S. CARLOS— Não há palavras que possam descrever o ambiente de arte e de entusiasmo que reinou no terceiro e último concerto de GUILHERMINA SUGGIA e Malcolm Sargent.
Se do primeiro para o segundo já se sentira um crescendo de vibração, a diferença em relação ao de ontem, ainda mais se acentuou, talvez por ser a despedida da nossa inigualável compatriota, que tão raras vezes ouvimos, e do notável regente britânico tão aplaudido nas inesquecíveis noites que ficámos devendo ao Círculo de Cultura Musical.
O programa tinha uma feição marcadamente inglesa, pois que até os dois mestres alemães nele incluídos: Haëndel e Haydn, estão longe de poder ser considerados estranhos à Inglaterra.
O arranjo que sir Hamilton Harty fez da «Water-Music”, de Haëndel, é um modelo de rara aliança do bom efeito orquestral, moderno, com o respeito pelo estilo antigo.
Seguiu-se mais uma interpretação do admirável concerto de Elgar para violoncelo e orquestra, que na primeira audição alcançara um triunfo e ontem obteve um êxito, se é possível, ainda maior.
O génio de GUILHERMINA SUGGIA, o admirável dom que a divina artista possui de fazer dos sons musicais uma linguagem tão explícita como a falada ou escrita, brilharam, mais que brilharam, cintilaram, nesta obra, cheia de recitativos e de melodias de intensa expressão.
A «Fantasia sobre um tema de Fallis» de Vaughan Williams, importante primeira audição deste programa, apresenta-nos o maior compositor inglês contemporâneo, na sua maneira mais característica, apoiada no classicismo e no modalismo dos compositores seus compatriotas do século XVI. O tema quinhentista de Fallis é enquadrado e desenvolvido por processos modernos, com admirável valorização da sonoridade da orquestra de arcos e sem nada perder da sua cor. O maestro Sargent dirigiu esta obra com profunda emoção e rematou-a com admiráveis cambiantes dinâmicos.
No célebre concerto em ré maior, de Haydn GUILHERMINA SUGGIA, venceu brincando as dificuldades acumuladas: os repetidos passos em «capotasto», as notas vertiginosamente agudas, fora da extensão do ponto, os desenhos rapidíssimos, as notas dobradas, todo o mais espinhoso repertório da técnica do violoncelo, desfilou diante dos nossos ouvidos encantados, com a facilidade da água corrente. As ovações que já tinham sido largas e calorosas, ao terminar o concerto de Elgar, foram ainda mais entusiásticas no fim do de Haydn, sendo a incomparável artista obrigada a vir vezes sem fim ao proscénio, rodeada de flores.
A ópera «Romeu e Julieta», de Delius da qual foi extraído o trecho sinfónico ontem ouvido em primeira audição com o título de «Jardim do Paraíso», não é o drama de Shakespeare, mas a novela do escritor suiço-alemão Gottfried Keller. Os noivos designados simbolicamente pelos nomes shakespeareanos são dois jovens camponeses, que, por não poderem casar, se suicidam. O «Jardim do Paraíso» que não é uma peça triste mas um trecho de expressão ao mesmo tempo sóbria e transfigurada descreve o caminhar dos noivos para a morte.
O maestro Malcolm Sargent pôde nesta partitura, dar a plena medida da sua arte, em que a inteligência se alia à sensibilidade.
No trecho seguinte, que terminava o programa o maestro Sargent mostrou a ductilidade do seu talento, passando do sentimento estático de Delius para a exuberância realista da abertura, «Cockaigne», de Elgar composta em louvor da cidade de Londres e dos seus habitantes.
Foram delirantes, apoteóticas as ovações tributadas ao maestro dr. Malcolm Sargent. Deixa este eminente chefe de orquestra em Portugal milhares de admiradores entusiastas, que esperam ter brevemente ensejo de o tornar a aplaudir. É um intérprete moderno que se encontra, igualmente à vontade nos estilos barrôco e romântico, movendo-se com pasmosa facilidade no meio das mais intrincadas complicações, sucessivas e simultâneas, de ritmos desusados e de acordes dissonantes Tem sobretudo a virtude de tornar clara toda a musica que dirige. Foi portanto plenamente justificado o triunfo do maestro Sargent e cremos que não leva má impressão nem do publico de Lisboa nem da Orquestra Sinfónica Nacional, que neste concerto continuou a realizar maravilhas.—F. B.
"O SÉCULO" de 25 de Janeiro de 1943