Em 1914 Guilhermina Suggia já não está em Paris.
Não lhe interessa voltar para Portugal, onde a possibilidade de continuar a sua carreira seria inexistente. Durante os primeiros meses de 1914 refugia-se em Brive-la-Gaillarde com a irmã e o cunhado Léon Pichon, livreiro e editor parisiense. Gasta os dias com longos passeios sobre cinzas, nessa região de camponeses a quem a guerra estraga a rotina das colheitas e sobressalta o gado. Pelas colinas em redor esgota pensamentos enquanto caminha sozinha. Desamarrou-se o cadeado catalão, mas a liberdade parece um acontecimento desgarrado.
Por razões que não foi possível descobrir, Guilhermina Suggia acaba por mudar-se para Inglaterra ainda nesse ano de 1914. Habita em Londres, em casa de Mrs. Hart, com todo o tempo para o violoncelo. No «living-room» tem a lenha a estalar, na lareira sempre acesa. O chá arrefece abandonado na mesinha e os cães respiram adormecidos no tapete. Suggia inicia-se nos hábitos ingleses e torna-os seus, de tal modo que a acusarão de inglesa excêntrica quando pela década de 40 se instalar mais sedentariamente no Porto.
O imaginário das mulheres portuguesas em geral confinava-se a um universo sem ambiguidades. As senhoras respeitáveis mantinham-se tardiamente vitorianas e apregoando as convenções para si e para os outros. Guilhermina Suggia escapava aos papéis tradicionais das mulheres, tanto na esfera pública como na privada. Se ela, pela singularidade da sua personalidade e da sua carreira, se distinguia em qualquer comparação, considerando-a na situação portuguesa só se pode afirmar que vivia no futuro.
Entretanto rolam os «Gay Twenties», os «Wild Twenties», a «Aspirin Age».
Em 1919-1920 toca em Londres «The Original Dixieland Jazz Band» chegada directamente da América. É um êxito. Nestes dias do pós-guerra, o ritmo do «Jazz» sugere furiosamente um novo mundo. Novos passos de dança - o «shimmy», o «charleston» -vindos também da América, são tão absolutamente aceites pela nova geração que a «regra» das famílias vitorianas - e a maior parte eram vitorianas - foi agitada sem tréguas. O «shimmy-shake» é denunciado como chocante, decadente e imoral, mas a música Yes, we have no Bananas vendeu 700 000 discos só em Inglaterra. Porém, o maior de todos os espectáculos é a Exposição em Wembley. Custou 10 000 000 de libras e foi visitada por 27 milhões de pessoas. Ninguém parecia querer lembrar-se que a Irlanda do Sul já não fazia parte do Império, que a índia fermentava e que Gandhi estava preso. Uma nova canção -Wembling at Wembley with You - baloiçava com sucesso todas as ancas.
Mas não é só dançar o «charleston» que se torna uma loucura! A moda torna-se igualmente louca e excêntrica. As mulheres procuram ter uma figura sem busto, lisa; sobem as saias para o meio da perna, descem a cintura e cortam os cabelos. As inibições quanto ao amor e ao sexo, herdadas da geração anterior, vão sofrendo inumeráveis alterações. Married Love e Wise Parenthood são ambos «best-sellers». Em 1921, em Holloway, a Dr." Marie Stopes abre a primeira clínica britânica de planeamento familiar, que desde o início é imensamente frequentada. Em 1919, o Sex Disqualification Removal Act proclamava que ninguém podia ser «rejeitado do exercício de qualquer função pública ou de ser nomeado para qualquer profissão ou vocação por causa do sexo». Em 1922, pela primeira vez mulheres foram jurados no Tribunal Criminal e no ano seguinte cerca de 400 mulheres eram magistrados, conselheiros, guardas, «mayors».
As cidades transformavam-se também por fora. As luzes de néon prolongavam o brilho da vida nocturna, acentuando o contraste de figura e da sombra. The Electrical Times noticia que «dezenas de milhar de visitantes do West End de Londres olharam o Coliseum Theatre com interesse e mesmo com admiração. Nem mesmo à luz do sol são as características arquitectónicas da torre tão fortemente reveladas como sob a iluminação dos tubos de néon com o seu estranho tom crepuscular.» E depois os gramofones, os «talkies» e as bandas sonoras compostas especialmente para os filmes.
A era dos «Roaring Twenties». Ilusão de prosperidade e de paz, ou felicidade artificial, ou entusiasmo verdadeiro; nesta época procura-se esquecer, acima de tudo, a ferocidade da Grande Guerra.
Em Inglaterra, Suggia atinge uma fama sem rival. Leia-se o artigo de 5 de Março de 1920 na revista Time and Side, em que Christopher St. John se refere à vida intensamente musical de Londres e à presença de Suggia: sublime entre os melhores, incluindo Casals.
«Através do The Times tomei conhecimento de que em quatro dias da passada semana, algo como trinta concertos foram dados em Londres. O exercício que tal implica para os críticos de música é tanto físico como mental. Têm. de correr de sala para sala caso sintam ser seu dever discutir mesmo uma selecção representativa de um amontoado de recitais. Começo a pensar que um bom par de pernas constituí um elemento extremamente necessário no nosso equipamento. E um bom olfacto. O meu sistema consiste em seguir o meu olfacto. Eu farejo os concertos que penso que irão ser interessantes, e neles passo o tempo. Não há dúvida que perco muitos concertos dignos de registo, ruas cheguei à conclusão de que não se pode fazer justiça a um artista, se apenas lhe concedermos um rápido olhar durante os poucos minutos que nos separam de iniciarmos uma corrida pelas ruas para apanharmos outro artista noutra sala. O exercício é agradável quando está bom tempo, mas em nada auxilia a crítica.
Depois de Madame Suggia ter executado o compasso de abertura da Sonata de Brahms para Violoncelo em fá maior (op. 99), no seu recital em Wigmore Hall, eu não correria por aí fora ainda que dez outros concertos tivessem exigido a minha atenção. Ficou-se imediatamente com a certeza de que ela teve uma nítida ideia da música. Havia tanta forma na expressão daquele primeiro fraseado que sentíamos que estávamos perante o perfil de Brahms, o qual é quase sempre tremendo, tal como o seu colorido. Estou feliz a todos os níveis, por ser Suggia quem me parece ser a maior de todos os violoncelistas. Casals é tecnicamente seu igual, mas a sua interpretação não me preenche com o mesmo entusiasmo».
São também reveladores da repercussão musical de Suggia os relatos insólitos de Austen Chamberlain e do ministro Balfour.
Declarando que a leitura constituía um dos seus maiores recursos e passatempos, Sir Austen Chamberlain abriu hoje a segunda semana de uma exposição de livros em Grosvenor House, Londres, com um discurso no qual ele mencionou o dinâmico efeito que um livro bem escrito tinha sobre ele. Começou por dizer que a exposição comportava uma maravilhosa colecção de manuscritos musicais e de retratos de músicos.
"Aí de mim!" iniciou ele, "para, mim a música constitui um livro fechado de cujas páginas eu não tive mais do que um breve vislumbre. Eu daria bastante, mesmo por uma só noite, para sentir e para conhecer o intenso prazer que sentem aquelas pessoas que apreciam e sentem prazer na boa música. Uma ou duas vezes se ergueu por um instante a cortina na minha experiência pessoal, como quando o recentemente falecido Mr. Elwes cantou numa pequena reunião, e noutra ocasião quando eu ouvi Madame Suggia. Eu quase pensei que tinha alguma música em mim. Depois a cortina voltou a descer e fui deixado na escuridão». (Northern Echo, 20 de Novembro de 1934)
«- Certa tarde, num dos períodos mais atribulados da outra Grande guerra, o ministro Balfour escutava--me na intimidade de um recital aristocrático. Executava eu a suite de Bach no momento em que o secretário particular daquele eminente estadista entrou na sala para lhe confidenciar, muito em segredo, uma informação que implicava com a solução urgente dum delicado problema de Estado. Tudo isso se passou num breve instante e com uma subtileza de experimentados diplomatas. Eu, no entanto, compreendera que alguma coisa de muito grave havia ocorrido e, serenamente, esbocei num sorriso a intenção de interromper a suite. Balfour, imperturbável e gentil, fez-me sinal para que eu continuasse. A minha alma, angustiada pela incerteza do que teria acontecido, transmitiu ao meu «stradivarius» o sentimento profundo duma alucinadora ansiedade. E ao terminar, Balfour, sempre fidalgo e discreto, honrou-me com estas palavras - que eu julgo ouvir ainda: "Seria um crime imperdoável tê-la obrigado a interromper o seu concerto. Fiquei maravilhado e parece-me que a sua interpretação me inspirou providencialmente para eu poder resolver um problema que se considerava insolúvel…”
(Fátima Pombo “Guilhermina Suggia – A Sonata de Sempre”)
ola!me chamo marco STEFANI e moro no brasil e possuo um violloncello que era de meu bisavô que o trouxe de italia em 1888 de campolongo maggiore provincia de venezia reino da italia este violloncello era do bisavô de meu bisavô esta a muito tempo na familia devido falecimento de minha mãe estamos vendendo e gostariamos de vendelo a algum musico expert violloncelista e não a comerciantes luthiers etc. se você interessar entre em contato pelo email marcostefani@globo.com ou fone (11)44264796 SÃO PAULO BRASIL existe dentro do instrumento uma marco escrito e assinado antonio stradiuarius faciebat anno 1705 e uma gravação a fogo por dentro e por fora por gentileza entre em contato que eu envio fotos .sem mais agradeço a gentil atençao ass marco stefani.
Afixado por: marco stefani em maio 10, 2004 02:07 PMOlá Marco. Este blog destina-se a divulgar a vida e obra da grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia.
Agradecemos a sua oferta, mas como entenderá não se compra um violoncelo por correspondência. O facto de ter um rótulo de Stradivarius, não quer dizer que seja autêntico. Como saberé existem milhares de cópias, algumas sem qualquer valor comercial. Não o quero desanimar, mas aconselho-o a consultar um luthier. Terá que ser uma pessoa credenciada a verificar o valor do instrumento. Melhores saudações e votos de êxito
ola!coloquei o anuncio da venda do violoncello acima porem o instrumento ja foi vendido para um senhor de um museu na italia gostaria de agradecer a gentileza dispensada porem avia esquecido de observar novamente o site de voces para pedir que retirem meu anuncio por favor ,sem mais muito obrigado. marco stefani.
Afixado por: marco em junho 6, 2004 02:06 PM