaram contra Vianna da Motta logo que viram o momento azado.
Onde encontrava Vianna da Motta ambiente mais próprio da sua mentalidade e da sua arte? No Porto. E porquê? Porque Bernardo Valentim Moreira de Sá, com a criação do “Orpheon Portuense”, organismo então único em Portugal, dera os últimos retoques a um longo e metódico trabalho cultural: à obra do levantamento do nível estético dos espectáculos musicais e da mentalidade dos músicos e do público da capital do Norte.
Desde criança ouvi dizer que no Porto havia público para “música clássica” o que não sucedia em Lisboa.
Por muito meditar nesta inferior situação da capital e estando em constante ligação com Bernardo Moreira de Sá, dois amigos dele, dois portuenses residentes em Lisboa, pensaram em criar uma associação exclusivamente consagrada à música elevada. Eram eles: Michel’Angelo Lambertini e António Arroyo. Defendia esta agremiação uma revista bi-semanal. Chamou-se a associação: Sociedade de Música de Câmara, denominava-se a revista: A Arte Musical ( A Arte Musical é uma revista publicada quinzenalmente em Lisboa). Ambas eram dirigidas por Lambertini, sem dúvida a principal figura deste movimento, mas nele andaram sempre juntos Lambertini e António Arroyo, unidos por uma amizade nunca desmentida, que o génio vivo de ambos não empanou nem por um instante, numa vida inteira de assídua convivência.
Quem começara, no Porto, o que estes ilustres portuenses continuavam em Lisboa? Moreira de Sá.
Por vezes ( não tão frequentemente como os seus amigos residentes em Lisboa o desejavam ) Moreira de Sá aparecia em Lisboa. Lembro-me de um concerto no Salão da Ilustração Portuguesa, com a sua filha D. Leonilda, concerto que foi o grande acontecimento da época. Lá estavam, na primeira fila dos entusiastas, além de Lambertini e António Arroyo, Manuel de Oliveira Ramos, outro grande portuense, Jaime Batalha Reis, Augusto Machado, tudo enfim o que havia de mais elevado no meio musical de Lisboa.
Todos estes pertenciam ao grupo de Arte Musical, e ainda: Alfredo Bensaúde, o dramaturgo e crítico musical João de Freitas Branco, Alexandre Rey colaço e Sousa Viterbo.
Mais tarde, quem organiza a comissão de reforma do Conservatório de Lisboa? Um portuense: o Ministro Alfredo de Magalhães; quem preside a ela? Outro portuense: António Arroyo; quem decreta a reforma? O portuense Leonardo Coimbra, tendo como director geral o portuense Augusto Gil, poeta de génio, amigo íntimo de Arroyo (Costa, 1947, 69-72).
Em Março de 1901, apresenta-se no Salão do Conservatório de Lisboa o QUARTETO MOREIRA DE SÁ, criado em 1884, animado pelo mesmo desejo que presidiu à fundação da Sociedade de Quartetos e da Sociedade de Música de Câmara.
O QUARTETO MOREIRA DE SÁ, para além de Bernardo Moreira de Sá como primeiro violino, contava com Henrique Carneiro como segundo violino, com Benjamim Gouveia na viola, e com uma rapariga de 15 anos a assegurar o violoncelo. Logo no Quarteto em dó maior de Beethoven, o público compreendeu que a violoncelista possuía qualidades musicais e artísticas extraordinárias. Tal impressão teve a mais rápida confirmação quando, dias depois, se apresentou ela no Salão Lambertini, no recital para violoncelo com acompanhamento ao piano.
Neste mesmo mês de Março recebe a jovem violoncelista e irmã um convite para tocarem no Palácio das Necessidades tal era a curiosidade real perante os ecos da presença de uma singular violoncelista portuense em Lisboa. Para além da nata da sociedade lisboeta, lá estavam D. Carlos, D. Amélia, o príncipe Luís Filipe, os infantes D. Afonso e D. Manuel, a rainha Maria Pia… e Suggia, majestosa. No final do recital a rainha D. Amélia, certamente impressionada com a música que acabava de ouvir, pergunta a Guilhermina Suggia o que é que ela mais desejava. A violoncelista não hesita em responder que queria aperfeiçoar os seus estudos no estrangeiro. Prometem-lhe o mecenato.
Guilhermina Suggia, apoiada incondicionalmente pelo pai, quer concretizar o desejo já nesse ano lectivo de 1901-1902. Fazem-se todos os esforços. Do compromisso real vai Augusto Suggia dando conta ao seu amigo Michel’Angelo Lambertini. Em 6 de Abril escreve o pai a Lambertini que Suggia e Virgínia receberam, por intermédio do Governador Civil, “duas ricas pulseiras donde pendem dois corações com rubis e brilhantes, mimo de S. Majestade a Rainha. Acompanha esta dádiva uma carta do Conde de Sabugosa, em nome de Sua Majestade. Como o meu amigo talvez queira dar notícia disto, envio-lhe cópia da carta.”
………….
"Paço das Necessidades, 2 de Abril de 1901
Ill.mas e Ex.mas Sr.as
D. Guilhermina Suggia e D. Virgínia Suggia,
Encarrega-me S. Majestade a Rainha de enviar a V-as Ex.as as inclusas lembranças, para lhes testemunhar o agrado com que as ouviu na noite em que aqui estiveram.
DE V.as Ex.as Alt.o Ven.dor
Conde de Sabugosa "
do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo
nao tem nada sobre luis de freitas barnco
por isso nao prestam para nada
nao tem nada sobre luis de freitas branco
olhe que tem. Se aprender a ler, verá.Tomamos o seu comentário apenas como um divertimento.
Afixado por: Vm em abril 25, 2004 12:55 AMCaro Sr Virgilio Marques
Permita-me o seguinte reparo, mas no texto faz-se a seguinte referencia:
"O Orpheon Portuense designava uma sociedade coral de amadores, com sede no nº 155 da Rua do Rosário. Henrique e Carlos de Meirelles Kendall, que aí habitavam, disponibilizaram uma das suas salas e o seu piano para se fazerem os ensaios, enquanto o Orpheon não tivesse instalações próprias."
Henrique e Carlos "são" uma só e mesma pessoa.
Os meus melhores cumprimentos e parabens pelo Blog.
António Ribas
Caro Sr António Ribas.
Claro que tem toda a razão. Henrique e Carlos são uma e só pessoa. Assim consta no livro de Fátima Pombo "Guilhermina Suggia- A Sonata de Sempre". O erro foi só meu.
Os meus agradecimentos e as desculpas pelo lapso