Numa entrevista a Mário Carregal publicada no dia 3 de Junho de 1923, no Diário de Notícias, entre outras revelações de Suggia, há a referência a uma criação de António Carneiro.
«Suggia é querida lá longe, tanto mais, talvez do que entre nós, onde o culto pelos grandes artistas quase se perdeu neste «mare magnum» revolto de egoísmos.
Suggia tem estado doente. À porta do seu quarto, o médico assistente, Dr. Carteado Mena, benemérito que, desajudado dos governos, tem curado, aos milhares, e sempre sem um insucesso, os desgraçados mordidos pela raiva, aconselhou:
- Não a fatigue; tem um poucochinho de febre... Quis recuar. Mas a voz de Suggia, que o meu ouvido sempre conservou, acudiu de manso:
- Entre, entre; é um pouco de «gripe»... Beijo-lhe, comovido, a mão. Digo quem sou e relembro um pouco do passado.
- Recordo, sim - diz sorridente -; recordo tão bem... Lá vão, pelo menos, - espere... - Vinte e três anos!... Se recordo!...
- Quanto tempo vai que saiu de Portugal?
- Há dezoito, dezoito anos!
- Que saudades das noites de Leça, da Foz, de Matosinhos... e os serões no Gil Vicente...
- Estive lá ainda há dias - diz-me, contente. - Com que silêncio amigo me escutaram...
Fitava-a. Suggia já não é aquela pequenina, não... É uma senhora, donairosa, ilustrada e gentil... A sua voz melodiosa, que a permanência no estrangeiro ligeiramente tomou, diz, de quando em quando, com infinita graça, uma palavra francesa ou italiana...
- Perdoe! Tenho viajado tanto que, às vezes, sem que eu repare, me escapa uma frase em língua estranha...
- De onde veio agora? - diga-me.
- Da Filarmónica de Madrid. Tenho corrido a Europa. Parara nessa terra hospitaleira e fidalga. E tinha tantas saudades, muitas saudades dos lugares onde passei a minha meninice, que vim... Se soubesse com que prazer, com que misteriosa, imensa alegria, tenho corrido, por vezes, um pouco deste Porto amigo!... Se soubesse...
O seu lindo olhar de grega, velado e doce, que em mim se pousa meditativo, traduz saudade...
- Sei que tem sido feliz, vitoriosa sempre... Tenho-a seguido na sua carreira áurea e gloriosa e linda...
O seu lábio crispava-se num sorriso comovido.
- É verdade! Tenho sido feliz, muito feliz... O grande público incita-me com seus bravos, guia-me com seus aplausos... Tenho sido feliz, disse a verdade... Quando rebentou a guerra vim para a França; fui enfermeira, não toquei... Mas, logo que os meus serviços não foram precisos aos feridos, voltei para a Inglaterra. Foi o único país onde a Música viveu durante o fragor da metralha! Dou-me lá tão bem... São tão meus amigos, os ingleses, tão nobres... Acolhem-me e recebem-me tão amigavelmente, que tenho a Inglaterra como a minha segunda Pátria. Quero-lhe como a esta que não se olvida nem em horas venturosas nem em instantes amargos... Corri a Rússia, a Bélgica, a Itália, a Suíça, a França, a Escandinávia... São dezoito anos desta vida errante, errante mas venturosa... Todos os salões - não o digo- oh! não! - por vaidade - se abriram para mim, que procuro merecer as distinções que me concedem, sempre estudando; aprendendo sempre...
- Onde reside, em França?
- Não, na Inglaterra, pois não lhe disse já que... Aos nossos bons músicos ninguém os conhece em Portugal.
- Tem razão, perdoe...Vai, então, para Lisboa, agora, sem que o Porto a escute de novo? Assim mo disseram...
- Não, não. Vou à capital tomar parte nos concertos da Filarmónica de Lisboa que, em S. Carlos, se realizam. Sabe que os seus músicos são oitenta e cinco dos mais ilustres professores, sob a regência habilíssima dum músico português, bem pouco conhecido em Portugal...
- Não sabia. Quem é?
- O Francisco de Lacerda. É, como eu, mais conhecido lá fora do que no seu país - o que não admira -vive-se lá longe, estudando intensamente, trabalhando com frenesi...
- Que peças vai tocar em Lisboa, posso sabê-lo, dizê-lo?
- Pode, sim. O «Concerto de Haydn», o «Concerto de Lalo» e, a solo, uma «Suite de Bach». Devo estar em Lisboa no dia 3, pois tenho que tocar no dia 6 e...«il faut voir»...
- E depois?
- Depois volto ao Porto, onde vim respirar o ar balsamizante da terra querida. Não quero, não devo deixá-lo sem lhe mostrar a minha gratidão, a gratidão da Suggia que ele viu e amparou e guiou pequenina, vai para mais de vinte anos... Tocarei no S. João, no dia 8, e também a solo.
- Mas são dois os concertos.
- Sim; mas só tocarei no primeiro. Sou obrigada a partir para Londres; há contratos imperiosos.
- É, então, alguma coisa de grande a Filarmónica de Lisboa?
- Muito, muito valiosa! Reunir, entre nós, tão grande número de professores ilustres, é esforço raro, titânico... Merece aplausos e auxílios.
É sua mãe, é seu pai que chegam e me recebem jubilosos quando Suggia lhes recorda os dias de há vinte anos...
- Mas recordamo-nos todos, sim... sim... é bem verdade!...
- Como é feliz! - murmuro.
- E sou. Todos os que amo estão a meu lado. Só minha irmã - recorda-se? A Virgínia abandonou o piano. Está em Paris. Mas minha mãe, meu pai acompanham-me sempre; têm, como eu, corrido a Europa inteira...
- Diga-me, Suggia, tem seguido a evolução da música entre nós?
- Pouco, embora o haja procurado fazer. Como sabe, estou distante há muito e - deixe-me dizer-lhe isto com mágoa - a música portuguesa é, lá longe, quase desconhecida!...
- É curioso! Tão ricas, tão lindas canções temos...
- Sim, sei isso; tenho-as pedido baldadamente... Só os «Fados» que Rey Colaço reuniu em colectânea que mais parece um abraço - eles mostrarão, no futuro, um pouco da nossa alma de meridionais, cheios de sentimento e bondade - só esses são conhecidos. A outra música portuguesa, onde há pérolas magníficas, não está recolhida. Se soubesse com que mágoa o registo tanta vez!...
- Creio. Deve perturbá-la não ter a seu lado, para a executar e ouvir, aquela doce melodia em que se embalou...
- Diz a verdade! Lá fora fala-se muito dos nossos escultores - é querido o Teixeira Lopes - dos nossos poetas, dos nossos pintores, dos nossos romancistas... Mas dos músicos - que mágoa! - não se fala!... E olhe que os «Fados» são conhecidos em França e na Espanha. Daí para além... Como compositor e artista, muito se fala em Vianna da Mota, que, em Paris, é vivamente apreciado. E deixe recordar outro nome - formidável nome de artista! - o Francisco de Andrade, o grande barítono português que, correndo o mundo, foi, nessa Berlim, e tanta vez, aplaudido pelo imperador! Vê como a saudade à mágoa se reúne...
- Esteve na Rússia, ouviu os seus cantares que dizem lindíssimos...
- E que formosos são! As canções russas, como as escocesas, são maravilhas de encanto, de suavidade, nimbadas de uma melancolia enternecedora e saudosa. A música da Escócia é a mais rica de toda a Inglaterra. Olhe que se repetem ainda hoje os «cantares» do século XVI! A sua tristeza, a poesia que os envolve, uma vez vinda até nós, jamais se esquece...
Suggia far-se-á ouvir no Porto. Um instante de silêncio. Eu via-a através da sua carreira gloriosa de violoncelista inigualável.
- Voltemos, então, ao Porto. Foi muito saudada no Orfeão...
- Fui, e não esqueço que, enquanto toquei, me escutaram numa tranquilidade profunda, que me enterneceu.... Sabe que esse silêncio como que inspira os artistas... Os meus «pianíssimos» foram tocados no meio duma paz quase religiosa, o que me mostrou a ânsia de querer guardar no coração as melodias! Não esqueço isto nunca mais, e hei-de dizê-lo em toda a parte... Essa noite do Gil Vicente não me sai do coração...
- O Porto não a esqueceu. Quando até nós chega um dos seus triunfos, quando o seu nome surge, escuta-se e repete-se com carinhosa ternura, hoje bem rara... Lisboa vai escutá-la assim; ela ama os artistas, quer-lhes... - Sim, o público português é bom... A guerra é que espalhou o mal pelo mundo, por todo o mundo...
Era tarde. Levantei-me para a despedida, quando Suggia me disse alegremente:
- Espere. Vou mostrar-lhe alguma coisa que não viu, que poucos viram.
E, retiradas de sobre as folhas de cartão, suas guardas cor de lilás, vi, maravilhado, uma sanguínea e um esboço a «crayon», do pintor Carneiro - o grande mestre pintor. São magistrais. Na sanguínea, a semelhança, a mansidão do olhar é inexcedível. Mas no esboço, Suggia, cingindo o violoncelo, a fronte levemente inclinada num gesto de inspiração divina, estende o braço numa arcada larga, misteriosa, beethoveana...»
Neste mesmo ano o Governo português atribui-lhe as insígnias de Oficial da Ordem de Santiago de Espada.
Suggia, em plena glória pública, oferece um concerto ao Orpheon Portuense em reconhecimento e memória do seu início de carreira.
1924 é um ano de prolixa correspondência entre Guilhermina e o pai, por causa da compra de uma casa. Suggia decide ter uma residência fixa no Porto para reunir o pai e a mãe, que há muito tempo viviam separados.
Augusto Suggia permanece geralmente em Portugal e a mãe faz-lhe longas visitas em Inglaterra.
do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo