O 2º Concerto da “Filarmonia de Lisboa”
A confraria de músicos que Francisco de Lacerda reuniu deve estar contente com os resultados dos seus iniciais trabalhos. Depois do primeiro concerto, a cujo sucesso enorme já fizemos a necessária, embora incompleta, referência, esta segunda festa de arte foi pela concorrência do mais escolhido público e pelo delírio das manifestações, uma das mais belas, entre as mais brilhantes noites, de que há memória na história gloriosa do nosso S. Carlos. Nós que em matéria de arte nunca fizemos questão de pessoas nem de pátrias, poderemos ter no relato deste concerto sensacional o grato prazer de registar que o retumbante triunfo de ontem se deve apenas ao concurso de artistas portugueses, o que indubitavelmente reveste de uma alta e consoladora significação, o memorável festival da prometedora Filarmonia.
Francisco de Lacerda e a sua valorosa falange de músicos, que na sua apresentação conseguiram surpreender os mais exigentes, interpretando aquela sublime “Pastoral” de forma absolutamente superior, notável e inesquecível, confirmaram brilhantemente neste notável segundo concerto a magnífica orientação inicial, tanto na “Abertura do D. João” de Mozart, como na execução dos fragmentos do 3º Acto dos “Mestres Cantores” de Wagner e do sugestivo e poético “Nocturno” de H. Duparc. Em capítulo especial e com mais vagar, diremos as nossas impressões acerca do talentoso regente e dos seus colaboradores orquestrais. A gentileza de Lacerda e dos componentes do seu núcleo artístico será um dos motivos a exigir que dediquemos a GUILHERMINA SUGGIA os principais louvores desta notícia breve.
Que dizer, porém, nos apertados limites de tempo e espaço de que dispomos, dessa genial e portentosa intérprete, desse fenómeno maravilhoso que o mundo inteiro escuta com enlevo e para a grandeza do qual todas as palavras nos aparecem apagadas e poucas? Como explicar o milagre daquela arcada espontânea, nítida e profunda, daquela sonoridade de sonho, que não é a simples vibração de simples cordas, mas a expressão belíssima, ideal, do lirismo humano? Mergulhada na onda sublime da sua concepção interpretativa, na linguagem sonora, perfeita, a qual ora é branda, suave e graciosa nas suas comunicações, ora se eleva e engrandece nos paroxismos da energia e da paixão, a figura pictural de SUGGIA atinge as augustas proporções de um símbolo!
Não se concebe coisa alguma de mais perfeito, de maior, de mais completo! A arte difícil e superior da interpretação não pode ter representante mais idóneo, nem mais colossal. Interpretou Bach, Lalo, Haydn?? Não há que fazer citações, nem estabelecer preferências: todos os seus trabalhos foram soberbas criações. O público assim o compreendeu esplendidamente e fazendo a justiça de significar ao ilustre maestro Lacerda o quinhão que lhe pertencia nas apoteóticas ovações da noite.
Para dar uma nota deste entusiasmo sem precedentes, terminaremos noticiando que, findo o espectáculo, artistas e público, neste figurando o que há de mais ilustre nas letras e nas artes, acompanharam até à Praça de Camões, em triunfal cortejo, soltando-lhe vivas clamorosos, a grande artista, que da janela do Hotel Europa, onde está hospedada, agradeceu comovida e sensibilizada, as manifestações recebidas. A.J.
O SÉCULO, 7/6/1923
Não sei quem seria o crítico de "O Século" que assinava A.J. Tentei vasculhar o jornal todo mas não descobri. Se alguém souber, agradeço que diga. Obrigado
Afixado por: vm em março 16, 2004 02:28 AM