março 05, 2004

Carta de Augusto Suggia a Elisa Suggia


1924 é um ano de prolixa correspondência entre Guilhermina e o pai, por causa da compra de uma casa. Suggia decide ter uma residência fixa no Porto para reunir o pai e a mãe, que há muito tempo viviam separados.
Augusto Suggia permanece geralmente em Portugal e a mãe faz-lhe longas visitas em Inglaterra.

Porto, 27-10-1924
Minha Elisa
Recebi a tua carta. Senti bastante o que te aconteceu mas estou contente por saber que estás melhor, e espero que os teus olhos voltem todos à primitiva cor. Eu escrevi à Guil a respeito da casa. É pena que a da Boavista seja tão cara. Até hontem ainda não tinha sido vendida.
Quem me dera que a nossa Guil comprasse uma casa, para nós vivermos juntos. Seria a realidade de um sonho. Só d'este modo eu uzaría todas as minhas gravatas, que as tenho tão bonitas e boas, mas que estão guardadas, por eu não saber dar-lhe o laço.
O mandar construir uma casa como a Guil quere leva muito tempo e há a difficuldade do terreno. O que era bom era comprá-la já feita e com a conveniência de passar eléctricos à porta ou muito perto. Na Foz não há e em Mathusinhos é muito longe.

Deve ser na Boavista ou próximo. Para alugar casa, attendendo à medonha carestia em que estão as casas, é deitar dinheiro à rua. Se a Guil comprar uma casa em poucos anos recupera o dinheiro e é sempre d'ella.
Eu e a Felisbella temos andado n'um fadário à procura de casas e terrenos. Há bastante mas é longe da cidade e onde é preciso ter bilhete, annual do eléctrico e que custa agora 900 000 rs (900 escudos).
Eu, graças a Deus, lenho passado agora uma temporada de saúde regular.
O tempo porém, já está de inverno e eu já tenho apanhado bastante chuva, e o esburacado já tem feito bastante serviço, assim como o casaco gigante.
Mas não importa porque antes do inverno findar terei eu um bello guarda-chuva e um famoso casaco, que os inglezes usam e que são (segundo o que disse a Guil) verdadeiramente invejáveis.
Quanto mais chuva apanhar, mais me lembrarei de ti e da Guil.
A libra vae baixando; já esta em 109 escudos e o franco a mil e duzentos (um escudo e 20 centavos). A carestia ainda é enorme, quasi na mesma.
Para tu avaliares como isto está... vendeu-se n semana passada, postas de pescada a 8 escudos, cada uma !!!
Fiquei contentíssimo em saber que estiveram em casa da Virgi. Deus conserve essa paz, que é tão boa para todos.
Faço ideia da tua satisfação. Assim é mais bonito e é assim que se deviam conservar. Já é tempo de pensarem com tino e convencerem-se que não há coisa melhor que a boa harmonia na família, por causa dos remorsos, que mais tarde mortificam bastante...
Também é preciso que a Guil não trabalhe demasiado, porque ella é fraca, e receio muito que ella aguarde tanto trabalho.
Se ella me falta, vendo as gravatas, e não quero saber de mais nada.
Tu que estás ahi, segura-a e não a deixes fazer da fraqueza forças.
Ainda se ella se alimentasse bem, bom era, mas comendo como ella come não é possível resistir a tanto trabalho.
Enfim, Deus lhe dê, em forças físicas, o que ella tem em génio...
Recebam abraços e beijos e que Deus as proteja. Amen.
Teu marido Augusto Suggia
Lembranças da Felisbella.
Quando me escreveres, dize-me o que foi feito do azeite e do grão de bico. Chegaria tudo lá, ou perdeu-se?

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em março 5, 2004 12:05 AM
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