fevereiro 26, 2004

A Vida com Pablo Casals

Sabe-se que Suggia, em 1906, está em Paris e que nessa altura tocou para Casals, mas não se sabe a data exacta em que começa a partilhar com ele a mesma casa.
A primeira vez que conheceu Pablo foi no verão de 1898 em Espinho. Casals tinha sido contratado pelo Casino de Espinho para tocar durante o estio, nas noites do Casino. Eram sete os músicos, mas uma vez por semana Pablo tocava a solo. Dos concertos foi ecoando a reputação e os melómanos começaram a afluir de todos os sítios. Do solista dizia-se que “transformava um café numa sala de concertos e esta num templo”.
Casals conhece também Bernardo Moreira de Sá nesse verão. No ano seguinte é convidado por Moreira de Sá para dar um recital no Porto. Casals gosta de Moreira de Sá, da sua musicalidade, energia, entusiasmo e aceita fazer com ele uma tournée de seis semanas pelo Brasil. O trio – Moreira de Sá, Pablo Casals e Harold Bauer – deixa Lisboa em 3 de Maio de 1903 e ancora no Rio de Janeiro no dia 21. Dão 11 recitais em 5 cidades, regressando em Agosto.
Voltemos a 1898, para dar conta do entusiasmo do pai de Guilhermina, que, atraído pela fama do violoncelista, leva a filha de 13 anos para ele a ouvir.
Casals considera-a magnífica e aceita dar-lhe lições.

Guilhermina passa o Verão a viajar em lentos comboios, carregada com o violoncelo, enquanto ele por ali trabalha.
Encontram-se outra vez em Leipzig durante as visitas de Pablo ao professor Julius Klengel.
Em Paris, Casals aceita não só dar lições a Suggia, mas ainda dar-lhas em casa, a qualquer hora.
No Outono de 1899 dá-se uma viragem fundamental na carreira de Casals. O Conde Morphy apresenta-o a Charles Lamoureux, fundador e director da famosa orquestra que tomou o seu nome.
Os concertos que dá com a orquestra Lamoureux são um tumultuoso êxito. Casals passa a residir em Paris, um dos centros culturais mais marcantes da Europa. Apesar de Paris, do ponto de visto da música erudita, ser inferior a Berlim, Viena ou Londres, os músicos gostavam de habitar na cidade. Havia poucas salas de concerto: a Salle Erard, a Salle Pleyel, a Salle dês Agriculteurs.
Os concertos sinfónicos só se realizavam aos domingos: os músicos tocavam nos outros dias em teatros, que detinham o lugar de espectáculos de entretenimento.
As 3 maiores orquestras era a Société dês Concerts du Conservatoire, a Societé dês Concerts Colonne e a Société des Concerts Lamoureux. Pablo Casals incluía no seu círculo de amigos os pintores Degas e Eugène Carrière, o filósofo Henri Bergson, o escritor Romain Rolland, ou músicos Ysaÿe, Thibaud, Cortot, Bauer e compositores como d’Indy, Enesco, Ravel, Schöenberg, Saint-Saëns…
Durante a 1ª Guerra Mundial, Casals permanece em Nova York, voltando para Barcelona em 1919.
Com o rebentar da guerra civil de Espanha, devido aos seus ideais e práticas republicanas tem de abandonar Espanha. Parte para a pequena cidade francesa de Prades sob a ameaça do chefe de propaganda fascista: se apanhasse Casals poria fim às suas actividades políticas, cortando-lhe os braços pelos cotovelos.
Casals viveu em Prades num exílio de duas décadas na casa que chamou El Cant dels Ocells ( O canto dos Pássaros é uma canção popular catalã).
As tournées continuavam a atraí-lo por todo o mundo. Quando o governo inglês reconheceu o regime de Franco em Espanha, Casals decidiu que jamais tocaria em Inglaterra, interrompendo a sua gravação do concerto em dó maior de Haydn. Recusou também tocar na Alemanha nazi e em qualquer país que tivesse reconhecido Franco.

A vida de Casals foi longa e prodigiosa.
Nós situamo-nos em Paris.

A presença de Guilhermina Suggia na Villa Molitor dá a Casals a dimensão da intimidade da casa.
O casal de músicos mais talentosos de Paris tinha a casa sempre aberta aos amigos para conversar ou fazer música, daí resultando extraordinários serões musicais.
No fim da primavera ou princípio de Verão, quando acabava a temporada de concertos e os músicos regressavam das suas tournées, encontravam-se todos na Villa Molitor.
A casa situava-se na zona de Auteil, em Paris, e estava alugada a Casals desde Janeiro de 1905.
A Vila Molitor não é uma única casa como parece, mas faz parte de um bairro de 25 casas. Casals alugou a nº 20, por ter um pequeno jardim e ficar no fim da rua. A casa tem três pequenos andares: a cozinha no rez-de-chão, a sala de jantar e a sala de visitas no 1º andar, dois quartos e a casa de banho no andar de cima. Auteil pertence ao XVI arrondissement a sudoeste de Paris, mas tem bons acessos para o centro da cidade. Auteil e a zona vizinha de Passy eram conhecidas pelas personalidades literárias que aí tinham vivido no séc XVIII: Voltaire, Diderot, Chateaubriand, Balzac.
Perto, em Saint-Cloud, havia campos de ténis e o Bois de Boulogne ficava um pouco mais a norte.
Os amigos dos primeiros anos de Casals em Paris, Cortot, Thibaud, Bauer, frequentavam a Villa Molitor regularmente. Mas outros podiam aparecer como Kreisler, Enesco, Casella, Salmon. Hauré, Busoni. Ysaÿe…
Se era preciso mais espaço encontravam-se na casa de Thibaud em La Chanterelle.
Faziam passeios, jogavam ténis, pescavam e faziam música até altas horas da madrugada.
Em la Chanterelle ou na Villa Molitor faziam-se combinações de artistas que nenhuma sala de concertos tinha o prazer de ouvir em conjunto.
Lembrou Casals mais tarde que tocavam juntos, “pelo puro amor de tocar, sem pensar em programas de concerto ou horários, em empresários, bilheteiras, audiências, críticos de música. Apenas nós e a música” (Kahn, 1970, 143)
Num desses encontros, em 1905, ainda sem a presença de Suggia entre eles, Alfred Cortot (pianista) sugeriu a Jacques Thibaud (violinista) e Casals a formação de um trio que se apresentaria em público como se tocasse para seu prazer pessoal.
Os três músicos que já estavam a fazer uma carreira a solo de sucesso, podiam apresentar-se quando decidissem, sem pressões profissionais ou financeiras.
Começaram por marcar concertos em conjunto durante um mês em cada ano, em Maio ou em Junho, para além dos seus compromissos individuais.
Este trio era uma combinação de talento e brilho, porque os três músicos eram foram de série.
Chegaram a recusar compromissos que oferecessem menos de 4500 francos por concerto.
Cortot, Thibaud e Casals apresentaram-se em público até 1933, não só como trio, mas noutras formações de câmara e orquestrais.
