Em Portugal, Suggia é considerada uma individualidade musical de excepção.
A carta que lhe é dirigida por Pedro de Freitas Branco e a de António Eça de Queiroz, declaram a completa reverência dos máximos representantes do poder em Portugal.
Presidência do Conselho
Secretariado da Propaganda Nacional - Gabinete do Director
22 de Setembro de 1937
Ex.ma Senhora D. Guilhermina Suggia Mena
Leça da Palmeira
Ex.ma Senhora:
O telegrama de V. Ex." causou aqui considerável emoção, pelo receio manifestado de não poder tomar parte no Festival de Paris de 17 de Outubro, mas também ansiosa expectativa pela esperança que esse telegrama ainda nos deixa de podermos contar com a honra da sua colaboração.
Permito-me hoje escrever-lhe, porque os dias passam depressa, o tempo urge e eu recordo as últimas e animadoras palavras de V. Ex.ª na «gare» de S. Bento quando parti do Porto. No que diz respeito à questão das condições, de que então falámos, resolvi não fazer caso das informações que colhi em Paris a pedido de V. Ex. Com efeito, verifiquei durante o mês e meio que lá passei que o «standard» tem baixado imenso, nesse campo como em todos os outros - e que os maiores artistas têm tocado ultimamente em Paris por quantias diminutas.
O meu dever perante V. Exª é, portanto, não fazer caso dos outros e perguntar-lhe simplesmente se concorda com o «cachet» de 15.000 fr (15.000 francos) que o Comissariado Português, organizador do Festival, lhe pode oferecer pela sua colaboração. V. Ex.ª que conhece o nosso país e sabe as precárias condições em que sempre se realizam entre nós as manifestações deste género (sobretudo quando se trata de música) pode avaliar o que semelhante oferta representa de esforço, de comprehensão e de interesse em ver o seu nome encimando o programa do Concerto. E não se admirará decerto quando eu lhe disser que, atendendo ao carácter nacionalista do espectáculo, todos quantos nele colaboram fazem-no em condições excepcionais (despesas pagas e mais nada, por assim dizer) e que os dois únicos «cachets» normais serão o de V. Exª e o da Orquestra Lamoureux.
Esta orquestra, dirigida por mim fará exclusivamente obras portuguesas e francesas, estando portanto naturalmente indicado que V, Exª toque o Concerto de Lalo - ou o de St. Saëns com a Habanera de Ravel. Também sobre isto aguardo o seu acordo.
Resta-me apenas acrescentar que o Comissário de Portugal na Exposição, António Ferro, director do Secretariado de Propaganda, partiu já para Paris deixando-me encarregado de concluir a organização do concerto e pedindo-me para comunicar a V. Exª que, ao submeter ao Sr. Presidente do Conselho o programa e os prováveis colaboradores, quando chegou o nome de V. Exª o Sr. Dr. Salazar comentou com estas palavras:
«Essa é indispensável».
E mais uma razão, minha Senhora, a juntar a tantas outras que me levam a escrever-lhe pedindo-lhe com insistência uma resposta favorável e - se for possível - telegráfica.
Como estou fora de Lisboa com minha Família, peço a V. Exª" que não me enderece a resposta para minha casa, mas sim para o Secretariado de Propaganda Nacional, R. de S. Pedro de Alcântara -Lisboa (Telegramas: Secretariado - Lisboa), em meu nome, bem entendido.
Com os meus afectuosos cumprimentos para o meu ilustre amigo Ex.mo Sr. Dr. Carteado Mena, peco-lhe aceite, minha Senhora, com os meus antecipados agradecimentos, as minhas homenagens muito respeitosas e os protestos da minha profunda admiração
Pedro A. de Freitas Branco
do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo
A carta de António Eça de Queiroz será transcrita amanhã, dia 24
Afixado por: vm em abril 22, 2004 11:57 PM