GUILHERMINA SUGGIA estuda sempre e com uma persistência e dedicação que o episódio seguinte bem caracteriza.
Em Londres, Suggia mora num segundo andar. A vizinha dela – Miss Caroline Mona Ada Marriott – queixou-se à sua senhoria – Mrs.Selina Vénus Wyatt -, reclamando uma indemnização pelo contrato de arrendamento não ser respeitado. No contrato diz-se que não será permitido aos inquilinos incomodar ou fazer distúrbios. Miss Marriott cedo descobriu que num dos apartamentos do andar de cima, Suggia, para além de dar aulas de violoncelo, tocava continuamente. O “barulho” começa pelas 10 horas da manhã e prolonga-se frequentemente até às 11 da noite. Diz Miss Marriott que lhe parece ouvir a mesma nota a ser tocada pelo menos 100 vezes em cada manhã. Acrescenta que Suggia mudou-se para lá no Outono de 1922 e até agora – 1924 – nunca deixou de tocar.
Miss Marriott ficou doente, consultou um médico e considera Mrs Wyatt culpada por permitir que o “barulho continue”.
A senhoria, Mrs Wyatt levou no dia 1 de Abril de 1924 o caso a tribunal. Mrs Wyatt afirmou nunca ter dado permissão a Suggia de dar lições. Uma outra vizinha – Mrs Amélia McCullum – que habita o apartamento por cima de Suggia foi ouvida como testemunha e afirmou que o som de Suggia é suficientemente alto para se ouvir, mas que nunca a incomodou.
O juiz disse a Miss Marriott que ela tem razão quanto às lições de violoncelo, mas que encaminhou mal a queixa. Devia ter apresentado queixa contra Suggia e não exigir indemnização a Mrs Wyatt que não deu permissão a Suggia para que desse lições de violoncelo. Perante o caso, o juiz tem que encerrar o processo com custos por conta de Miss Marriott.
Os jornais ingleses ocuparam-se vivamente desta história, fazendo amplos elogios a Suggia, que, apesar de famosa, estudava com a tenacidade de quem inicia a carreira. Segundo Guilhermina Suggia ela é a sua crítica mais lúcida e vigilante e, por isso, a mais severa.
“-Não fui nunca contagiada do mal de inveja nem do mesquinho sentimento da vaidade. Confesso, no entanto, que me sinto orgulhosa de mim mesma. Não me envaideci, nem me envaideço – pelo que sou e pelo que valho. Como artista sou sempre insatisfeita, buscando a todo o momento atingir a perfeição suprema. Estudo todos os dias – e estudo ainda, como outrora, para aprender o muito que me resta saber. Quando toco em público e sou feliz da minha interpretação, gosto que me aplaudam entusiasticamente, pois antes que o auditório se manifeste eu já me tenho aplaudido a mim própria, no íntimo contentamento dum sincero prazer espiritual. Eu sou o crítico mais austero do meu trabalho artístico. Por isso mesmo quando me convenço que não fui feliz na minha interpretação, não me envaidecem nem me comovem os aplausos ou as aclamações dos que me escutaram. Em minha consciência, essas manifestações são imerecidas. E, sendo assim, apenas as agradeço – mas não as aceito na reconhecida gratidão da minha alma de mulher e de artista…”
do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo