Nos seus altos e baixos, a vida musical portuguesa tem encontrado, em todas as épocas, músicos do mais alto valor, que ultrapassam o ónus da nacionalidade e a projectam no exterior de forma indelével. Poder-se-á mesmo dizer que a presença portuguesa no dia a dia cultural europeu se deve prioritariamente ao talento dos nossos artistas músicos, compositores e intérpretes.
SUGGIA foi um desses seres de privilégio que nos colocaram naturalmente na Europa culta, muito antes da entrada dos nossos políticos nos gabinetes de Bruxelas ou de Strasburg.
O início da minha vida artística fez-se através do violoncelo; fui aluno de Mimi de Korth Brandão e depois, no Conservatório Nacional, de Mário Camerini; durante alguns anos fiz parte do naipe de violoncelos da Orquestra Filarmónica de Lisboa.
Esta informação destina-se apenas a indicar o peso da presença de SUGGIA na minha vida: mas dela me lembro desde a minha infância.
SUGGIA era então uma espécie de divindade mitológica, que por vezes chegava até nós como que descendo dos céus! O género de fascínio que mais tarde viriam exercer Maria Callas e Karajan.
A primeira vez que a vi foi no S. Carlos, num concerto de que já esqueci quem tocava e qual o programa; lembro-me somente que SUGGIA estava num camarote de 1ª ordem - olhava para o palco e eu via-a de perfil, perfeitamente desenhada contra a ligeira iluminação que vinha do fundo, imóvel, concentrada, atenta ao concerto. E eu atento àquele perfil magnífico, rasgado, dominador, cheio de força. Depois, no intervalo, já com as luzes acesas, a SUGGIA parecia uma rainha, sorrindo e respondendo discretamente a todos os que, cá debaixo, a cumprimentavam. Tornei a vê-la, mais de perto, no Conservatório Nacional; meu Pai, então Director, tinha-a convidado para professora e sei que SUGGIA ficou satisfeita com a hipótese; a sua ligação ao Porto e sobretudo a carreira de grande concertista internacional impediram porém a concretização desse plano.
Mas nas minhas memórias infantis, avultam sobretudo os seus concertos a que assisti no S. Carlos, em 1943, com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional dirigida por Sir Malcolm Sargent. Foi a 1ª vez que a vi tocar e guardo desses momentos uma recordação luminosa! Não só o som espantoso do seu violoncelo ressoa ainda na minha cabeça, como também me é inesquecível a sua presença em cena, arrebatadora, duma expressividade que ajudava o público a acompanhar e apreender as mais subtis “nuances” da obra que interpretava.
Nada lhe era indiferente, todo o frazeio era claro, talentosíssimo, musicalíssimo!
As Variações Sinfónicas de Boëllman, os concertos de Dvorak, Elgar e Saint-Saëns, nunca mais saíram do arquivo das minhas emoções.
Um dos aspectos mais duradouros e positivos das actividades de Suggia foi o de ter deixado uma escola de violoncelo perfeitamente caracterizada no Norte de Portugal, a Escola de SUGGIA.
Um exemplo recente disso é o facto de, quando da muito controversa criação, em 1988, da Orquestra da Regie Sinfonia, no Porto, enquanto os diversos naipes foram sobretudo preenchidos com músicos estrangeiros, dos quatros lugares então abertos, no naipe de violoncelos, três acabaram por ficar bem entregues a músicos portuenses, netos artísticos de SUGGIA: José Augusto Pereira de Sousa, Gisela Neves e Paula Almeida, que felizmente continuam hoje na Orquestra Clássica do Porto. Isto é significativo, mais ainda por se ter verificado numa conjuntura em que ser músico português levantava imediatamente injustas reservas. (1)
Em 1985, dirigi no Norte uma série de concertos comemorativos do centenário do nascimento de GUILHERMINA SUGGIA, por amável convite de Madalena Moreira de Sá e Costa, sua discípula directa e continuadora no Conservatório do Porto da sua grande escola. Reuniu-se nessa altura uma orquestra de violoncelos de alto nível, formada por discípulos e discípulos-netos de SUGGIA, entre os quais retive os nomes de Madalena Moreira de Sá e Costa, Isabel Delerue, Teresa Rocha, Isabel Cerqueira Millet, Arnould Allum, Gisela Neves, Vieira Duarte, Paula Almeida, José Augusto Pereira de Sousa, José Lobo...
Grande representante nortenho da escola de SUGGIA foi também Carlos Figueiredo, violoncelista de carreira muito notável, prematuramente desaparecido, de quem conservo a melhor recordação.
Mas outros discípulos de Suggia continuaram a sua escola em Lisboa, entre os quais o saudoso Filipe Loriente, Celso de Carvalho e Pilar Torres,(2) que muito felizmente a prolongou na sua cátedra do Conservatório de Lisboa.
Outro aspecto a salientar no fulgurante rasto de Suggia foi o seu entusiástico apoio à criação da Orquestra Sinfónica do Porto, em 1948.
Como espírito cultivado, mulher inteligente e cidadã europeia por direito próprio, SUGGIA tinha a noção de que uma vida musical estável exige a presença do organismo sinfónico, garante básico da profissão de músico e forte dinamizador de público. Sei que o seu empenhamento foi enorme: não só se apresentou como solista nos primeiros concertos da nova Orquestra como passou várias semanas a trabalhar o naipe de violoncelos, os seus jovens alunos, preparando o reportório sinfónico que iriam enfrentar pela 1.a vez.
É exemplar, a grande SUGGIA a fazer o papel de chefe de naipe de uma Orquestra que ainda não existia!
Repito: SUGGIA foi um desses seres de privilégio que nos colocaram naturalmente na Europa culta, muito antes da entrada dos nossos políticos nos gabinetes de Bruxelas ou de Strasburg.
