abril 17, 2004

UMA CELEBRIDADE MUNDIAL,NASCIDA NO PORTO

GUILHERMINA SUGGIA

O Porto pode orgulhar-se de ter nascido aqui uma artista extraordinária, que alcançou, em todo o mundo, uma fama, quase ímpar.
GUILHERMINA SUGGIA nasceu nesta cidade no último quartel do século passado – ou mais precisamente a 27 de Junho de 1885.
Aqui faleceu também a 31 de Julho de 1950 (1), depois de uma carreira cheia de triunfos artísticos que ainda estão na memória de muita gente.

Seu pai, Augusto Suggia, professor de violoncelo, tinha grande estima por meu avô, 1º Visconde de Villar d’Allen, que tanto trabalhou em prol da música e dos músicos e que, por isso mesmo, o auxiliara e protegera, especialmente no início da sua vida profissional.
Quando a pequenina Guilhermina, aos 6 anos - ia principiar a aprender violoncelo com seu pai - meu avô, que possuía um violoncelo de pequeno formato (único que existia no Porto), sempre na ânsia de estimular o estudo da música, logo lhe emprestou esse invulgar instrumento. Dele se serviu a futura grande artista durante alguns anos. É desse período inicial uma curiosa fotografia em que GUILHERMINA SUGGIA figura com este pequeno violoncelo, e ao lado, sua irmã Virgínia, que a acompanhava ao piano (in “O Tripeiro”, Dezembro de 1963).

É desnecessário alongar-me aqui sobre dados biográficos desta artista pois, nesta mesma revista, ainda não há muitos anos, sobre ela escreveu, com interesse e copiosa soma de detalhes, um ilustre colaborador - Rebelo Bonito.

No arquivo da minha casa existe o programa do seu 1º concerto, no Orfeon Portuense (Teatro Gil Vicente), em 22 de Maio de 1896, portanto antes de completar 11 anos. Acompanhou-a ao piano sua irmã “menina” Virgínia. Colaboraram: “menina” Leonilde Moreira de Sá, D. Irene Fontoura, D. Amélia Marques Pinto e D. Laura Barbosa. Augusto Suggia dirigiu a orquestra.

Em 1905 já o grande violoncelista David Popper escreveu num álbum de SUGGIA: “ To the greatest of living cellists, Guilhermina Suggia, from her aged confrère, D. POPPER.” Ninguém podia dizer mais dum “oficial do mesmo ofício”...

Sabendo que eu possuía o pequeno violoncelo no qual iniciara os seus estudos - e de que tinha tão gratas recordações - a nossa ilustre conterrânea mostrou grande desejo de o tornar a ver, ao que imediatamente, e com muito gosto, acedi.

Expôs-se então - de acordo com a genial artista - o curioso instrumento, rodeado pela colecção dos seus discos, na montra da Agência da “His Master’s Voice” (que tinha o exclusivo das suas gravações) e que eu então dirigia em Portugal. Foi isto em 1930 e SUGGIA não escondeu o grande prazer espiritual que sentiu ao relembrar os saudosos tempos da sua iniciação na arte musical. Ofereceu-me nessa ocasião a fotografia autografada que acompanha estas despretenciosas notas. Para se poder avaliar o tamanho do violoncelo, fotografei-o ao lado do meu “Forter”, que foi também pertença do meu avô e seu instrumento preferido; dele também me utilizei nos remotos tempos da minha aprendizagem, a que já atrás me referi, mas que cedo infelizmente abandonei, limitando-me apenas a ouvir os outros – mas isto devotadamente – primeiro por diletantismo e mais tarde – durante mais de 30 anos – até por dever profissional.

Como certamente toda a gente que teve a felicidade de assistir aos concertos de GUILHERMINA SUGGIA, recordo ainda com saudade esses momentos invulgares. É que encantava ouvi-la tocar, e talvez não menos vê-la tocar, tal a expressão e sentimento que ela imprimia às suas execuções.

É de justiça recordar aqui, ter sido a Rainha Senhora D. Amélia quem, no início da sua carreira, lhe facultou uma bolsa de estudo para a nossa artista se aperfeiçoar no estrangeiro, antevendo assim as suas extraordinárias possibilidades.

Todos sabem, possivelmente, o prestígio e a fama que SUGGIA alcançou, dum modo especial, em Inglaterra, onde a alta-roda a acolhia carinhosamente.

Disso posso dar um curioso testemunho: - Uma noite, na primavera de 1927, estando em Londres, fomos (minha mulher e eu) à Royal Opera House – Convent Garden. Ia à cena o “Rigoletto”, tendo como figura principal o tenor Dino Borgioli, que no nosso Teatro de S. João tantas vezes foi calorosamente aplaudido. Pouco antes de levantar o pano, observámos do nosso camarote um certo movimento e sussurro na plateia, onde algumas pessoas se levantavam ou, pelo menos, esboçavam um gesto de cumprimento a alguém que avançava pela coxia central para se dirigir a um “fauteil” de orquestra, numa das primeiras filas: era GUILHERMINA SUGGIA que, envolta num elegantíssimo e rico agasalho de peles – e inconfundível na sua maneira de ser e de se apresentar – correspondia, sorridente, às senhoras e homens que a saudavam.

Assim verificámos, com um certo orgulho de portugueses, o prestígio e estima de que a nossa Artista ali gozava.

Villar d’Allen, Março de 1970

Do livro “O porto e a Música” de Alfredo Ayres de Gouveia Allen, Porto 1970

(1)Refira-se que G. Suggia morreu a 30 de Julho de 1950 e não 31 como é mencionado.- VM

Publicado por vm em abril 17, 2004 01:08 AM
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