Guilhermina Suggia entrega-se à comunicação sensual do que está na partitura e consegue a rara proeza de ter uma técnica rigorosa. Dentro de um estilo exaltado e brilhante, Suggia era uma artista total. E se, numa análise superficial, o que ressalta nas suas interpretações é a expressão, é porque a técnica é tão perfeita que nem se dá conta que está lá como suporte seguro.
Um estilo nem excessivamente clássico nem excessivamente romântico e seria incorrer em simplismo identificá-lo unilateralmente.
Intérprete romântica é o primeiro impulso para a nomear, porque o rosto e o corpo dela reflectem o humor de cada nota. Mas as notas não são todas românticas e ela é capaz de mostrar a pureza das frases de uma forma irresistivelmente convincente.
Tem sempre um ar de poderoso domínio: o violoncelo obedece-lhe e a audiência obedece-lhe.
Pode ser majestosamente austera na interpretação: “(...) mesmo nas elegantes frases líricas do movimento lento de Dvorak ela não se permitiu ser levada pela sua doçura, mas controlou-a e manteve-a bem entre limites, como tal nunca houve o subtil perigo da degeneração do sentimento em sentimentalismo”. - afirma-se no The Daily Mail de 5 de Março de 1939.
A interpretação de Suggia não era só para os ouvidos ou para os olhos, mas apela à complexidade sinestésica do indivíduo. A forma de ela tocar violoncelo é visceralmente atravessada pelo seu temperamento e pelo seu carácter de ser invulgar. A sua paixão, energia, vivacidade de espírito, generosidade, ressentimento cruzavam-se com instinto musical, fascínio, fazendo dela uma excitante dona do violoncelo.
Percorrendo as variadas críticas aos seus concertos, «glamour» é o adjectivo repetido, simultaneamente para o som e para o temperamento. «Glamour» de encanto, feitiço, fascínio, sedução.
De Suggia é preciso, aliás, afirmar que não só era a maior violoncelista, como um dos mais supremos artistas.
Toca com uma aura de total absorção e mestria que contagia a audiência. Quando começa, acende-se alguma coisa dentro dela e a música nasce, mostra-se não só através do rosto dela, mas de cada músculo do seu corpo que se movimenta com o violoncelo. Suggia possui a qualidade de magnetizar a audiência quando toca, levando-a se quiser ao cúmulo do entusiasmo. É comum ler-se nas críticas que os aplausos são estrondosos, ressoando nas salas, com assistências enfeitiçadas. Suggia, mais do que aplaudida, é aclamada.
Um episódio contado por João de Freitas Branco em 12 de Julho de 1989, no Porto, mostra como Suggia dá significado ao aplauso.
«Isto passou-se exactamente assim e foi o primeiro contacto que tive com, Guilhermina Suggia: no concerto do grande pianista Walter Giesekinng, no Teatro São Carlos, para os sócios do Circulo de Cultura Musical.
Eu, que era muito novo e tinha em Giesekinng um dos meus grandes ídolos, aplaudi-o de uma maneira juvenil, entusiástica e ruidosa. Chegou o intervalo. Guilhermina Suggia também tinha estado a assistir, numa frisa. (Eu estava na plateia; ela eslava numa frisa, com Malcolm Sargent.) Ao sair da sala, ia eu a virar para o corredor do Teatro S. Carlos quando me cruzo com ela a sair da frisa. A sensação que tive foi a de que uma pantera tinha saltado positivamente sobre mim: sem dizer mais nada, sem nunca me ter falado, ela deu-me um beijo. E depois, a seguir disse: "Assim é que se deve aplaudir um grande artista!" Quer dizer: ela tinha estado a reparar na maneira como eu tinha batido palmas e gritado para Giesekinng e quis-me mostrar, deste modo, que eu estava no bom caminho e que devia continuar a aplaudir assim os grandes artistas».
Dir-se-ia que o violoncelo era mais do que um órgão do corpo dela e que através dele ela deixava aparecer heterónimos.
Tinha movimentos largos e livres e o charme de quem sabe que domina aparecia-lhe no rosto oriental iluminado por um misterioso sorriso.
Quando a orquestra retomava uma secção e Suggia esperava pela sua continuação, sorria, mantendo os olhos cerrados. O público rendia-se-lhe.
Favorita dos deuses é o epíteto que melhor pode descrever esta jovem artista, pela sua incomparável interpretação das obras dos grandes mestres... E prossegue o autor em The Ladies' Field em 7 de Junho de 1919:
«A beleza do seu semblante de um primitivo tipo italiano, a boca amável, com uma sugestão de energia a mover-se nos cantos, o fulgor da alma, as rápidas mudanças da expressão de que a sua fisionomia é capaz! Observando de perto a artista enquanto toca, pode ver-se reflectido no seu rosto o estremecimento da alma com as mais violentas ou mais delicadas emoções».
No Brighton Herald de 8 de Dezembro de 1934 lê-se que:
«Pode-se ser perdoado por se pensar em Guilhermina Suggia como sendo a expressão musical do puma, das florestas sul-americanas, esplendidamente flexível, vigorosamente graciosa, imensamente decorativa, segurando pela trela da esboscada uma paixão dormente, até que, no momento do clímax, toda a brilhante inteligência salta e atinge o seu fim. É altamente excitante. E imensamente impressionante».
Num recital dedicado a Bach, no Wigmore Hall de Londres em 3 de Dezembro de 1929, declara o crítico no Musical Standard do dia seguinte que a ouviu e que a sentiu «com a expressão de uma rainha trágica».
O mais reputado e temido crítico inglês, Ernest Newman, afirma a respeito de Suggia:
«A vida em Londres tem as suas compensações musicais. Por exemplo ouvir Madame Suggia duas vezes em três dias. E um dos raros e realmente grandes intérpretes de instrumentos de corda».
A 29 de Janeiro de 1937 escreve Francine Benoit a propósito do segundo concerto da temporada na Sociedade de Concertos de Lisboa que:
«Além do excepcional talento de Suggia, há que admirar e render homenagem à sua energia, à sua força de vontade, ao seu domínio sobre uns nervos duma sensibilidade agudíssima. Tout se tient, dizem os franceses: naqueles nervos e naquela reacção forte da vontade está toda a maior característica da arte de Suggia. Dominaram novamente o palco - e o teatro todo, completamente cheio - a sua figura (...), as suas feições vincadas, as suas expressões pessoalíssimas (que têm sido tão imitadas...) e que nunca mais esquecem a quem as viu uma só vez. Sensibiliza porventura um pouco o público anónimo que Suggia nunca se digne abaixar - ou erguer - os olhos até ele, mas os artistas do traço e da cor admiram incondicionalmente essa viva imagem da arte no seu aspecto mais avassalante».
Se há um critério para Suggia, é Suggia. É bom seguir o som dela ao longo dos anos e constatar as nuances.
Um modo de o conseguir é através de críticas à mesma peça interpretada em anos diferentes.
Para o concerto de Dvorak recorremos também às palavras de Suggia.
Parece que Suggia mantém uma sonoridade poderosa - masculina, disseram-no - e a arcada voluntariosa. Porém, à medida que envelhece, se os nervos não vibram menos, há neles um domínio mais sereno, uma maior tendência para a doçura e o sorriso parece esboçar mais compreensão humana. Da orquestra exige Suggia também mais discrição, mais andamento, ritmo menos farpado.
do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo