21 de Agosto de 1949
O grande acontecimento musical que aparece em relevo nos jornais é o regresso de Suggia aos palcos escoceses.
Refere-se que o Concerto em dó de Eugène D'Albert é soberbamente interpretado: o som do violoncelo grandioso parecia vencer sem aparente esforço a unidade sonora da orquestra. lan Whyte, que dirigia a Orquestra Escocesa da B.B.C., tinha de ter cuidado para não se deixar dominar pelo efeito natural da personalidade de Suggia.
E se o concerto de D'Albert não pode ser considerado uma grande obra musical, tem melodias com beleza e uma abertura profundamente imaginativa. A prolongada cadência em tom menor no final do movimento lento é particularmente interessante. Tocado pela Suggia cresce e distingue-se. O som dela, marcado a fogo, é capaz de dar vida à peça mais esquecida.
No final do concerto os aplausos e as centenas de flores chamam-na várias vezes ao palco. Suggia, deslumbrante num vestido branco e mais régia do que nunca, agradece.
No feroz The Times é referido o enigma da escolha do concerto de Eugène D'Albert por Suggia.
Estando em voga há 50 anos, já não significa nada, porque não estimula nem o pensamento nem o sentimento, afirma o crítico. Conclui, no entanto, que só o estilo e a eloquência da magnífica Suggia poderiam realizar o raro fenómeno de animar um cadáver.
Uma das razões pela qual o concerto foi escolhido - provavelmente a principal - foi a nacionalidade escocesa de D'Albert. Nascido em Glasgow (ascendência francesa-inglesa), D'Albert surgiu como a opção melhor para o Festival Internacional de Edimburgo, a realizar-se no Usher Hall.
Nas peças de charme - e muito em especial na Peça em forma de Habanera de Maurice Ravel - Guilhermina Suggia tinha uma magnífica elegância e graça.
Disse João de Freitas Branco a 12 de Julho de 1989, no Porto, que "quem a tenha ouvido tocar essa peça, essa pequena preciosidade, nunca mais, creio eu, poderá suportá-la noutra interpretação, mesmo que seja a do melhor que há no nosso tempo"».
No Manchester News de 15 de Novembro de 1919 lê-se:
«A interpretação do "Adagio e Allegro" de Boccherini por Madame Suggia, bem como de outros solos de Dvorak, Fauré e Popper, demonstraram o seu génio na apresentação de uma técnica perfeita, impregnada de uma contínua subtileza de tom e expressão».
O prazer musical é mais difícil de ser conseguido com peças menores, a não ser que o intérprete consiga transformar o que é banal ou monótono num momento de raridade. Suggia redime as composições.
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Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo
Suggia tinha em 1949, 64 anos. Estava a menos de 1 ano da sua morte. A idade nos violoncelistas reflecte-se bastante. Ainda assim, os elogios não podem ser mais.
Afixado por: vm em abril 3, 2004 12:53 AM