Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:
Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:
Sou Católica Apostólica Romana e, como tal, quero que o meu enterro se realize em obediência ao que manda a Santa Madre Igreja O meu corpo deverá ser sepultado no Cemitério de Agramonte, desta cidade, onde repousam as cinzas de meus pais e meu marido.
Quanto aos bens que possuo e existam à data da minha morte, são eles assim distribuídos:
-O meu violoncelo “Stradivarius” juntamente com dois arcos, um “Tourte” e outro “Voirin”, que se encontram na posse da Embaixada Inglesa em Lisboa, será enviado pelo nosso Embaixador à casa Hills de Londres, a fim de ser por ela adquirido ou vendido pelo melhor preço que se obtenha e o seu produto entregue à “Royal Academy of Music”, que o aplicará, segundo o melhor critério, por forma que o rendimento daí obtido se destine à criação de um prémio denominado “Guilhermina Suggia”, a atribuir, anualmente, ao melhor aluno de violoncelo,
-Possuo outro violoncelo, “Montagnana”, que igualmente será vendido pelo melhor preço, quantia essa que lego ao Conservatório de Música do Porto – através da Câmara Municipal do Porto, se o dito Conservatório continuar a pertencer-lhe, ou do Estado, se porventura ele passar a ser nacional – a fim de, com o rendimento deste legado, se instituir, também, um prémio designado “Guilhermina Suggia”, a atribuir, em cada ano, ao melhor aluno de violoncelo do referido Conservatório. Nesta venda será dada preferência à Senhora Dona Maria Alice Ferreira, filha do Senhor Delfim Ferreira, morador na Rua Dom João Quarto, duzentos e trinta e nove, desta cidade, se esta, na devida altura, pretender adquiri-lo.
Lego, ainda, ao mesmo Conservatório, a minha biblioteca musical – material de orquestra e literatura de violoncelo -, objectos esses a que será dada instalação condigna, para que, dessa forma, o culto, que eu toda a minha vida dediquei à arte musical, perdure e sirva de incentivo a todos – Mestres e Discípulos – que à Arte se dedicam.
-O meu violoncelo “Lockey Hill” lego-o ao Conservatório Nacional de Lisboa, como homenagem a meu pai, que foi aluno desse Conservatório.
-Ao meu criado António Igregias da Silva, deixo o meu automóvel Renaul – NN-cinquenta-zero-zero-, como testemunho de reconhecimento pela dedicação para com meu marido, e, bem assim, as ferramentas e utensílios que se encontrem na minha garagem, legado este que deixará de subsistir se eu, antes da minha morte, tiver transferido para esse dito criado o automóvel e utensílios em referência.
À Excelentíssima Senhora Dona Ernestina da Silva Monteiro, professora de piano, residente na Praça Mouzinho de Albuquerque, sessenta e nove, desta cidade, lego o meu piano de cauda “Franz Arnold”, que se encontra no salão da minha casa.
Mais lego à Excelentíssima Senhora Dona Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, professora do Conservatório do Porto, a quantia de cinquenta mil escudos, em dinheiro, como lego, também, a quantia de vinte mil escudos à Sociedade Protectora dos Animais, desta cidade.
Quanto ao prédio que possuo e me pertence na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade, lego-o em usufruto a Dona Isabel Pereira Caldas Vilarinho de Carvalho Cerqueira, moradora na Rua Álvares Cabral, número cinquenta, desta cidade, e a raiz do mesmo ao Colégio Ultramarino das Missionárias de Maria, em Arcozelo, Barcelos, para, com o seu produto, auxiliar a construção de uma capela destinada ao culto privativo desse dito Colégio. Se, porém, à data em que o legado for recebido, essa capela tiver sido já construída, será o mesmo aplicado, a quaisquer fins inerentes ao exercício do culto.
Em documento que fiz, por mim escrito e assinado, contém-se a disposição de vários objectos mobiliários que possuo, documento esse que se cumprirá inteiramente, a menos que, antes da minha morte, eu resolva transferir tais objectos para os respectivos beneficiários.
Todos os legados instituídos e que não sejam, por Lei, isentos de imposto sucessório, são feitos sem quaisquer encargos, pelo que estes sairão do remanescente da minha herança.
Os valores que, porventura, existam, à minha morte no Westminster Bank Limited, de Londres lego-os a Miss Muriel Collins, moradora no número quarenta e nove Campden Hill Square – London, para esta lhe dar o destino, conforme as instruções que de mim tenha recebido.
Finalmente, e uma vez cumpridos todos os legados, que aqui ou em documento separado eu tenha instituído, disponho dos restantes bens a favor de Dona Isabel Pereira Caldas Vilarinho de Carvalho Cerqueira, atrás referida, a quem deixo, portanto, o remanescente da minha herança.
Para testamenteiros, que executarão fielmente todas as disposições da minha vontade, nomeio: Alberto Carlos de Carvalho Cerqueira, casado, residente na Rua Álvares Cabral, número cinquenta, desta cidade. Miss Muriel Tait, solteira, de nacionalidade inglesa, residente na Rua de Entrequintas, número cento e cinquenta e cinco, desta mesma cidade, e o Doutor Alberto Pires de Lima, casado, advogado, residente na Rua de Naulila, número duzentos e vinte e um, também desta cidade.
Assim, dou por terminado este meu testamento, escrito a meu rogo, para que se cumpra tal como nele se contém e revogo qualquer outro anterior que eu haja feito.
Porto,. Vinte e dois de Junho de mil novecentos e cinquenta
Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena
Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre”, de Fátima Pombo
"A Suggia tomou-a Agustina Bessa Luís, in "A Muralha"
Afixado por: Jorge Moniz em abril 8, 2004 10:38 AMÉ uma vergonha nacional. Suggia ter deixado um violoncelo destinado a instituir o prémio com o seu nome, pelo Conservatório de Música do Porto, e a sua vontade não ser cumprida. De quem é a culpa? Do Conservatório? da Câmara? Não sei. Sei que o que acontece é uma autêntica vigarice, para além da falta de respeito pela memória de Suggia.
Abençoado Stradivarius deixado a Londres. Talvez fosse mais útil à música ter deixado os dois a Londres.
É lamentável na verdade, Suggia ser esquecida na sua própria terra. E mais lamentável, ainda, não serem cumpridas as suas disposições testamentárias.
Este país tem de facto uma grande tendência para esquecer os seus valores, destruir os seus talentos. É pena que assim seja.
Afixado por: vm em abril 11, 2004 02:27 AMO Stradivarius foi vendido pela casa Hills, que prescindiu da comissão para que o prémio a atribuir fosse maior. O prémio continua a ser atribuído anualmente. As escolas donde saem os alunos premiados fazem anúncios na imprensa da especialidade, demostrando a honra de delas terem saído os premiados. O violoncelo continua a ser usado. Neste momento é tocado pela violoncelista do AMAR QUARTET.
Em Portugal o prémio foi atribuído 5 vezes. A CMPorto fez uma compra que não pagou, segundo consta.
A biblioteca legada ao Conservatório não terá um o uso que devia ter. Por interesse de 2 violoncelistas em conhecerem o concerto para 2 violoncelos de Emanuel Moór( dedicado a Suggia no 1º violoncelo e a Pablo Casals), com a provável hipótese de vir a ser tocado por aqueles 2 violoncelistas numa homenagem a Suggia, foi feito um pedido ao Conservatório há vários meses no sentido de ser facultada a partitura e, até este momento, não houve qualquer resposta.
A casa onde Suggia morreu está abandonada e à venda.
O violoncelo Lockey Hill legado ao Conservatório de Lisboa em homenagem a seu pai, esteve 30 e tal anos à chuva do sótão do Conservatório, tal como muitos outros instrumentos, passou depois para os subterrâneos de Mafra, até que foi aberto o Museu da Música, na estação de metro do Alto dos Moinhos, onde hoje se encontra.
Ai Portugal, Portugal!
Afixado por: vm em abril 11, 2004 12:06 PMNão há nenhuma entidade legal que obrigue ao cumprimento das decisões testamentárias?
Neste caso são valores nacionais que estão em causa. Deviam ser protegidos. O que Suggia determinos devia ser rigorosamente cumprido.
queria escrever "o que Suggia determinou". Obviamente.
Afixado por: f.silva em abril 11, 2004 03:35 PMNão tenho conhecimentos jurídicos para saber se existe maneira de fazer cumprir o que Suggia determinou em testamento.
Contudo, parece-me que tudo tem muito a ver com a maneira de ser dos portugueses: desprezo absoluto pelos seus valores.Foi assim com Suggia quando veio de Leipzig. Era chamada a tocar em todos os grandes teatros da Europa. Em Portugal não valia a pena. Como era de cá havia muitas oportunidades de a ouvirmos.
Foi assim com Luisa Todi que foi tão importante e morreu quase na miséria, "metendo cunhas" para que se arranjasse emprego para um filho.E assim com Maria João Pires. É mais fácil receber um empréstimo sem juros dum banco espanhol do que receber aquilo que lhe foi prometido por entidades oficiais.
AnaBela Chaves quase que foi escorraçada das nossas orquestras e é 1ª violetista da Orquestra Nacional de Paris.
Mas que raio de gente que somos!