O som de cada instrumento individualiza-se com a pessoa que o faz e pode tornar-se inconfundível, como um sinal de pele.
Suggia costumava dizer que o que não ama a música, o que não a ama profundamente, plenamente, não pode ser um bom intérprete. Mas isso não chega, avançava ela. O que se serve da música para atingir glória em nome próprio, em vez de se tornar o nome próprio, em vez de se tornar o mais íntimo servidor dela, é provável que só atinja sucessos efémeros.
Suggia não poderia concordar com a opinião do violoncelista polaco Emmanuel Feurmann (1902-1942), que associa musicalidade a existência viril. Feurmann é de opinião que “o violoncelo é um instrumento masculino, porque requer força física para produzir um som volumoso. A mão esquerda de um violoncelista precisa de ser forte e, ao mesmo tempo, flexível, porque a tensão que tem de manter é imensa”.
Guilhermina Suggia, de temperamento invulgar, penetra intimamente nas obras, desmonta com minúcia as ideias do compositor e transforma uma frase musical em algo de grandioso.
Quando o som do violoncelo é convocado pelas mãos e pela mestria de Suggia fica mais perto da natureza humana. Ela sente a música, mas sente também o público e faz dele o que quer. A pose em que segura o violoncelo junto ao corpo, mas afastando dele a cabeça, que dirige para o alto, é o prelúdio do acto em que dominará completamente a audiência. Suggia interpreta a música ao mesmo tempo que interpreta a cena de estar a interpretar a música.
O som é sensual, mas não deixa de ser nítido e pode ser profundamente comedido. A mestria no violoncelo é evidente: o peso equilibrado do arco nas linhas melódicas, a impecabilidade da mão esquerda, o tom quente, macio, polido, suave, dramático… a distinguir as peças. Tem uma técnica colossal, uma afinação meticulosa e uma potente sonoridade. Suggia, que fez coincidir a carreira de violoncelista com a vida, deixa-se penetrar pela música em cada um dos seus actos.
No mundo só teve um rival e um companheiro, ao mesmo tempo do destino e do violoncelo – Pablo Casals. E se é verdade que durante uns anos se falou pelo mundo no excepcional “duo ibérico”, mesmo com as vidas separadas, Suggia e Casals continuaram a ser a referência máxima do violoncelo, colocados a par pela crítica sempre incapaz de decidir-se pela hierarquia.
A Suggia foram atribuídas qualidades e interpretações únicas que, dizia-se, teriam de ficar para sempre ligadas ao seu nome, como por exemplo a suite nº 3 em dó maior e a suite nº 1 em sol maior para violoncelo solo de Bach. Guilhermina Suggia percorreu prodigiosamente todos os grandes centros musicais da Europa e recebeu as mais finas honras e os mais entusiasmados aplausos.
Em Portugal, apesar de elogios sinceros, e de amigos incondicionais, Suggia sofreu a ambiguidade e a mesquinhez de alguns medíocres. Quase 50 anos depois da morte é completamente ignorada por muitos, mesmo músicos. Já são poucos, também, os que podem dizer que a ouviram tocar, que a viram caminhar na Rua de Santa Catarina, passear os cães cedo pela praia de Leça da Palmeira ou a abrir a porta de casa.
A memória de Guilhermina Suggia dispersa-se pelas casas dos que têm elementos seus, objectos de sombra. Poderemos apenas lamentar que o nº 665 da Rua da Alegria não tenho sido transformado em Casa-Museu como ela tanto desejou?
O que saberá de Suggia a geração dos seus violoncelistas-bisnetos?
Fátima Pombo
Publicado por vm em fevereiro 10, 2004 09:17 AM