JULIUS KLENGEL (1859-1933)
Nasceu em Leipzig, numa família de várias gerações de músicos profissionais.
Teve as primeiras lições de música com o pai e as primeiras lições de violoncelo com Emil Hegar, violoncelista principal da Orquestra da Gewandhaus, tendo sido aluno de Grützmacher e de Davidov.
Com 15 anos integra a famosa Orquestra da Gewandhaus, sendo o violoncelista principal de 1881 a 1924. Furtwängler dirigiu o Concerto de Jubileu dos 50 anos de Klengel como violoncelista dessa Orquestra.
Em 1881 é nomeado também Real Professor do Conservatório de Leipzig.
Viajou por toda a Europa como solista e como membro do Quarteto de Gewandhaus. Era admirado pelo seu estilo de fina sensibilidade e pela impecável técnica, particularmente nas sonatas de Beethoven e nas suites para violoncelo solo de Bach.
O seu conhecimento de música de Câmara era vastíssimo, dizendo-se que conhecia a participação de cada instrumento, no reportório comum. É também sabido que Klengel acompanhava os seus alunos ao piano, tocando tudo de memória.
Como compositor escreveu bastante para o seu instrumento: quatro concertos para violoncelo e orquestra, dois concertos para dois violoncelos, dois concertos para violoncelo e violino, uma sonata, caprichos e um hino para 12 violoncelos dedicado à memória do maestro Arthur Nikisch, para além de exercícios de técnica para violoncelo.
Fez edições de sonatas e concertos do reportório clássico e uma edição das suites para violoncelo solo de Bach, que ainda é usada. É um equívoco considerar que Casals foi o primeiro a trazer as suites a Bach a público.
Klengel fazia os seus alunos tocarem as suites de Bach desde 1880. As Sonatas de Beethoven também faziam parte desses estudos. Klengel é lembrado como excepcional professor. Nos seus anos de ensino no conservatório de Leipzig teve como alunos famosos Emmanuel Feuermann, Paul Grümmer, Joachim Stutschewsky, Edmund Kurtz, Gregor Piatigorsky, William Pleeth… e, claro, Guilhermina Suggia. O Conservatório de Música de Leipzig era famoso pela exigência do ensino e pela exigência na selecção dos alunos.
Sobre Klengel declara Pleeth que “ o que eu gostava nele, era ser, de facto, um homem muito simples. Não tinha caprichos nem sofisticação. Era muito honesto e eu gostava muito dele por isso. Klengel nunca nos encorajou a copiar, e se se reparar nos muitos tipos de interpretação dos seus alunos constata-se que somos todos muito diferentes”.
Dos acontecimentos em Leipzig, são as cartas de Augusto Suggia ao seu amigo Lambertini que nos esclarecem.
“Leipzig, 28 de Novembro de 1901
O Julius Klengel já ouviu a Guilhermina e gostou muito e deu-lhe bravo e nas composições dele que ela tocou disse-lhe que nada tinha a dizer-lhe, nem a mudar nem a acrescentar e que toma conta dela, mas com entusiasmo, e que em poucos meses ela poderá tocar no Gewandhaus em Leipzig e que depois disto tem a sua reputação feita. A Guilhermina está muito animada.
O Arthur Nikisch ouve-a amanhã. A propósito de Nikisch ninguém lhe falou aqui.”
Na margem desta carta escreve ainda:
“Orquestra de Nikisch (divina!!!)”
“Leipzig, 1 de Dezembro de 1901
Dou-lhe parte que Guilhermina já principiou as lições com o Julius Klengel; estão entusiasmados um com o outro. A Guilhermina recebeu aqui uma grande distinção e foi que tendo sido apresentada ao Arthur Nikisch ele não a quis ouvir em casa, mas sim no Gewandhaus e acompanhada por ele próprio. Disse ele que era para melhor a apreciar e avaliar. Estava presente o quarteto clássico. A Guilhermina foi muito feliz e o Nikisch deu-lhe muitos bravos e teceu-lhe grandes elogios. Esta acção de Nikisch é considerada aqui como uma grande honra para a Guilhermina.
Tocaram muitas peças.”
Também Julius Klengel distingue Guilhermina honrosamente. Klengel, que escrevera uma peça para violoncelo sem acompanhamento – CAPRICHO EM FORMA DE CHACONNE – compondo livremente sobre um tema de Schumann, ao reconhecer o talento musical com que Guilhermina a interpreta numa das suas lições, com tão pouco tempo de preparação, dedica-lha com “muita amizade”.
Augusto Suggia, em Leipzig, com a filha mais nova, não deixa de preocupar-se com Virgínia e de novo recorre ao amigo:
“Leipzig, 11 de Janeiro de 1902
A Guilhermina vai perfeitamente nos seus progressos e o Klengel está cada vez mais contente com ela, que tem estudado com grande ardor e entusiasmo.
