março 10, 2004

GUILHERMINA SUGGIA no ORPHEON PORTUENSE

Guimermina Suggia no Orpheon Portuense

Ansiedade, entusiasmo, o frémito especial das noites de apoteose: orgulho, «hélas»! toldado de nostalgia, dos amadores de música que há 45 anos, organizando o Orpheon, deram ao nosso burgo a sua feição mais inteligente; alegria transbordante, contagiosa, irreprimível duma juventude elegante e vibrátil, cuja admirável loquacidade se transformava, miraculosamente, religiosamente, no grande silêncio em que passava, soberana, a arcada embriagadora de Guilhermina Suggia: respeito, adoração, frenesi das ovações intermináveis; neste ambiente decorreu o 400.° concerto da gloriosa sociedade portuense. E contudo, em meio do festival memorável, mais do que uma vez nos assaltou, a todos nós, não é verdade?, velhos e novos, a todos nós que recebemos ensinamento, o estímulo do seu magnânimo coração de artista, a recordação sempre viva de Moreira de Sá, o sábio iniciador.


E neste segundo lar do seu espírito, como nos era grato ver continuada a sua tradição por um casal de músicos prestigiosíssimos, para quem Arte, Sinceridade, Beleza não são palavras, mas sim os impulsos íntimos de ser, o evangelho dia a dia traduzido em obras. Pianista de requintado encanto, a senhora D. Leonilda Moreira de Sá e Costa é um temperamento em que temos reconhecido, como em raros, o dom do subtil, a faculdade de encontrar a velatura, a reticência de espiritual poesia. Dom que ainda uma vez se revelou de espécie preciosa para a graça aristocrática dos italianos antigos, como para a fantasia dos coloristas modernos. Assim também na parte de piano da « Sonata em lá» de Beethoven, a comovente discrição de Luís Costa, o emocionado e perfeito mestre, urdia uma tapeçaria de tons ricos e quentes, sobre a qual se destacasse o vulto da violoncelista.


Guilhermina Suggia é verdadeiramente uma mulher de grande estilo. É preciso ver a sua figura principesca de grandes linhas puras e nervosas que, mesmo em repouso, exprime uma consciência de força indomável ; a cabeça extraordinária que o génio marcou, erguida, deitada para trás numa atitude de desdém impassível — ou, talvez, de aspiração divina ; a violência de vida que impulsiona esta forma esplêndida de beleza tigrina. Nasceu para dominar e o instinto de comando achou ao seu dispor recursos de sedução inelutáveis Nenhuma obra, por pálida que seja, resiste ao seu poder transfigurador. Na peça mais gentil, sente-se a garra temível, pronta aos grandiosos empreendimentos. Interpreta uma sonata de Valentini ? O carácter é perfeito, a própria alma da Itália de outros tempos se nos confessa, mas engrandecida, enriquecida de um mundo novo de impressões, um suceder de modalidades deslumbrantes, do grave ao brilhante, da ardente interioridade à estouvanice genial, e todas formando um conjunto de unidade artística suprema.

Governados pelas suas mãos, o «Adagio e Allegro» de Boccherini são um poema de lava, perturbantíssimo. Mas chegou o momento da sonata de Beethoven? Ah! agora reveste-se de singeleza mais cândida e sobe, a plenas asas, às maiores alturas da arte. Soberba, única em todos os géneros, logo se arrisca às peças de virtuosismo mais heróico, sempre ágil, sempre graciosa, sempre triunfante, cativando sempre pela valentia, pelo capricho, pela carícia, pela grandeza.

Prodigioso destino o desta artista que não copia a vida, porque é, ela própria, a verdadeira alegoria da vida, misteriosa, esplendorosa, terrível! Esta sim, que é a paixão que não deprime mas exalta, o sortilégio que transfigura cada pobre coisa terrena numa maravilha de fogo; esta sim, que é a alegria profunda mas inebriante, esta sim, que é a fascinação do próprio génio da vida.


(Crítica de Carmos Ramos em "O Primeiro de Janeiro", de 29 de Abril de 1926).

Publicado por vm em março 10, 2004 12:05 AM
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