Enquanto trio célebre eram chamados amigavelmente de Santíssima Trindade.
Casals, que tinha uma vida frenética, sempre em tournée, não estando mais de que alguns dias em cada sítio, a partir de 1906 encontra a razão para permanecer mais em casa.
De 1906 a 1913 Casals não faz tournées pelos Estados Unidos da América nem pela América Latina. As suas saídas regulares são para a Holanda, Bélgica, Alemanha e Suiça ou qualquer outro lugar que estivesse a uma noite de comboio de Paris.
Quando toca em Inglaterra regressa a casa na noite do concerto. Itália é muito menos conveniente.
Suggia segue o mesmo esquema.
Os dois não estiveram separados mais do que alguns dias.
Se as distâncias de Paris eram maiores Suggia viajava com ele.
E eles que, por temperamento, pareciam incompatíveis: Suggia vulcânica, impulsiva, caprichosa, gastadora; Casals organizado, disciplinado, sério, ciumento.
Tinham em comum a paixão pela música, pelo violoncelo e um pelo outro.
O final de 1907 e os princípios de 1908 representam o período em que o amor deles deixa de parecer casual. Um pouco antes do Natal, Suggia dá entrada numa clínica para uma pequena cirurgia e Casals está profundamente ansioso.
Se com a grande paixão se misturavam sinais de incompatibilidades, a ideia que começava a aparecer era a possibilidade de casamento. Em Paris a 7 de Fevereiro de 1908, num concerto em que Casals se estreou como maestro na Salle Gaveau e em que Suggia era solista , o nome dela apareceu como “Madame P.Casals-Suggia”.
No “Le Monde Musical de 15 de Março de 1908, acerca de uma apresentação de Suggia também na Salle Gaveau, escreve Jean Huré:” Mme Casals-Suggia terminou o concerto com a execução do concerto de Dvorak – a sua dedilhação expressiva e a sua prodigiosa virtuosidade arrancaram o entusiasmo da sala inteira”.
Nesse mesmo mês está em Roma e anuncia para Portugal que se casará em Abril. Lamentavelmente não será no Porto, mas em Paris. Numa excursão por Espanha já em 1908 continua a massajar a moralidade portuense afirmando: “casei-me com Casals.
Eles não se casaram realmente. Mas as suas vidas pessoais e musicais estavam unidas como se se tratasse de um casamento, desde o encantamento até à ruptura.
Mas a ficção do casamento manter-se-á nas notícias para o Porto: “Mon mari se joint à moi. Estou em Espanha e partiremos para Paris, onde recomeçaremos a nossa actividade e concertos. Guilhermina Casals-Suggia”. A estas palavras acrescentam-se num canto, os tradicionais desejos de Boas Festas para o Natal desse ano de 1908.
Enquanto estiveram juntos Suggia e Casals tocavam de meados de Setembro a finais de Abril com umas pequenas férias no Natal. Dois meses de verão eram passados em visitas à família em Barcelona ou em excursão por Espanha.
Casals acaba por comprar um terreno muito perto da praia, em S. Salvador, e aí constrói uma casa.

