março 27, 2004

Faz agora 15 anos que morreu...

Faz agora quinze anos que morreu uma grande artista portuguesa. Raros amigos e admiradores a lembraram; e a que foi das melhores violoncelistas do seu tempo e assinalou com fulgores de talento a sua presença na musicologia das últimas décadas é hoje um valor arrumado entre os que o tempo quase apagou. Mas há esquecimentos que pesam como injustiças, quando não como ingratidões. Lembrar os que deixaram alguma coisa de si para nos tornar melhores — a nossos olhos e aos dos outros — para além de retribuição de um bem com simples acto de reconhecimento, é mostra de dignidade, sentido de valor humano, posição perante a vida a definir-se em cultura. E nós, que somos poucos, deveremos ter o cuidado de suprir pela qualidade a míngua da quantidade, para conseguir que um equivalha a muitos com a força e a virtude que fazem do homem o íntimo dos deuses. Honrar os que já foram e se tornaram grandes por seu merecimento é mantê-los presentes como afirmação de uma existência também nossa, pois nosso é o património que nos ficou; na sua glória ou na altitude que lograram atingir está com o nome deles o do povo a que pertenceram: a sobrevivência e continuidade no tempo como valor humano. GUILHERMINA SUGGIA além do prémio anual atribuído pelo Secretariado Nacional da Informação, crê-se não ser recordada como se devia a uma Artista que no estrangeiro, sobretudo na Inglaterra, soube servir a música e o seu país.


De rara precocidade, havendo recebido lições de seu pai, Augusto Suggia, já aos 13 anos fazia parte do quarteto de música de câmara do Orfeão Portuense como violoncelista, com executantes da estirpe de Moreira de Sá e Henrique Carneiro.
Logo os êxitos dos seus concertos se sucedem e a Rainha Dona Amélia concede-lhe uma bolsa de estudo para cursar na Alemanha. A seguir, e o jornadear pelas capitais do Mundo, cotando-se como das melhores intérpretes de Saint-Saëns, Lalo, Dvorak, Elgar, Boëllmann, Ravel. Na Inglaterra admiravam-na extraordinariamente e a Família Real dispensava-lhe especial estima. Os seus concertos atraíam o grande público e a sua arte singular dominava e fazia escola.
De forte, densa capacidade interpretativa, o arco abria estradas e claridades, em traços vivos, de notável sobriedade e firmeza, sem excluir a subtileza de um apontamento, o encanto de uma sonoridade. Tinha o sortilégio de urna presença que transfigurava e tudo fazia esquecer: estava ela, com o seu instrumento de magia, e o mundo maravilhoso que abria e revelava. Aconteceu mesmo que, findo um concerto, reinou o silêncio das grandes comoções, quase doloroso, até irromper o entusiasmo daqueles que a sua arte subjugara - e aguardavam mais, não querendo que passassem os momentos de embriaguez espiritual. E conta-se que umas estrangeiras de visita ao nosso país percorreram centenas de quilómetros para irem ouvi-la, dizendo depois que só para isso valia a pena vir a Portugal.
GUILHERMINA SUGGIA morreu no Porto, onde passou grande parte da sua vida e criou profundas amizades e dedicações.
Também se votou a coisas das artes e da cultura, mostrando particular interesse pela educação artística da juventude. E ao seu grande coração não era estranha a pobreza: ultimamente só abandonava o seu recolhimento para colaborar em obras de caridade. Isto, que sucedeu em vida, transpareceu também depois da morte, pois o seu testamento reflecte o quanto ela queria aos seus amigos (não esquecendo os de Inglaterra), aos servidores, aos jovens que vão para o futuro com a promessa de uma realização em humanidade. Há uma dívida em aberto para com esta grande artista portuguesa. É preciso saldá-la, honrando-lhe a memória, perpetuando o seu nome como bem merece. Isso também honrará quem o fizer, porque os homens e os povos valem, pelo que fazem e pelo modo como sabem apreciar os que, de algum modo, puderam dar expressão duradoura ao que neles há de superiormente humano. Assim os homens se aproximam do Homem e não se afastam do seu destino; é um modo de se dignificarem.

MIRANDA MENDES ( Diário de Notícias 28/4/1969)

Publicado por vm em março 27, 2004 01:44 AM
Comentários

Note-se que esta notícia saiu no Diário de Notícias em 28 de Abril de 1969 e SUGGIA morreu em 30 de Julho de 1950. Há, portanto, uma incorrecção de datas.

Afixado por: vm em março 26, 2004 09:48 PM