março 26, 2004

Música em casa de SUGGIA

Na sua elegante residência, M.me GUILHERMINA SUGGIA DE MENA e o Sr. Dr. Carteado de Mena proporcionaram a alguns amigos, raros e felizes, momentos inolvidáveis de convívio e de música. As fidalgas atenções...
Assim deveríamos começar em correcto estilo de «carnet mondain». Mas o talento, quando soberano, suprime o protocolo. Acaso pretendemos ser mais cortezes do que as inúmeras salas europeias que têm aclamado o nome famoso da virtuose ?

Digamos, pois, que é com íntimo sentimento de respeito que se entra em casa de GUILHERMINA SUGGIA. Ali vêem quebrar-se os aplausos do vasto mundo e ali, contraste cheio de encanto, se respira a calma de quem busca isolar-se na pequenez do monótono burgo natal. Desta sorte a grande artista reúne as vantagens da glória com as da obscuridade.
Ambiente de gosto e de cultura, todo em linhas nítidas, um pouco ao estilo do norte. Sociedade brilhante, predominando a língua britânica. O exílio na Inglaterra é doce e deixa nos repatriados uma nostalgia de segunda pátria. Entre ela e a violoncelista, a afeição é recíproca.
Ora, na colónia inglesa não faltam músicos excelentes. Todos os anos o demonstra o concerto da «Choral Society», festa sempre original e viva, com muita emoção, o seu quê de solenidade e outro tanto de humorismo. Neste meio, e a par dele no melhor círculo de artistas portuenses (em rigor, a uns e outros contamos como nossos), escolheu GUILHERMINA SUGGIA os executantes e os auditores do seu programa.
Vejam como se combinam agradavelmente os apelidos ingleses e os portugueses. A Miss Margaret Sampson contraporemos a menina Helena Costa: duas imagens da candura, reconcentrada a inglesinha como uma figura de Rosseti, a portuguesita sorrindo aos jogos cintilantes de Weber e de Debussy. A arte delicada de Miss Burnall e de Miss Flower deu-nos canções de lirismo requintado, a de Mr. e Mrs. Hubert Stutfield outras de forte e pitoresco relevo. (É necessário dizer que o cantor, director de coros e director de orquestra é uma das personalidades interessantes do Porto e que nunca mais o restituiremos ao seu país, agora que temos a fortuna de o ter cá ?) Enfim, a magnânima «hostess» tocou com a Sr.a D. Leonilda Moreira de Sá e Costa (Boccherini, Senaillé, Glazounow, Kreisler) e com Luís Costa (nada menos que uma sonata de Brahms). Estas poucas palavras dizem tudo.
A violoncelista vai dar dois concertos em Madrid e em breve fará uma jornada pela América. Seríamos tentados a ante-invejar esses longínquos ouvintes. Mas por confessável que fosse o feio sentimento, quem o pode conceber ao admirá-la tão nobre no seu lar encantador como nas grandes noites de concerto?
Most gracious singer of high poems !

(CARLOS RAMOS em O Primeiro de Janeiro, de 1 de Junho de 1928).

Publicado por vm em março 26, 2004 12:35 AM
Comentários