A propósito de dois notáveis instrumentistas que recentemente se fizeram ouvir nos chamados concertos de Outono do Tivoli: o pianista Artur Rubinstein, de fama mundial, e o violoncelista Maurice Gendron, no início de uma carreira que se antevê gloriosa, apraz-nos recordar o nome de dois artistas portugueses: José Viana da Mota e Guilhermina Suggia que, nas obras ora executadas, o 4.° Concerto para piano de Beethoven, e os Concertos para violoncelo de Haydn e Dvorak, brilharam por toda a parte como intérpretes inigualáveis.
Falecidos há pouco tempo, não pertencem a um passado tão longínquo que não os possamos recordar ainda, e lembrá-los do mesmo passo às gerações novas, com o orgulho e o respeito que nos devem merecer os verdadeiros valores nacionais, aqueles valores que, na nossa actual e cada vez mais pronunciada idolatria pelo artista estrangeiro (e qualquer que ele seja, ilustre, de facto, ou simples prestidigitador), tendemos lamentavelmente a subestimar ou, pelo menos, a considerar sob o ângulo de uma admiração reticente, se não meramente formal. Viana da Mota e Guilhermina Suggia foram dois dos mais excelsos artistas músicos desta terra. Hoje todos o dizem, ou todos se sentem na obrigação de o dizer; mas, quando vivos, nem todos o pensavam: o desdém, a indiferença e não raro até o abocanhamento foram durante muito tempo os únicos prémios com que galardoámos o seu talento – e o caso de Viana da Mota, nomeadamente, é sintomático, até mesmo na morte... Não foi aqui que eles conquistaram as palmas da sua glória, não. O estrangeiro reconheceu-lhes o valor excepcional muito mais cedo do que nós.
Aqui, os nossos valores passam-nos à porta, cruzamos com eles nas ruas, mas só damos por eles tarde demais.
Nós somos assim: muito patrioticamente orgulhosos das nossas glórias, mas as nossas glórias são quase sempre... póstumas. O pior é que não temos emenda, o pior é que a indiferença, o menosprezo do artista nacional vivo continua a ser a nossa atitude corrente, o pior é que continuamos a passar certamente por muitos e indiscutíveis valores que só reconhecemos depois do seco necrológio jornalístico ou do quantas vezes banal IN MEMORIAM.
Na música, possuímos aí uma dezena de artistas - instrumentistas de arco, pianistas, cantores – de indiscutível mérito, reais talentos que não desmerecem da tradição dos nossos grandes concertistas e cujo confronto com tantos dos virtuosos estrangeiros que nos visitam, e que nós tão entusiasticamente acarinhamos, não pode resultar em seu desabono. Mas quê – já lá dizia o Nobre: Que desgraça nascer em Portugal! – quem dá por eles, que oportunidades se lhes oferecem (as que lhes apresentam são quase sempre de favor...), que estímulos proporcionamos à sua arte, que fazemos para os valorizar, como os consideramos, como os estimamos?
Há para aí várias sociedades de concertos, outras se criam, os empreendimentos musicais públicos pululam, as temporadas de concertos sucedem-se aqui e ali: mas em vão se procuraria que deste intenso e algo descontrolado movimento algum benefício resultasse para os nossos intérpretes musicais. O virtuoso estrangeiro – bom, mau ou sofrível – é que é a base, o chamariz, o engodo de toda esta actividade, no fundo, e atentamente vistas as coisas, bem fictícia sob o ponto de vista de uma verdadeira cultura. O público assim o quer, os empresários condescendem (na verdade, não se sabe bem se não são os empresários que o querem, e se não é o público que condescende)... Quanto aos artistas nacionais, oh! Esses têm tempo de se afirmar, de singrar, de brilhar... post mortem.
Não seria possível, não seria desejável, não constituiria um dever pensar, estudar, elaborar quaisquer medidas tendentes a proteger o artista músico nacional, a garantir-lhe a apresentação pública, a proporcionar-lhe o rendimento de que em tantos casos é capaz, ainda que com sacrifício do virtuoso estrangeiro e sem que com isso fossemos cair em feio pecado de xenofobismo?
Cremos que já alguma coisa se tentou neste sentido. Desgraçadamente, o que parece é que as obrigações decorrentes do estatuto proposto se escaparam habilidosamente pelas lassas malhas da condescendência e da tolerância – e os nossos intérpretes musicais aí continuam à espera que queiram reparar neles ou que qualquer mera e degradante oportunidade de favor se lhes depare.
Fernando Lopes Graça (do livro “A Música Portuguesa e os seus Problemas” 1952)
Nota-se a relativa juventude de Lopes Graça, no seu brado veemente contra a passividade de uma maioria que só venerava o que lhe era apresentado como modelo: o que não era seu, que o nacional poderia ser perigoso... e de tal forma que, passados apenas quatro anos sobre a morte de Vianna da Motta e só dois sobre a de Guilhermina Suggia (que não dedicaram músicas a aniversários da “revolução nacional”) a sua arte estava já bem longe, na memória do público daquela tenebrosa década de 1950, em que – não podemos ignorar: é agora o cinquentenário – um ilustre diplomata português iria morrer após passar mais de uma dezena de anos com fome, proibido de exercer todas as profissões para que tinha estudado, como castigo da sua heróica filantropia para com os que Hitler perseguiu; e uma ceifeira, mulher de um pobre cantoneiro do Ministério das Obras Públicas, iria ser fuzilada ao bradar por pão suficiente para os filhos, como justa paga do seu duro trabalho. Pobre rainha Maria Antonieta que, pouco mais de século e meio antes, fora decapitada sem ter mandado fuzilar as mães que assim também bradavam, mas apenas sugerido levianamente a substituição do pão por bolos! Onde estariam os benefícios de tanto sangue derramado?
Sabendo de nada adiantar rebelar-se abertamente contra os poderes que mantinham o público nesta desconfiança provinciana de tudo o que era nacional – a Comissão de Censura impediria que o lessem – restava a Lopes Graça admoestar directamente a carneirada submissa. É certo que a frase “já lá dizia o Nobre: que desgraça nascer em Portugal! ” pode parecer infeliz, quanto à linguagem, mas imagine-se a satisfação íntima que não lhe terá dado antever o trabalhão que iriam ter, a investigar escritos em que um tal Nobre teria dito mal de um país tão bem governado, uns ignorantes esfomeados que até proibiram um livro de engenharia por ele ter como título, O Concreto Armado. Ainda menos conveniente seria chamar, ao poeta, apenas António, - poderiam até julgá-lo a atribuir blasfémias ao Presidente do Conselho, e a tratá-lo sem respeito. Finalmente, aquela inspiração apaixonada que levou o compositor a deixar-nos canções deliciosas como as heróicas e as populares ter-lhe-á sugerido o nome “Anto”, que o poeta se chamava a si próprio? Talvez, mas o público de então pouco mais saberia de poetas do que os censores, e os tempos eram de luta.
António Nobre que afirmava - com uma certeza talvez até modesta - que, dali a cem anos, ninguém falaria senão da sua poesia e “da do Luís” (de Camões) conheceu a glória bem cedo, por ter morrido a tempo: se tivesse chegado às décadas de 30 ou de 40, quem sabe se não lhe teriam feito o mesmo que a Vianna da Motta e a Guilhermina Suggia?