RECITAL DE GUILHERMINA SUGGIA
A intérprete máxima da literatura do violoncelo apresentou-se ontem em S. Carlos, numa das sessões da Sociedade de Concertos de Lisboa.
A profunda impressão de beleza que a nossa gloriosa compatriota nos tinha causado por ocasião do seu concerto com a orquestra “Pró-Arte”, renovou-se ontem com notável intensidade.
A parte puramente técnica das execuções de GUILHERMINA SUGGIA não permite qualquer juízo crítico, porque a genial artista é a primeira a esquecê-la, fazendo convergir todas as suas faculdades interpretativas na realização de um ideal estético absolutamente definido.
Sem fraquezas ou concessões de nenhuma espécie, sem desfalecimentos ou hesitações, a eminente violoncelista procura sempre atingir uma finalidade antecipadamente determinada pelas suas tendências e pelo seu instinto. Assim o que distingue as fenomenais realizações de GUILHERMINA SUGGIA é a sua espontaneidade sem limites, o seu assombroso realismo.
A ilustre artista é tão portuguesa pelo seu nascimento e pela sua educação, como pelos traços fundamentais da sua personalidade: na base emotiva das suas interpretações vamos nós encontrar aquele subjectivismo intenso e indestrutível que caracteriza a alma da Raça, e que se manifestou da maneira mais ampla no “Abenlied” de Schumann, tocado fora do programa. É decerto, desnecessário acrescentar que a ilustre violoncelista conseguiu manter, no decurso do concerto uma linha estética de extraordinária elevação.
Concorreu para o êxito absoluto desta sessão de arte o pianista George Reeves, antigo professor do “Royal College” de Londres, que acompanhou ao piano a nossa compatriota. - F. L.
O SÉCULO, 4 de Maio de 1924