(1) - Hoje a situação não melhorou...
(2) - Ambos também nesta data já falecidos, para nosso pesar.
...
Maestro MANUEL IVO CRUZ
Guilhermina Suggia teve a sorte de não ter leccionado no então Conservatório Nacional senão, se calhar, ter-lhe-ia acontecido o mesmo que a Vianna da Motta, escorraçado pelo Pai de Manuel Ivo Cruz, personalidade que como director daquela instituição aboliu de imediato a reforma de Vianna da Motta e Luís de Freitas Branco.
Antes de sair do Conservatório o mestre Vianna da Motta instituiu um prémio para os melhores alunos de piano que concluíssem o curso superior com a nota mínima de 19 valores. Curiosamente, nunca esse prémio foi atribuído nem do dinheiro se sabe, uma vez que Ivo Cruz (pai), estabeleceu 18 valores como nota máxima para o curso superior de piano. De referir que logo no ano seguinte, Maria Manuela Araújo concluiu brilhantemente o curso superior como aluna externa de Vianna da Motta, tendo sido aclamada a sua actuação em jornais da época por Freferico de Freitas e Luís de Freitas Branco ( o que era muito raro fazerem-se referências a exames de alunos) e obteve a nota máxima de então, 18 valores, não podendo auferir do prémio instituído pelo seu mestre. No ano seguinte o mesmo veio a suceder com Sequeira Costa.
Isto são historietas do passado que valem o que valem e não retiram o mínimo mérito ao que Ivo Cruz (filho) disse de Suggia.
Sem querer entrar em polémicas que me parecem totalmente descabidas aqui, dado tratar-se de um sítio para falar sobre Guilhermina Suggia, o testemunho apresentado é do Maestro Mauel Ivo Cruz e não de seu pai (embora o maestro se tenha referido a seu pai como director do Conservatório). Gostaríamos que os comentários, que serão sempre desejados - se assim não fosse não teríamos o espaço a eles dedicado aberto - se referissem o mais possível a G. Suggia ou às pessoas que aqui sobre ela escrevem. Saudações
Afixado por: vm em março 24, 2004 12:47 PMNesse caso e perante as premissas que agora enuncia peço o favor de retirar o comentário que acima coloquei.
Atentamente
Não o retirem, por favor. Vianna da Motta e Suggia eram grandes amigos: há pois, uma relação com o assunto do blog.
Por outro lado, sabe-se que o insigne pianista, como grande alma e espírito evoluído que era, não pactuava com a política dos medíocres a que tinha de obedecer quem fosse convidado para cargos públicos. Da sua correspondência com Lopes Graça, pode perceber-se a teia de interesses instalada nos meios musicais provincianos do nosso País, logo no início do "Salazarismo", teia essa que, passando facilmente por Rui Coelho, ou por ele fabricada, ia direita, como um rastilho, ao Conservatório da capital. Como a música - peça chave da cultura - se entrelaça na política!
Terá Guilhermina Suggia recusado o lugar por se ter apercebido do sarilho em que poderia ver-se enredada?
Ter-lhe-á o convite sido feito apenas por descargo de consciência, na esperança de que não o aceitando ela, o anfitrião ficaria bem visto e livrar-se-ia de ser destituído e de ter de aceitar o único lugar público que Salazar reservava para os rebeldes e para os que queria humilhar: a terrível "Comissão de Censura"?
Vejam só o dilema de um músico promovido a director do Conservatório Nacional, com filhos para educar!
Só quem viveu esses tempos, como funcionário público, junto do Poder, conhece os riscos que corria: mesmo que fosse probo ao ponto de declinar o convite para um lugar melhor, tornar-se-ia suspeito, desde que as razões invocadas não fossem bem fortes.
Fala quem passou aqueles dez últimos anos a fazer de ignorante e a passar necessidades, com medo do convite para o tal lugar, ou de tarefas semelhantes que chegaram a desempenhar, parecendo então muito humilhadas, futuras grandes personagens do pós 25 de Abril, por terem caído na tentação de pedir melhores salários.
Na verdade não vejo razão para que o comentário do sr carlos a.a. seja retirado. Sei que ele não teve intenção de gerar polémica. Peço-lhe, pois, que reconsidere sobre o seu pedido. E apresento as minhas desculpas se me fiz entender mal
Afixado por: vm em março 24, 2004 07:15 PMO que atrás disse é verdade rigorosa, mas compreendo que mesmo as verdades não são para atirar à cara seja de quem for pois de verdades poderão passar a arremesso de pedras.
A verdade necessita como em tudo na vida do momento e da disponibilidade dos interlocutors para ser ouvida. Ora talvez eu não tenha respeitado este último critério.
Nesta conformidade e porque muito prezo este blogue que tem por único objecto dar a conhecer uns dos mais elevados músicos portugueses, Guilhermina Suggia, coloca na mão dos autores o meu comentário, dando-lhes a plena liberdade de procederem como acharem mais adequado para a manutenção da qualidade que vêm demonstrando.
Cumprimentos
Afixado por: carlos a.a. em março 25, 2004 09:51 AMComo já disse não vejo razão para "limpar" o seu comentário do blogue. Ele não lhe retira qualidade. Quando disse que gostava que os comentários se referissem a Suggia ou às pessoas que aqui escrevem foi sem qualquer intenção de censura. Não quis sequer julgar as suas palavras. Quem sou eu?
Na verdade gostaríamos que o blogue fosse um sítio de divulgação da vida e obra de Guilhermina Suggia. Foi esse o motivo que me levou a pedir o que pedi.
Que continue a ler e comentar este blogue, mesmo apontando todas as críticas que entenda dever fazer. Esse é um desejo nosso.
Saudações