A Virgínia quer ir tocar a Lisboa, mas agora é uma altura má. Como boa filha e irmã que é, não quer que eu deixe aqui só a Guilhermina e é ela que me subsidia, porque o subsídio do Estado é só para a Guilhermina. Por isso, teve que tomar grande número de discípulas, as quais todas pagam aos meses. Tem um trabalho imenso e ainda por cima o estudo do piano. A ida a Lisboa não a podem realizar ela e a mãe por menos de 54.000 réis. Lembrou-me então uma coisa e era: o Lambertini combinar aí com o Henrique Lauvinet ou com a Direcção da Real Academia para ela tocar lá num concerto e eles assim minorarem alguma coisa o gasto que ela faz. E toque bem as trombetas da fama, porque ela merece-o bem; é uma bela artista e um modelo extraordinário de boa rapariga e excelente filha.”
O ano lectivo de 1901/1902 está a terminar e Guilhermina deverá regressar ao Porto para as férias de Verão. Klengel tem, contudo, projectos inusitados para Guilhermina e considera que ela não deve fazer nenhuma pausa nas lições com ele.
O pai orgulha-se com esta recomendação, mas colocam-se-lhe graves problemas financeiros, como revela a carta seguinte:
“Leipzig, 22 de Junho de 1902
Não lhe tenho escrito porque não tem havido grande novidade digna de menção. É extraordinário o que o Julius Klengel diz da minha filha: está encantada com ela. Pediu-me muito para ficarmos aqui este verão para não haver interrupções nas lições, pois quer apresentar a Guilhermina em público no próximo Inverno. Uma apresentação aqui é caso sério e principalmente agora que este professor tem no Conservatório algumas notabilidades em violoncelo. Actualmente há no conservatório artistas de altíssimo valor, principalmente em piano, violino e violoncelo. Verdadeiros talentos! Como terminou o prazo de subsídio do Estado, pedi ao professor Klengel um certificado ou atestado do estudo e progresso da Guilhermina para enviar para Lisboa ao ministro. Este atestado foi ontem para Lisboa e estou certo de que deve causar muita satisfação. E um certificado honrosíssimo para a Guilhermina. Não temos aqui quem o traduza, mas a Guil lembrou-se de tirar uma cópia para lhe mandar. Esta cópia deve ter alguns erros, porque a letra do original é difícil de ler, mas um alemão ou quem saiba bem a língua alemã facilmente corrigirá.
A Guil está entusiasmada e poucos cumpririam melhor a sua missão do que ela. Nem julguei que fosse preciso tanto para tocar violoncelo. Do professor Klengel só lhe digo que: como concertista, quando o oiço faz-me esquecer todos os outros bons artistas que tenho ouvido; como professor, basta dizer que todos os modernos concertistas de violoncelo alemães são discípulos dele. É admirável. O Óscar da Silva conhece-o bem e a ele devemos nós a felicidade de ter este mestre colossal”.
O certificado de Julius Klengel que chega a Lisboa não deixa dúvidas sobre as qualidades excepcionais de Guilhermina.
Escrito à mão pelo professor e datado de 19 de Junho de 1902 diz que: “ o abaxo assinado atesta por esta forma que mlle Guilhermina Suggia desde fins de Novembro de 1901, tem feito os mais eminentes progressos na sua Arte. A notável impressão que o abaixo assinado recebeu quando recebeu a jovem artista, tem sido com o andar do tempo, não só confirmada mas ainda excedida, pela precisão e cabal execução que a jovem senhora tem revelado. Com surpreendente prontidão tem Mlle Suggia preenchido as lacunas do seu repertório e trabalhado com uma aplicação de ferro no seu aperfeiçoamento. Sem dúvida não tem havido uma violoncelista com o mérito da artista de que me ocupo, mas também não tem a recear o confronto com os seus colegas do sexo masculino.
Mlle.Suggia possuindo alta inteligência musical juntando a uma grande compreensão um completo conhecimento da técnica, tem o direito de ser considerada, no mundo artístico, como uma celebridade.
O abaixo assinado teria muito prazer que Mlle. Suggia se pudesse consagrar à literatura do violoncelo, actualmente tão desenvolvida”.
Guilhermina permanece em Leipzig durante todo o verão a estudar com Klengel, que congemina o lançamento artístico dela para a póxima temporada de Inverno.
“Leipzig, 3 de Julho de 1902
A Guilhermina foi apresentada pelo professor Julius Klengel à direcção do Gewandhaus e professor Arthur Nikisch para avaliarem os seus progressos, sendo resolvido com entusiasmo que ela tome parte em 2 concertos. Todo o Concertista no Gewandhaus tem duas apresentações – um concerto de dia, um concerto à noite. É digno do maior elogio, este grande professor Klengel, pela maneira entusiástica como tem conduzido o ensino de Guilhermina e interessando-se pelo seu futuro artístico. Tendo este professor receio que o Arthur Nilkisch trouxesse do estrangeiro já completos os contratos e programas dos concertos do próximo Inverno e que são organizados até fim de Junho, afirmou sob sua palavra de honra que cedia a Guilhermina o seu lugar no concerto, para que já estava contratado com todas as honras e proventos, só para lhe dar a maior prova de consideração em que a tem. Diga ao Óscar da Silva que lhe estamos muito gratos por nos indicar este grande mestre.
