abril 06, 2004

Guarda bem esta Carta (...)

Em 1948, uma nevrite obriga Guilhermina Suggia a um repouso absoluto da mão esquerda. A recuperação faz-se na totalidade, sem deixar sequelas. Graves são as dores abdominais de que ela se queixa e que tanto a inquietam.
Apesar de ao longo dos anos Suggia se queixar de uma saúde frágil, desta vez os sintomas são preocupantes.
Por isso, antes de viajar para mais um concerto em Inglaterra, escreve a seguinte carta ao Dr. Carteado Mena em Novembro de 1948:


Em 1948, uma nevrite obriga Guilhermina Suggia a um repouso absoluto da mão esquerda. A recuperação faz-se na totalidade, sem deixar sequelas. Graves são as dores abdominais de que ela se queixa e que tanto a inquietam.
Apesar de ao longo dos anos Suggia se queixar de uma saúde frágil, desta vez os sintomas são preocupantes.
Por isso, antes de viajar para mais um concerto em Inglaterra, escreve a seguinte carta ao Dr. Carteado Mena em Novembro de 1948:


Meu Querido José:
Vai-se aproximando o dia da minha partida para Londres e vão aumentando as saudades – Como eu gostaria que este tempo aqui se prolongasse ainda por mais uns dias, tão bem que aqui me sinto e tendo notícias diárias dos meus queridos que afinal és tu e a mana! Ambos queixosos e com muito mimo, valha-lhes Nosso Senhor – Eu bem rezo a pedir que os melhore.
À medida que se aproxima a data da partida vão-se acumulando as várias coisas a tratar aqui, que o tempo não chega para tudo. Despedidas aos dois Presidentes, Embaixada Inglesa, recepção Instituto Britânico, Maria Alice Ferreira e Pilar Torres ambas pedindo uma lição pelo menos, tratar passaporte e ter tudo pronto para a viagem, bem podes calcular como tenho de andar depressa e sobretudo que precisava estudar muito.
O tempo promete estar bom. Miss Dorothy Tait chega na Terça-feira a Lisboa, já tenho o bilhete d’ela, lugar marcado no avião que se chama “York” e leva 22 passageiros – quatro motores e partem agora de Lisboa às 9h da manhã devendo chegar a Londres às 2 h da tarde de quinta-feira 31. É melhor assim pois chega-se de dia. Tenho-o visto voar por cima d’esta casa e realmente deve ser uma coisa muito agradável ir-se la em cima mas confesso que já gostaria de estar em Londres no Dorchester Hotel Park Lane, a escrever-te como estou agora aqui a fazê-lo.
Que Deus nos proteja e nos acompanhe sempre. De Londres mandaram um telegrama dizendo que o Permit vem de avião ter aqui. Devo recebê-lo amanhã mas tudo estava já arranjado com a Embaixada Britânica e com o “Home Office” em Londres para eu ir de todas as maneiras, até os agentes da aviação me disseram que eu iria mesmo sem visa porque Inglaterra me reclamava.
Têm sido tão amáveis e simpáticos para comigo que me sinto cativada. Também estive aqui com um advogado distinto, amigo do sr. Engº Queiroz que me aconselhou a fazer umas certas disposições por fora do meu testamento que ali fiz e que está guardado ali no Cofre do Banco Borges & Irmão, que é um tanto antiquado e cuja chave está na minha escrivaninha do meu quarto de dormir. A Clarinda sabe encontrá-la, mas como não tive tempo para fazer novo testamento o meu advogado aqui aconselhou-me a deixar a uma pessoa ou pessoas da minha confiança, os meus últimos desejos. Ninguém melhor do que tu poderá cumprir estas disposições e por isso numa folha separada t’as mando, na certeza de que terás prazer em cumprir aquilo que te peço no caso de eu vir a falecer antes do meu regresso a Portugal.
Enquanto aos donativos que desejo oferecer às nossas criadas tive de deixar isso entregue a um Banco. Tudo isto são prevenções que se Deus quiser e Deus há-de querer não será preciso, pois hei-de regressar contente e feliz de ter cumprido a minha missão
Eis o que te peço para fazeres no caso de eu não regressar:

1º- O violoncelo “Plumerel” que era do meu pai e que actualmente está em casa do sr Cerqueira deixo-o à filha, Isabel Cerqueira, como prova de amizade e também por ter sido aluna de meu pai que muito a estimava.

2º- O violoncelo “William Forster” que está no meu salão ao pé do piano, deixo-o à minha discípula Pilar Torres, como prova de afecto e amizade por ela e pela família.

3º- O pequenino violoncelo italiano com arco que está em Girassóis Barreiros deixo-o à Felisbella Passos em memória de meu pai.

4º- O meu piano Franz Arnold que está no “Cottage” em Barreiros deixo-o à minha boa amiga Ernestina da Silva Monteiro, como prova de sincera amizade.

5º- O meu piano “Bluthmer” que está no Porto à minha irmã Virgínia Pichon.

Das minhas jóias e toilettes e bibelôs gostaria que se fizesse uma dádiva segundo o teu critério a várias das minhas amigas que tanto estimo. (Muriel Tait, Linda Ramos, Mrs Yeatmam, Audrey Melville, Jean Marcel, Isabel e Maria luísa Cerqueira e às irmãs Silva Monteiro e Maria Alice Ferreira e tua filha Maria Anna e tua irmã Anna Mena.

Como tenho muita coisa em vestidos, roupas, pratas e chapéus, peles, roupas interiores, sapatos, casacos, cobertores e móveis, etc., é natural que minha irmã Virgínia tenha a primazia na selecção, e dos meus bens gostaria de contemplar as seguintes obras de caridade – Músicos Pobres, Sociedade Protectora dos Animais em recordação aos meus queridos cãezinhos Sandy e Mona, e para a Maria Beiras (Madre Lídia Inéz) uma verba boa para ajudar a construir uma capela no Colégio Ultramarino do Arcoselo – verdade que a maior parte da minha fortuna está em Inglaterra, mas gostaria de destinar metade dos meus bens monetários e valores de estado para essas obras de caridade – Ainda ficarias com muito.

(N’uma das minhas anuidades do Canadá, a última que fiz, está incluído que o sobrevivente de nós dois continua a receber cada semestre a quantia X) pois assinei-a em teu nome e meu.

Agora resta-me dar-te um beijo de muito carinho e desejar-te que melhores do teu braço e que sejas ainda muito feliz.

Deus te proteja e abençoe. Para a minha querida maninha mil beijinhos e saudades e lembranças às criadas. Guarda bem esta carta (…)

Tua Guilhermina

Do livro “ GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em abril 6, 2004 01:01 AM
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