fevereiro 29, 2004

Bach

Numa entrevista concedida a Marques da Cunha em 12 de Janeiro de 1943 e publicada em O Primeiro de Janeiro, Guilhermina Suggia afirma que prefere a música «especialmente dos séculos XVII e XVIII, Bach e Beethoven - acima de todos. Depois Haydn, Schumann, Schubert, Brahms, e tantos, tantos outros. Foi pena que Mozart (...) não tivesse escrito qualquer composição exclusivamente para violoncelo. Eu gosto de interpretar como sinto a música de Bach. Quase sempre as suas composições são executadas com demasiada austeridade, quando é certo que o seu autor não era possuído dum tal temperamento, pois ele próprio escreveu, para educação dos seus filhos, diversas músicas cadenciadas no agitado ritmo das danças. Antes de se interpretar a obra de um artista, é preciso compreender e sentir a delicadeza espiritual do seu temperamento. De outro modo, é falsear a Arte...»

Guilhermina Suggia acrescentará: «A predilecção pela música clássica não me impede de apreciar também a música moderna. Devo dizer-lhe mesmo que me interesso por esta música e que a estudo sempre que posso. (...) A música moderna define, na linguagem musical, a expressão exacta da vida contemporânea - feita de sobressaltos, de violências, sob o dinamismo impetuoso da vertigem».
Eu gosto de interpretar como sinto a música de Bach é uma afirmação que encontra o mais nítido eco nas críticas musicais ao Bach de Suggia. Há um estilo e uma relação pessoal e, portanto, única de Suggia com o autor das Suites para violoncelo solo.
O público e os críticos - em uníssono! - reconheciam a especificidade da interpretação de Suggia e desejavam-na.

Arts Gazette, 29 de Novembro de 1919
Escreve L. Dunton Green:
«Para mim ela foi sempre uma violoncelista incomparável, mas o que nos deu em Boccherini, em Huré, e especialmente em Bach, foi a execução duma grande artista, a sensualidade do seu tom passou a uma sobriedade de paixão serena. O modo como toca é não só de uma beleza sem falhas, como tem o auto-domínio sem o qual nenhuma arte pode viver. A precisão dos contornos e ritmos em Bach, o charme delicado em Boccherini, o sonho em Huré - nada mais perfeito poderia imaginar-se».

The London Mercury, Agosto de 1922
«('...) não é demasiado dizer que ela cria as suites para violoncelo solo de Bach através ao seu magnífico ritmo e estruturados "crescendi".»


Sunday Times, 12 de Novembro de 1924
«Ela alcança provavelmente o seu melhor nas suites de Bach a solo, onde nenhum conjunto de sons orquestrais ou de piano vêm escurecer a insuperável beleza do seu tom. Tem-se dito acerca dela que consegue fazer vibrar a sua audiência através da mera execução de uma vulgar escala, o que dificilmente constitui um exagero. Não existe, contudo, nada de suave na arte de Mme. Suggia. Ela não corre o perigo de cair na doçura, que constitui o principal defeito dos violoncelistas. Ouvi-la tocar os lentos andamentos do Concerto de Elgar, do qual poucos conseguem extrair a essência sem se tornarem maçadores, leva-nos a captar o significado do temperamento latino na Arte».


Glasgow Evening Standard, 22 de Outubro de 1926
«Tudo o que possa ser dito acerca de Mme. Suggia já foi provavelmente dito muitas vezes. É assim quase suficiente afirmar que Mme. Suggia estava na sua melhor forma. Admirava-se, a um tempo, o fraseamento, o tom delicado e calmo, e a articulação quase humana do instrumento, como uma fonte de algo que se aproximava do espanto. Foi, contudo, talvez no seu Bach a solo que a sua musicalidade atingiu o mais alto nível. Em suma, Mme. Suggia obrigou-nos uma vez mais a tomar consciência de tudo o que o seu nome significa no mundo da música».


