março 18, 2004

Ainda a compra da casa

Guilhermina Suggia, em Londres com a mãe, que aí se tinha deslocado para se submeter a um tratamento aos olhos, responde ao pai uma carta que não se encontra. Mas Augusto Suggia é solícito em dar-lhe novos elementos sobre a casa.


Porto, 17-11-1924

Querida Guilhermina,
Recebi hontem a tua carta.
Eu mandei-te um telegrama ante hontem, dizendo que estava quasi decidido a compra, mas parece-me que não vem para nós, com bastante pezar meu... tudo quanto me pedes na tua última carta, tudo eu fiz. Nem eu me mettia n 'isto, só e sem saber.
Fui ao G. Faria, elle pediu a um architecto, pessoa bastante séria e professor da academia, o qual achou a casa bonita, bem dividida, o local bom, mas que era cara, que não era para 160 contos, e disse-me que valia, ou que desse só 120 contos.

O dono, porem está teimoso em só a dar por 155 contos. Há differentes pretendentes à casa e por isso offereci, depois de muito regatear, 140 contos, mas não me parece que o homem a dê. Tu não imaginas a falta e procura de casas que há..
Ê espantoso!!! e os donos como sabem isto, teimam em vender as casas pelo dobro do seu valor. A casa da Boavista que tu viste, ainda se não vendeu. Está em 130 contos. A tal dos 200 contos, pedem agora 250 contos!!! Temos ido ver casas de 300, 400 e 500 contos !!! É uma coisa espantosa. À minha vista vi eu offerecer, por esta da rua da Alegria 135 contos. Foi quando eu perdi a cabeça e offereci 140, julguei que o homem m 'a desse logo; mas nada..
Apenas me disse que tomava em consideração esta offerta e que me mandaria resposta. Mas não me parece que o homem a venda por este preço.
Ora... realmente dizer-me o architecto que podia dar 120 contos, acho tolice dar 155 contos. Eu não tomo a responsabilidade porque depois te haviam de dizer que comprei caro, ou que não soube comprar.
O architecto calculou que o dono gastaria com a construção da casa uns 90 contos, é querer ganhar muito. Depois há muitas despezas a fazer ainda. O papel para as paredes, envernizar os chãos, cultivar os jardins, lâmpadas eléctricas, bacias de banho e o seguro, etc... etc.
O sítio é bom, é saudável sobretudo.
Boa vizinhança e sítio socegado. Não é fácil fazer de comprehender onde é. A. rua de S.ta Catharina é a rua do Hotel do Porto e do Anthero.
A tal rua é: sahindo do hotel, em vez de virar à esquerda para minha casa, vira-se para a direita, que é a rua Formosa, ao meio d'esta rua é a rua da Alegria (à esquerda) e ao fim d'esta rua, que é paralela à de S.ta Catharina é a casa, que é também o fim da rua onde mora a família Moreira de Sá.
Ando apaixonado por não ir para esta casa, mas esta paixão, não passa à cegueira de esquecer que isto para ti representa um sacrifício enorme. Estou-te muito agradecido por tudo e espero que ainda hei-de ter dias felizes, n'éssa esperança vivo..
É, porém, sempre com muito trabalho que consigo qualquer bem; e tu nem por sombras podes imaginar, o trabalho, que eu e a Felizbella temos tido, e as léguas que eu lenho andado para conseguirmos encontrar casa,.
Não temos feito outra coisa durante um mez. E afinal fica tudo em sonhos, me parece a mim...
A coisa está, (em conclusão) em que estamos à espera de resposta do homem em aceitar os 140 contos.
Assim, que elle me mande dizer que sim telegrafo-te.
Eu entendo que tu devias trocar dinheiro em escudos; porque (dizem) a libra abaixa até ao fim d'este anno. A libra já está a 102 escudos, e irá até 90. Pensa bem n'isto, que é importante para ti. Todos os dias estás a perder dinheiro.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em março 18, 2004 03:42 AM
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