abril 21, 2004

2 COMENTÁRIOS DE UM EX-ALUNO DO CONSERVATÓRIO

Isto não é um comentário, é simples conversa a propósito.
Fui aluno do Conservatório de 1934 a 1943.
O S. Carlos (tal como a Sociedade de Concertos e o Circulo de cultura Musical) oferecia uma porção de bilhetes à Associação dos Alunos do Conservatório, para cada concerto (e espectáculos de ópera).
Fui um beneficiário regular dessas ofertas.

Lembro-me de ter assistido então a um concerto da Guilhermina Suggia, no S. Carlos. Deve ter sido o recital de homenagem ao General Jordana.
Não sei dizer de que cor era o vestido da artista, mas lembro-me que "dava nas vistas". Quando sentada quase desaparecia sob os muitos metros de pano.
Mas mais do que o vestido impressionaram-me os movimentos dos seus braços, que me pareceram muito exagerados.
Muito novo ainda, a Guilhermina Suggia deu-me a impressão de gostar de "dar espectáculo". Suponho que terei saído do S. Carlos incomodado, a pensar que para se tocar bem violoncelo não é preciso tanto esbracejar...
Não tenho palavras para descrever o prazer do reencontro que o vosso weblog me proporcionou.
E a anedota dos 60 contos é engraçadíssima.
Vou visitar todo o vosso weblog.
Fernando Marques Pinheiro.

11/4/04


Há poucos dias um jovem que assistiu a um concerto de Guilhermina Suggia no Teatro de S. Carlos, aludiu aqui, em “Suggia, Ferro e Salazar”, a dois pormenores que ficaram gravados na sua memória visual : o vestido da artista, que “dava nas vistas”, e os movimentos dos braços, que lhe pareceram “exagerados”. Do que ouviu, do que escutou, nada disse. Ainda escutava mal. Guilhermina Suggia deixou-o indiferente.
Mas quase setenta anos depois surgiu este weblog e com ele a indiferença desse jovem foi quebrada. Surgiu a curiosidade e logo a seguir a admiração.

Hoje proponho um pequeno exercício a realizar dentro deste weblog.
Depois de, com “Suggia, Ferro e Salazar”, se imaginar o ambiente que rodeou o concerto de Suggia realizado no S. Carlos conjuntamente com banquetes, recepções, tourada à antiga portuguesa, etc., tente-se imaginar o ambiente num outro concerto, este em Londres, lendo-se as palavras da própria Guilhermina Suggia que se encontram neste weblog em “Carta a uma amiga sobre o concerto de Albert Hall”.
Eis algumas dessas palavras :
(...) “o meu concerto no Albert Hall foi triunfal (...). (...) estava triste, o que comoveu muita gente que tinha lágrimas nos olhos – incluindo a Rainha” (...).
“A Rainha, com a princesa Margaret e a sua corte, recebeu-me no fim, tendo para mim palavras comovedoras, dizendo que nunca nenhum artista a tinha entusiasmado tanto e que era preciso eu vir mais vezes aqui pois que os ingleses me adoravam. Bebemos champanhe (...) e ela bebeu à mais velha aliada” (...).
“Estava triste”, escreveu Guilhermina Suggia a propósito da maneira como tocou neste concerto.

Veja-se agora também neste weblog, em “Guilhermina Suggia e Vianna da Motta”, a alusão do Dr. João de Freitas Branco a intérpretes “intelectuais” e intérpretes “impulsivos”, colocando Guilhermina Suggia na categoria dos “impulsivos” e Viana da Mota na dos “intelectuais”.
Mas note-se que, se por um lado Freitas Branco classifica Suggia como “impulsiva”, por outro lado não omite o facto da artista fascinar o público pela fibra da sua “interpretação” - tal como Viana da Mota obtinha as suas coroas de glória ao “interpretar”, como também diz Freitas Branco, o pensamento beethoveniano ou de Bach.

Possuidora de uma enorme sensibilidade, Guilhermina Suggia terá, de facto, parecido algumas vezes arrebatada, ou incontida, ou...“impulsiva”..., mas também o Dr. Luís de Freitas Branco aponta nela “a elegância da linha melódica, a vivacidade do ritmo, a graça da simples inflexão da frase”. E isto revela uma natural contenção.

Resta que, como é evidente, entre o calor da sensibilidade e a frieza do intelecto, a escolha é livre, para quem se dispõe a ouvir.
Fernando Marques Pinheiro.

18/4/04



Publicado por vm em abril 21, 2004 09:47 PM
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