Morning Post, 4 de Novembro de 1927
«Quarta-feira, no Wigmore Hall, ela tocou a Suite para Violoncelo Solo de Bach (em dó maior} com tanta eloquência e plenitude de tom que a harmonia implícita em cada frase se tornou tão real como se Mr. George Reeves, na sala dos artistas, facilmente a preenchesse.
O legato em dó menor da Bourrée constituiu uma das mais intrigantes experiências deste memorável recital».


Daily Telegraph, 1 de Dezembro de 1927
«Só se pode descrever o terceiro e último recital de Mme. Suggia no Wigmore Hall, na noite passada, como tendo sido um brilhante sucesso. Ela esteve no melhor da sua forma e teve uma audiência merecedora da ocasião. A sua actuação encontra-se tão próxima da perfeição como nada neste mundo de imperfeição pode estar. Não esqueceremos facilmente as suas oitavas no final da Sonata Locatelli (...) O seu programa estava dividido em três partes - duas sonatas do período clássico italiano, altura em que existiu um verdadeiro culto do violoncelo, uma suite de Bach a solo, a qual Johann Sebastian nunca poderia ter ouvido ser interpretada do modo como o foi na noite passada e, para finalizar, um grupo de modernas peças para demonstrar que o violoncelo pode derramar lágrimas de sentimento ou brincar amorosamente conforme o humor com que é tocado. Não houve um momento de monotonia. E, na Sarabande da suite de Bach, Suggia elevou-nos às alturas da música . Ela é uma intérprete maravilhosa, até mesmo no inimitável porte da sua cabeça».


Oxford Mail, 5 de Dezembro de 1930 A propósito da Suite n° 4 em mi bemol maior:
«Uma actuação magistral. A violoncelista deu-nos uma interpretação particularmente notável das duas danças populares e da giga».

Sunday Times, 16 de Fevereiro de 1936
«O som conseguido na Suite n" l em sol maior para violoncelo solo de Bach foi de uma única e magnífica classe».


A última crítica aos concertos de Suggia a que tivemos acesso foi a que apareceu no Glasgow Herald de 26 de Agosto de 1949.
«O recital de violoncelo dado por Guilhermina Suggia no Freemasons' Hall ontem à noite proporcionou uma noite de inesquecível prazer.
Tecnicamente não há ninguém que a supere e artisticamente amadureceu até um ponto em que não é possível imaginar mais avanços.
A maior possibilidade de Suggia como intérprete é a sua capacidade de identificar-se com o que toca. Para cada peça, seja qual for o período ou a atmosfera, ela imprime-lhe um entusiasmo que dá vitalidade a cada frase. O seu som é incomparável na sua pureza. Isto é a perfeição na interpretação do violoncelo e perante tal arte toda a crítica tem de ser silenciada.
A primeira parte do programa foi preenchida com compositores dos séculos XVII e XVIII. Foi uma alegria ouvir a primeira suite de Bach para violoncelo solo tocada com tal facilidade e tal fidelidade ao estilo. Em solos de Frank Bridge, Glazounov, Florent Schmitt, Ravel e Falla, a virtuosidade e a musicalidade andaram de par em par. O Chant Elégiaque de Schmitt foi extraordinário pela intensidade da emoção colocada pela interpretação de Suggia. O acompanhamento de Ivor Newton não foi suficientemente sensível nos momentos de solo, mas na Sonata em mi menor op. 38 de Brahms deu-se uma exuberante simbiose»,

Para este recital foi construído um estrado especial de modo a que a música de Suggia tivesse a melhor ressonância.
Ao chegar ao hall, Suggia viu que o estrado tinha sido coberto com um tecido de feltro. Embora apreciando a intenção, Suggia pediu a remoção do feltro, que seria inibidor do som. Disse ela que «tocaria no assoalhado». E tocou.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo


Publicado por vm em fevereiro 29, 2004 02:16 PM
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