Diário de Lisboa, 14 de Dezembro de 1938
«O Embaixador do Brasil em Portugal regressando de Inglaterra trouxe a notícia do êxito estrondoso de Suggia no concerto de Elgar no dia 10 de Dezembro de 1938 no Queen's Hall de Londres, com a orquestra sinfónica da BBC sob a direcção de Sir Henry Wood.
A interpretação da obra foi de tal modo notável que o público que enchia a famosa sala de concertos irrompeu numa espontânea e vibrante demonstração de entusiasmo, trazendo Guilhermina Suggia inúmeras vezes ao palco, entre aplausos frenéticos e calorosos».
Seara Nova, 5 de Junho de 1943
S. Carlos - 4° concerto da orquestra sinfónica nacional
«O 4º Concerto do chamado "ciclo da Primavera" (e que com boas razões já se poderia chamar estival) da O.S.N. teve o especial relevo da colaboração da grande violoncelista Guilhermina Suggia. Colaboração preciosa, escusado será dizê-lo, já pela categoria da artista, já porque ouvi-la é um prazer quási excepcional, tão raras vezes ela se apresenta, ou se tem ultimamente apresentado em público.
Ainda há pouco tempo tivemos ocasião de manifestar aqui mesmo nesta Revista toda a nossa consideração pela ilustre violoncelista, o nosso alto apreço da sua arte maravilhosa, para que se nos escuse o não entrarmos novamente a desfiar o rosário dos adjectivos em uso no estilo de jornalismo barato.
Suggia é uma grande extraordinária artista: isto vale dizer tudo. A sua interpretação do Concerto de Lalo, foi de urna qualidade de estilo única, de uma eloquência generosa, no 1º andamento, de uma qualidade de som encantadora no 2º, e de uma graça e vivacidade insuperáveis no último.
Excelentemente secundada pela Orquestra Sinfónica Nacional e pelo excelente "acompanhador" que é Pedro de Freitas Branco, Guilhermina Suggia teve no Concerto de Lalo uma das melhores criações que jamais lhe ouvimos.
Sempre perfeita, sempre elegante, sempre de uma sedução sem par, Suggia deu--nos ainda, o Kol Nidrei, de Max Bruch, o Allegro apassionato de Saint-Saëns, a Peça em forma de Habanera, de Ravel e a Dança do fogo, do Amor Brujo. de Falla, que confessamos nos parecer pouco própria a um «arranjo» solístico com orquestra. Extra programa e correspondendo ao entusiasmo do público, executou a ilustre violoncelista o Zapateado, de Sarasate, e uma Suite para violoncelo solo, de Bach, onde subiu às culminâncias da arte grande, servida por uma grande artista.
Como «novidade», apresentava-nos a Orquestra Sinfónica Nacional a 1ª audição (entre nós) do poema sinfónico de Strauss: Assim falava Zarathustra.
Valerá a pena perder tempo com «novidades» que já não são novidade nenhuma, quando há tanta coisa de facto «nova» ainda desconhecida e que espera ser revelada? Este poema sinfónico nada adianta no conhecimento que o público já tem da obra e da personalidade de Strauss. Para nós, pessoalmente, é ela mais um dos grosseiros erros da estética sensacionalista da sua primeira fase, onde a verdadeira música era substituída pelo «gesto» teatral, e o pretensiosismo «filosófico» escondia urna verdadeira carência de ideias («eu descubro tais ideias cada vez que ato os meus suspensórios», dizia pouco mais ou menos o espirituoso e lúcido Paul Dukas). Nietzsche-Zarathustra seria o primeiro a detestar esta música. Ele que a queria de pés de fogo, dispensadora de «embriaguês ditirâmbica», como poderia deixar de dirigir contra Strauss e a sua música pesadona e vulgar os sarcasmos de que crivou o pedantismo da cultura germânica contemporânea, e que o levou mesmo a renegar o seu grande amor de adolescente Wagner?
Historicamente, impõe-se um confronto: Also sprach Zarathustra foi composto um ano depois do Prélude à laprés-midi d'un faune (1894). Abstraindo mesmo do que possa haver de irredutível nas personalidades de Debussy e Strauss como representantes de culturas radicalmente diferentes, o confronto não deixa por isso de ser simbólico do ponto de vista puramente históríco-musical, como situando cronologicamente um conflito entre duas concepções da arte dos sons, uma que morria, outra que nascia, com todas as consequências que para a evolução posterior da arte dos sons advieram da vitória da simplicidade naturalista da écloga debussysta sobre a macissês filosofante do poema straussiano.
Fernando Lopes Graça
República, 16 de Fevereiro de 1946
«António Viana refere-se ao concerto do Teatro Nacional de S. Carlos "em que a colossal artista emocionou e encantou a assistência, que lhe fez justamente uma verdadeira apoteose. Tocou o concerto em mi-menor de Elgar com a sua arcada, que arrebata, com o brio e a expressão que só ela possue e ouvido em religioso silêncio, teve aplausos intermináveis, tendo de repetir o último andamento, gentileza justamente premiada com lindíssimos ramos de flores. Grande artista que honra Portugal e que já é uma das maiores glórias mundiais do violoncelo».
Diário de Notícias, 16 de Fevereiro de 1946
«Sobre este mesmo concerto pode ler-se num artigo assinado por A. Joyce que "Guilhermina Suggia, promoveu ontem aquele encantamento, que é também prodígio, de ampliar ao máximo as virtudes da obra. Conseguiu-o mediante aquele magnífico poder, privilégio dos inspirados. Supérfluo será dizer que a sua incomparável actuação provocou delirantes ovações, bem demonstrativas da impressão causada, como sempre, rara e inesquecível, mas semelhando cada dia mais funda. Às infindáveis aclamações correspondeu Suggia bisando o "Allegro molto" do Concerto.»
do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo
Boa ideia a de transcrever a crítica de Lopes Graça também à parte restante do concerto. É importante observarmos como iam evoluindo os espíritos, no meio musical português em que se movimentava Guilhermina Suggia, e não apenas termos notícia dos êxitos da nossa ilustre violoncelista.
Afixado por: Ana Maria Costa em março 31, 2004 02:04 PMComo noutro comentário referi, e por ter recebido sugestões no sentido de sintetizar os textos de modo a tornar o blog menos "pesado", não serão feitos cortes em textos. As críticas serão, quando recolhidas directamente da imprensa da época, publicadas na íntegra.Serão os leitores que farão a sua selecção. Num sítio que se destina a divulgar a vida e obra de Suggia é inevitável não se estar sempre a falar dos seus êxitos, como violoncelista. Nunca li nada que não lhe fizesse os maiores elogios, mesmo quando, por ex. no concerto D'Albert, um crítico inglês arrasa a obra, mas tece os maiores elogios a Suggia.
Saudações