Nos finais do séc XIX e princípios do XX, a escola alemã de violoncelo era a mais conceituada. Aí se formavam excelentes músicos como solistas, intérpretes de música de câmara ou de orquestra, sendo alguns também excelentes professores.
Dois enormes vultos destacam-se como professores de violoncelo: Julius Klengel e Hugo Becher. Representando ambos a escola de Dresden, a partir de uma referência comum – Friedrich Wilhelm Grütz-macher (1832-1903) – divergem na atitude pedagógica. Becker centrava-se nos aspectos “científicos” do ensino, dando muita importância à anatomia e à fisiologia. Klengel tinha uma relação mais empírica e mais versátil com os alunos.
Só em Outubro (1901) Augusto Suggia tem novidades sobre a bolsa para Guilhermina Suggia e imediatamente as revela a Lambertini.
“Meu bom amigo,
Dou-lhe a agradável notícia de ter sido concedida a pensão do nosso governo para a Guilhermina ir ao estrangeiro, como nós tanto desejámos.
Receba recomendações de todos nós.
Seu amigo muito obrigado,
A.Suggia”
Ainda em Outubro, afirma o pai com alguma apreensão:
“Por enquanto não lhe posso adiantar mais notícias do que lhe mandei dizer. Só sei que Guilhermina vai para Leipzig receber lições do notável violoncelista Julius Klengel, porque o subsídio é concedido para ela ir aperfeiçoar e completar a sua educação como violoncelista. Dizem-me agora aqui que querem fazer uma festa no Orpheon para despedida da Guilhermina e também para o produto auxiliar a minha ida com ela.
A nossa partida é para o fim deste mês e partimos de Lisboa onde temos de ir agradecer. A Guilhermina anda doida… de contente.
A. Suggia”
Um grupo de pessoas com certa influência na sociedade Portuense une-se para organizar a festa de despedida de Guilhermina Suggia.
Redigem uma carta que explica as razões de tal iniciativa e que é ao mesmo tempo um convite para assistir ao último concerto de Guilhermina antes da partida para Leipzig.
O concerto realiza-se, tocando Guilhermina, pela 50ª e última vez com Moreira de Sá em conjunto de câmara. Da colaboração iniciada desde 1898, quando ela, com 13 anos, integra o Quarteto para substituir Joaquim Casella, podem contar-se inúmeras peças de um elenco diversificado de autores como Bach, Beethoven, Boccherini, Böllman, Brahms, Bruch, Costa (luís) , Dandrieu, Davidoff, Dupuits, Dvorak, Fauré, Glazounov, Haydn, Klengel, Lalo, Locatelli, Popper, Raff, Saint-Saëns, Sammartini, Schumann, Senaillé, Silva (Óscar), Sinigaglia, Tchaikovsky, Valentini, Veracini, Volkmann.
Talvez possam destacar-se as sete sessões de 29 de Janeiro de 1900 a 26 de Março que o Quarteto dedicou à exposição de música de câmara de Beethoven ( com excepção das sonatas para piano ) já que Guilhermina se referirá mais tarde a este acontecimento como referência musical da sua vida artística. Suggia destacará sempre a musicalidade e o génio empreendedor de Moreira de Sá, que tornou o Porto num centro musical, muito contribuindo para preparar o público melómano.
Suggia ficou-lhe grata para toda a vida. Parece, aliás, que Guilhermina, se podia ficar a detestar alguém para sempre, demonstrava igualmente uma generosidade e uma gratidão eternas se lhe fizesse algum bem. Em 1924, transbordando o seu nome de fama, toca voluntariamente para Bernardo Moreira de Sá no seu leito de morte. Foi a última música que esse homem fruiu.
A 15 de Novembro de 1901, a ARTE MUSICAL dá a notícia, assinada por Bernardo Moreira de Sá, da partida para Leipzig da “violoncelista D. Guilhermina Suggia, acompanhada de seu pai e nosso amigo o sr. Augusto Suggia. Tomaram o paquete em Vigo e seguem por via Bremen, para a grande cidade alemã, onde como já dissemos vai a talentosa jovem colocar-se sob o patrocínio artístico de Julius Klengel.”