Filarmonia de Lisboa
Ansiosamente esperado pelo que de raro prazer espiritual promete, realiza-se hoje, em S. Carlos o segundo concerto promovido pela admirável orquestra Filarmonia de Lisboa, à testa da qual se encontra o notabilíssimo músico Francisco de Lacerda, e que com tanto brilho se exibiu pela primeira vez na passada quarta-feira. Este concerto de hoje, em que pela segunda vez vai ser admirado o escolhido núcleo de artistas que constituem a Filarmonia, tem ainda o interesse de apresentar peta primeira vez em Lisboa, acompanhada por orquestra, a requintada artista portuguesa, outra legítima glória nacional, a violoncelista GUILHERMINA SUGGIA, antiga discípula do notável mestre Klengel, que o foi também de David de Sousa. A nossa gloriosa compatriota ocupa hoje. entre os concertistas de arco, um dos primeiros lugares, podendo dizer-se com verdade que se alguns poucos com ela emparelham, nenhum a excede, até mesmo naquelas qualidades que são peculiares aos homens, a potência da sonoridade, o vigor da expressão e a resistência para as execuções mais difíceis e intensas. O concerto de Lalo e de Haydn, dois dos mais formidáveis monumentos da literatura do violoncelo, bem como a “Elegia” de Fauré, vão dar hoje a muita gente que nunca ouviu a nossa compatriota, a prova segura do alto nome que SUGGIA conquistou nos mais exigentes centros de música do mundo, e a abertura do “D. João” de Mozart e os “Fragmentos dos Mestres Cantores” darão ensejo a que se firme solidamente a reputação alcançada no primeiro concerto pela Filarmonia de Lisboa e pelo seu admirável e ilustre director.
DN, 6/6/1923