S CARLOS
2.°Concerto da Filarmonia de Lisboa
Quem ontem assistiu a esta memorável noite, saiu do teatro, por muito pouca sensibilidade que possuísse, cançado de emoções, com os nervos destrambelhados, por ter ouvido GUILHERMINA SUGGIA.
Ontem, em S. Carlos, fez-se arte da mais pura, da mais elevada e também da mais intensa e sincera, houve o frémito divino que sacode e embriaga, que aperta a garganta e humedece os olhos como se fosse um sofrimento e é um prazer, como se fosse insuportável e desejar-se-ia, como o Fausto de Goethe, prolongá-lo eternamente.
Dizer depois disto como tocou SUGGIA, analisar a sua técnica da mão esquerda, a arcada, o seu estilo, parecer-nos-ia uma profanação, e além disso, como cremos já ter dito, não nos sentimos com a serenidade precisa para essas frias considerações.
A técnica da colossal artista é ilimitada, extraordinária a sua sonoridade, a arcada esplêndida, tudo enfim quanto representa a preparação de um violoncelista o mais completo que possa imaginar-se, possui-o a nossa genial compatriota no mais elevado grau. Imagine-se tudo isto e pense-se que mesmo assim não se terá uma pálida ideia do que é a arte de GUILHERMINA SUGGIA, porque todas essas qualidades, por muito importantes que as consideremos, desaparecem perante e espírito que as domina, que as aniquila, um espírito de intérprete que é um segundo espírito criador da obra de arte que lhe estamos ouvindo, uma sensibilidade aguda, intensa, dando a cada período, a cada frase, a cada ritmo o seu completo valor expressivo, parecendo ainda intensificá-lo, até nos deixar como estamos ao traçar estas linhas, exaustos de emoção, procurando em vão as palavras que não existem, para repetir o que SUGGIA nos disse numa divina linguagem.
Limitar-nos-emos ao enunciado das obras pela grande artista interpretadas, que foram os concertos de Haydn em ré maior e de Lalo, e a solo a «partita» de Bach em que se encontra a celebre «Loure», tendo sido a «Giga» da mesma «partita» executada em «bis».
O maestro Francisco de Lacerda, que ouvíamos pela primeira vez, é um regente de técnica moderna, que ontem revelou notável valor no modo impecavelmente clássico como traduziu a abertura do «D. João» de Mozart, na belamente graduada interpretação dos «Fragmentos do 3.º acto dos Mestres Cantores», na poética versão das «Etoiles» de Duparc, trecho que lhe é dedicado pele autor, e ainda nos acompanhamentos, em que foi admirável, especialmente no segundo andamento do concerto de Lalo.
À saída do teatro, uma multidão compacta de admiradores esperava GUILHERMINA SUGGIA, repetindo-se as delirantes e frenéticas ovações que a tinham acolhido durante todo o concerto, assim como a Francisco de Lacerda.
Como a genial artista se dirigisse a pé para o hotel, a multidão rodeou-a e acompanhou-a, soltando vivas e dando palmas entusiásticas.
LUÍS DE FREITAS BRANCO.
DN 7/6/1923
Publicado por vm em março 15, 2004 12:01 AM
Juntar o testemunho de um compositor de classe e génio como Luís de Freitas Branco sobre uma interprete e artista de génio foi uma ideia brilhante ! Ambos continuam, apesar de tudo, desconhecidos dos portugueses ... raramente freitas Branco é tocado ( ou será nunca !...) e a casa de Suggia aqui no Porto está a cair aos bocados... passo por lá regularmente e como melómano penso na riqueza musical que aquelas paredes testemunharam ... continuamos com responsáveis pela cultura a assobiar para o lado quando se fala de música !
Parábens pela iniciativa ! Já agora, em 2005 assinalam-se os 50 anos da morte de Luís de Freitas Branco, espero assistir a concertos , recitais e conferências sobre o eminente compositir, musicografo e intelectual ... mas meu realismo trai a esperança... oxalá me engane!
Juntar o testemunho de um compositor de classe e génio como Luís de Freitas Branco sobre uma interprete e artista de génio foi uma ideia brilhante ! Ambos continuam, apesar de tudo, desconhecidos dos portugueses ... raramente freitas Branco é tocado ( ou será nunca !...) e a casa de Suggia aqui no Porto está a cair aos bocados... passo por lá regularmente e como melómano penso na riqueza musical que aquelas paredes testemunharam ... continuamos com responsáveis pela cultura a assobiar para o lado quando se fala de música !
Parábens pela iniciativa ! Já agora, em 2005 assinalam-se os 50 anos da morte de Luís de Freitas Branco, espero assistir a concertos , recitais e conferências sobre o eminente compositor, musicografo e intelectual ... mas meu realismo trai a esperança... oxalá me engane!
É lamentável que a casa onde Suggia viveu e morreu nem sequer tenha uma placa a expressar isso. E o mais grave é que a casa está à venda. Será destruída, provavelmente, e construído no seu espaço um enorme edifício.
E o violoncelo Montagnana deixado em testamento para atribuição do prémio Suggia, anualmente, ao melhor aluno de violoncelo do Conservatório de Música do Porto! Foram em 50 anos atribuídos 5 prémios. E o violoncelo está fechado num cofre forte do Museu Soares dos Reis. Nem visto nem ouvido!
E a sua biblioteca musical estará mesmo ao serviço de alunos e outros interessados, conforme deixou expresso no seu testamento? Parece que não.