S. CARLOS—O concerto de ontem foi ainda mais apoteótico que o de antes de ontem, o que é elogioso para o público de Lisboa, visto o programa de ontem ser de compreensão bem mais difícil e conter nada menos de três primeiras audições. Foram elas: «Ouvindo o primeiro cuco na primavera», de Frederick Delius, «Concerto» para violoncelo e orquestra, de Edward Elgar. e «Sinfonia», de William Walton.
O requintado talento do compositor inglês Delius falecido há apenas oito anos, está destinado a uma carreira feliz em Portugal. O supremo bom gosto que pôs em tudo o que escreveu torna-o querido nos países latinos amigos da delicadeza e da justa proporção. A peça ontem ouvida em primeira audição é um delicioso quadro de ar livre, inteiramente original e diferente desses outros quadros campestres ou florestais que são: o «Siegfried-Hyll». de Wagner; a «Noite de Verão», de Kodaly; a «Tarde de um Fauno», de Debussy; e a «Pastoral», de Honnegger. O maestro Sargent dirigiu-a com elevada sensibilidade.
O «Concerto», de Elgar. é maravilhosamente concebido segundo a índole expressiva do violoncelo, mais romântico do que o concerto de violino do mesmo autor, mais livre na forma e orquestrado de modo a nunca abafar, o que não é fácil, a tessitura grave do Instrumento. A liberdade da forrna e o sentimento romântico tornam a obra difícil de interpretar, e não é possível imaginar-se uma interpretação ao mesmo tempo mais clara e mais cheia de fantasia, de a que ontem ouvimos. Quanta à sinfonia de William Walton pasma-se que uma tão densa floresta de sons, uma das mais titânicas concepções musicais dos últimos tempos, sejam obra de um compositor de trinta anos. de um debutante na forma da sinfonia. A obra, que dura 45 minutos, consta do primeiro andamento rápido, de «scherzo», de andamento lento e de final rápido, quatro andamentos, como se vê, mas tratados sem qualquer preocupação tradicional, nem mesmo clássica. É uma obra monumental. como dissemos, essencialmente rítmica e dionísica, escrita por processos melódicos, harmónicos e contrapontísticos, inteiramente aparte dos habituais.
Completavam o programa a «Abertura de Londres», de John Neland, e as «Variações sinfónicas», de Boëllmann, para violoncelo e orquestra.
Para GUILHERMINA SUGGIA não encontramos outra classificação do que a que davam os antigos às grandes cantoras, à Todi, por exemplo, que, como SUGGIA era especialista no canto largo, ou, como então se dizia, no canto «spianato»: GUILHERMINA SUGGIA é uma deusa, é a deusa da arte que sabe traduzir a vida no que ela tem de mais profundo, no amor e na dor. O público mais uma vez vibrou intensamente nas variações de Boëllmann e sentiu, logo à primeira audição, todas as belezas do concerto de Elgar, que teve acolhimento entusiástico.
Como os aplausos não cessassem, a nossa genial compatriota veio gentilmente ao proscénio desculpar-se de não poder bisar devido à extensão do programa.
O maestro dr. Malcolm Sargent alcançou um merecido e grande êxito pessoal. Compartilhou com SUGGIA da vitoria da nobre partitura de Elgar. Foi brilhantíssimo na abertura de Ireland e na dificílima sinfonia de Walton provou ser um grande chefe moderno, que sabe tornar claras e expressivas as maiores complicações rítmicas e polifónicas. A espantosa ovação que acolheu Malcolm Sargent ao terminar a sinfonia deve deixar-lhe grata recordação. As chamadas foram Inúmeras, e o publico parecia não querer abandonar a sala.
A Orquestra Sinfónica Nacional elevou-se à máxima altura e por várias vezes foi distinguida com os aplausos especiais do público electrizado. — F B.
“O SÉCULO, 23 de Janeiro de 1943