O modo como movimentava o arco constituía todo um tratado gestual. «O meu arco começa no meio das costas»,dizia. E isso sentia-se. Percebia-se na magnificência da atitude assumida. Além disso, tinha uma relação quase pessoalizada com os violoncelos. Um Stradivarius, um Lockey Hill e um Montagnana. Instrumentos valiosos doados em testamento a diferentes instituições.
O modo como movimentava o arco constituía todo um tratado gestual. «O meu arco começa no meio das costas»,
dizia. E isso sentia-se. Percebia-se na magnificência da atitude assumida. Além disso, tinha uma relação quase pessoa-lizada com os violoncelos. Um Stradivarius, um Lockey Hill e um Montagnana. Instrumentos valiosos doados em testamento a diferentes instituições. O Montagnana, por exemplo, foi comprado pela Câmara Municipal do Porto e entregue ao Conservatório de Música desta cidade para patrocinar um Prémio Guilhermina Suggia. O produto da venda do Stradivarius serviu para patrocinar prémio semelhante em Londres. Acontece que no Porto, por questões burocráticas, há já vários anos ninguém é distinguido com o Prémio Suggia. Em Londres, todos os anos há um aluno premiado.
É apenas uma, entre muitas histórias de abandonos. A casa de Suggia é outra das recordações tristes. Chegaram a Leixões navios carregados com tapetes persas, biombos da China, móveis raros, lustres e papéis de parede, tudo comprado em Londres. Suggia quis ter no Porto a sua «home», como não se cansava de dizer.
A ideia era reproduzir o ambiente das mansões inglesas, e tê-lo-á conseguido. Hoje nada | resta. Pilar Torres não esconde a mágoa de ter visto que «alguém teve a coragem de colocar lá uma bandeira de leilão. A Câmara devia ter comprado aquele recheio fabuloso. Havia quadros de Malhoa, prenda da Rainha D. Amélia e da Rainha de Inglaterra. Hoje, se se quiser fazer uma Casa Guilhermina Suggia, não há quase nada».
E, no entanto, haveria tanto!
EXPRESSO, 18 de Janeiro de 1997
E, no entanto, hoje em Portugal, de Suggia, apenas resta para além dos 2 violoncelos, a casa onde viveu e morreu, na Rua da Alegria, nº 665. Não tem sequer uma placa que diga:” AQUI VIVEU E MORREU GUILHERMINA SUGGIA”
Nada. Silêncio, desconhecimento. Ignorância quase total acerca da mais importante figura da música do seu tempo.
Hoje a casa está à venda, será destruída e no seu espaço será construído um edifício que renda milhões. A única casa ainda de pé, onde Suggia viveu está à venda por 90.000 contos e ninguém a salva. Perde-se a oportunidade de se abrir uma CASA-MUSEU GUILHERMINA SUGGIA.
O violoncelo “Montagnana” que deixou para ser instituído anualmente um prémio ao melhor aluno de violoncelo do Conservatório do Porto, foi comprado pela CMPorto, tendo-lhe sido atribuído um valor de 550.000$00. Foram atribuídos, creio,5 prémios desde 1951. Muito provavelmente o valor do “Montagnana” hoje, daria para comprar várias vezes a casa.
Vai chegar um dia em que não haverá mesmo nada. E no entanto Suggia deixou tanto. Tanto que nós não merecemos.
Entrei numa livraria, na Rua dos Clérigos. Dirigi-me ao balcão onde estava um senhor distinto, bem vestido, com ar de quem não vendia só livros, também os lia. Perguntei se tinha alguma coisa sobre Guilhermina Suggia e ele perguntou-me:
Isso é o quê? Um programa de computadores?”
Assim mesmo. Tal e qual.
Expliquei quem tinha sido Suggia. Disse-me:
”Ah! talvez encontre na Rua Formosa, nuns alfarrabistas.”
Corri para a Rua Formosa, entrei no primeiro. Perguntei:
”Tem alguma coisa sobre a Guilhermina Suggia?”
E com um ar muito simpático o senhor disse-me :
” Olhe, agora pergunte-me em português”.
“Não sabe quem foi Guilhermina Suggia?”.
“Não faço ideia”.
Lá lhe disse. E como estava perto da Rua da Alegria subi para ver a casa. Cheguei ao nº 665. O que havia sido um jardim era agora um cemitério de automóveis. Bati à porta duma casa abandonada sempre a imaginar Suggia lá dentro. Acho mesmo que a escutava.
Eu queria ouvir alguém dizer: FOI NESSA CASA QUE SUGGIA VIVEU. Perguntei desesperadamente a dezenas de pessoas que passavam na rua com idade que eu julgava poderem ter conhecido Suggia. Ninguém sabia onde ela tinha vivido.
“Mas sabe quem foi Suggia?” Todos a quem perguntei, sem excepção, disseram
“Não imagino quem tenha sido”
Eu estava torcido. Eu queria que alguém me dissesse que tinha sido naquela casa. Lancei um olhar sobre as casas e corri para uma que tinha ar de ser habitada. Nº 645. Toco à campainha. Era um rez-de-chão alto. Oiço abrir uma janela e fiquei cheio de esperança. Perguntei:
“A senhora sabe se foi nesta casa que viveu Guilhermina Suggia?”(Só queria ouvir dizer:”Foi no nº 665”)
“Ai não faço ideia. Mas olhe, antes de nós não viveu. Nós vivemos aqui há 8 anos e conhecemos os senhores que viviam cá”
“Mas sabe quem foi Guilhermina Suggia?”
“Não senhor. Não faço ideia”
Desci a correr a Rua da Alegria. Entrei numa papelaria, comprei um bloco de cartas. Sentei-me num café e escrevi a ZARA NELSOVA professora na Juilliard School em Nova Iorque. Sabia que ela tinha tocado em Londres num concerto organizado pela Royal Academy of Music em 1950, em homenagem a Suggia. Escrevi sofridamente as minhas tristes aventuras desse dia.
Quase ninguém sabe quem foi GUILHERMINA SUGGIA! Que ingrata terra!
Poucos sabem quem foi Guilhermina Suggia.
Algém saberá quem foi Ernestina Siva Monteiro e a semente que deixou?
E Maria João Pires? E outros...?
Os portugueses esquecem os seus maiores e quem tem o dever de passar o testemunho para o futuro,não o faz.
Se as minhas minhas palavras pudessem ter eco nalguns decisores a Casa da Música chamar-se-ia
GUILERMINA SUGGIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.
Nasceu no Porto,amou o Porto,não ficaria para sempre esquecida no Porto.
Sem querer ser violento, duvido que os senhores da Casa da Música, os senhores que têm o poder neste país tenham consciência da grande, enorme importância que teve Guilhermina Suggia.
Provavelmente já ouviram falar dela. Provavelmente viram o retrato de Suggia pintado por Augustus John.
Afixado por: vm em setembro 23, 2004 01:31 AM