Augusto Suggia”.
Um ano depois da partida do Porto, Guilhermina domina Leipzig. A Gewandhaus é a primeira sala de concertos da Alemanha e uma das primeiras do mundo. Só os grandes artistas podiam ambicionar tocar nesta sala.
Suggia, com pouco mais de 15 anos teve a rara oportunidade de ser convidada como solista pela Sociedade de Concertos de Gewandhaus.
“Leipzig, 23 de Novembro de 1902
A minha filha foi convidada pela Direcção do Gewandhaus para tomar parte no XIX concerto, dia 26 de Fevereiro, com o costumado ensaio público na véspera. Aqui tem a grande importância tal facto e para solenizar este grande sucesso o professor J. Klengel organizou na noite de 9 deste mês, com a cooperação do quarteto de música de câmara do Gewandhaus, uma esplêndida festa em honra da minha filha Guilhermina. Do quarteto fazem parte: Félix Berber, Erhard Heyde, Alexander Lebald e Julius Klengel.
O retrato dela estava na sala enfeitado com flores e fitas pintadas pela própria senhora do Klengel e onde se lia: “Vive la Grande Artiste”. À entrada de Guilhermina Suggia na sala, os aplausos duraram cerca de 5 minutos. A seguir, o professor proferiu um discurso enaltecendo o mérito e as qualidades artísticas de Guilhermina. Em seguida o quarteto executou o Quarteto de Beethoven (op 130) e o Quarteto de Novacek (op 10) e diversas peças a solo pelos elementos do quarteto. Quando a Guilhermina tocou foi aplaudidíssima, tendo que bisar quase todas as peças. Entre as pessoas presentes estavam sete violoncelistas, sendo 2 russos (de S. Petersburgo). Um russo entusiasmado disse: “ Eu já tenho ouvido falar dos talentos portugueses e agora vejo que para se tocar deste modo e com este sentimento é preciso ser-se português.”
Faz hoje, 23, um ano em que chegámos a Leipzig.
Augusto Suggia”
Esta é a carta a que se refere tão entusiasmadamente o pai de Guilhermina; está datada de 25 de Outubro de 1902 e é assinada pelo Dr. Lampekischer, Presidente da Direcção da Gewandhaus:
“Excelentíssima Senhora,
Em nome da direcção da Gewandhaus tomo a liberdade de convidar V. Exa a participar no XIX Concerto Comemorativo a realizar no dia 26 de Fevereiro ( com ensaio geral, e entrada livre, no dia 25 de Fevereiro, quarta-feira, da parte da manhã, às 10 ½ h) dando-nos o gosto de ouvi-la em qualquer concerto para violoncelo. O senhor professor Klengel teve já a amabilidade de nos informar da sua anuência, mas não queremos deixar de convidar V. Exa pessoalmente, pois temos muito prazer em lhe dar a oportunidade de se apresentar ao público da Gewandhaus.
Na esperança de ter notícias de V. Exa, como confirmação da sua colaboração, subscrevemo-nos atentamente”.
Suggia toca no concerto de 26 de Fevereiro e torna-se um caso único nos anais da Gewandhaus.
Interpreta o concerto de Volkmann, acompanhada pela Orquestra da Gewandhaus sob a direcção de Artur Nikisch, No final dá-se um caso insólito. O maestro, perante um público que insistentemente gritava “bis”, sentiu-se obrigado a quebrar o regulamento e a permitir que a violoncelista repetisse na íntegra a obra executada, depois de terminado todo o programa dessa noite.
Até essa data nunca tocara na Gewandhaus nenhum atista tão jovem e, pela primeira vez, apresenta-se como solista uma mulher.
Depois do sucesso nessa noite, Suggia penetra definitivamente na atmosfera rarefeita dos músicos excepcionais, ficando lançada para uma carreira a solo.
A profecia de Julius Klengel, quando tocou com ela, cumpriu-se.
Num concerto antes da apresentação na Gewandhaus, tocando um dueto para violoncelo, Klengel deu-lhe a parte de primeiro violoncelo. Os professores do Conservatório de Leipzig espantaram-se quando assistiram à glória do Conservatório a tocar em público o segundo violoncelo e censuraram-no por isso.
Klengel disse-lhes que “ sou já velho, começo a declinar, ela é nova, cheia de talento, conhecedora de todos os segredos do violoncelo, começa a subir e há-de ir tão alto que ninguém a atingirá”.
Em finais de Março regressa a Portugal, tocando ainda, na viagem, em salas de concerto alemãs.
do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo
Caro/a VM: Peço desculpa pela intromissão. Gostaria p.f. de lhe colocar uma questão, embora esta nada tenha que ver com o post que acima coloca: onde poderei encontrar informações sobre o João Domingos Bomtempo? Desde já agradeço a atenção, solicitando contacto pelo mail acima referido. Muito obrigado. Atenciosamente, Paulo Ferreira.
Afixado por: Paulo em fevereiro 22, 2004 09:32 PM