Paris assenta a Suggia. É exuberante nos vestidos e nas tintas. Tem um brilho esfuziante nos seus olhos rasgados. Encontram-se referências a ciúmes destemperados de Casals.
Como mulher é fascinante e é provável que Casals tema as repercussões sobre os outros homens.
Como violoncelista inúmeras críticas desfazem-se em elogios às interpretações dela ou então lê-se no THE TIMES que “durante uns tempos Suggia e Casals, ambos ibéricos, foram os melhores violoncelistas do mundo.
É provável que, no violoncelo, Casals, mais ou menos conscientemente, considerasse Suggia a sua verdadeira rival.
Durante o período de coabitação parisiense encontram-se na revista LE MONDE MUSICAL múltiplas referências às interpretações deles. Nem sempre se alongam na adjectivação ou pormenores de execução quando dão notícias de concertos. A referência a Suggia aparece normalmente mais longa e detalhada.

Ao fim de vários anos a tocar violoncelo, o reportório para esse instrumento esgota-se.
Casals procura superar a escassez de literatura para o seu instrumento incentivando compositores: encomenda-lhes obras, paga-as, toca-as pelos principais centros musicais europeus.
Há pelo menos três compositores com quem Casals estabelecerá laços de amizade duradouros: Emanuel Moór (1863-1931), Julius Röntgen (1855-1932) e Donad Francis Tovey (1875-1940). Todos frequentam a Villa Molitor.
Moór entre outras obras escreve o duplo concerto para violoncelo ( dedicado a Suggia e a Casals) que terá um duplo efeito na vida deles: coloca os dois mais famosos violoncelistas a tocar na mesma sala de concertos e acentuará problemas domésticos.
A primeira apresentação do concerto é em Bruxelas em 19 de Janeiro de 1908. No princípio de Fevereiro, a primeira de três apresentações em Paris é com a Orquestra Lamoureux, na Salle Gaveau.
Para o correspondente em Paris de MUSICAL AMÉRICA, esses três, “eram os mais importantes concertos do ano”.
A 15 de Fevereiro de 1908, no LE MONDE MUSICAL aparece a notícia de que a “primeira audição em Paris do concerto para dois violoncelos de Moór foi acolhido com aplausos entusiastas”.
Até final desse ano, Suggia e Casals tocaram-no em França, Alemanha, Suiça e Rússia e em 7 de Fevereiro de 1909 de novo em Paris.
Mas a circunstância daqueles dois talentosos violoncelistas viverem juntos não facilitava os ensaios.
Ambos precisavam de estudar horas seguidas e depois, nos concertos, a comparação era inevitável.
O duplo concerto, embora sem a intenção de Moór, veio exarcebar a situação: numa só peça estavam os dois lado a lado, tocando Suggia a parte de primeiro violoncelo que lhe tinha sido dedicada pelo compositor.
Corriam rumores em Paris de que Casals tinha ciúmes do êxito de Suggia e que lhe escondia os violoncelos. Por seu lado Suggia não suportaria tornar-se apenas a mulher de Casals ou abdicar de uma brilhante carreira de violoncelista.
Várias ameaças de separação vão sendo perpetradas e outras tantas reconciliações as emendam.
Há também notícias de que na Villa Molitor podia viver-se atmosfera mais cordial
Conta Julius Röntgen que numa visita aos dois em Junho de 1908, trazendo-lhes a sua nova sonata para violoncelo, encontrou Casals “deitado num sofá em roupão enquanto Suggia tocava perto dele violoncelo… Depois fomos para o jardim (…) Suggia trouxe vinho espanhol, foi a mais bela tarde de Verão” (Kirk 1974, 201-2).
O ano de 1913 é devastador para a relação Suggia-Casals.
A causa precisa da ruptura é impossível de determinar, mas é muito provável que o catalisador tenha sido uma relação de infidelidade que fez explodir todo o ciúme de Casals.
Ainda se dá uma leve reconciliação, mas provavelmente mais exterior do que íntima, porque a separação foi inevitável.
Casals termina o aluguer da Villa Molitor em Julho de 1913 e passa o verão na sua casa de praia em S. Salvador.
Há também um corte ou esfriamento de relações com os amigos comuns que continuaram a contactar com Suggia. A única excepção é Horszowski.
Casals pretende sepultar no mais profundo esquecimento aquele pedaço de vida a que ele se referiu como “o episódio mais cruelmente infeliz da minha vida” (Baldock, 1992, 72).
Suggia, quando mais tarde se referir a Casals, será na qualidade de violoncelista e nunca no plano amoroso.
Sobre a relação entre ambos sobreviveu pouquíssima documentação, como se os dois quisessem preservar do interesse alheio aqueles 6 ou 7 anos comuns.
Em 31 de Dezembro, Pablo Casals, em Paris depois de uma longa digressão pela Rússia, envia a Guilhermina Suggia um telegrama em que não dissimula a solidão e o sofrimento: “No momento em que abrirmos a janela para ouvir a meia noite, estarei sozinho e pensarei em ti com toda a minha alma. Talvez tu também penses em mim (Cláudio,1986,45).

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo


Publicado por vm em fevereiro 26, 2004 03:20 PM
Comentários

Parabéns pelo blog. A informação prestada é muito interessante. Um belo tributo à vida desta formidável artista lamentavelmente tão ignorada no seu país. Esperemos que consiga contribuir para alterar este estado de indiferença nacional.

Afixado por: José Figueiredo em fevereiro 26, 2004 07:18 PM