maio 10, 2004

ENTREVISTA DE CELSO DE CARVALHO A D.JOÃO DA CAMARA (EXCERTO)

Um dos discípulos preferidos de GUILHERMINA SUGGIA foi o Professor Celso de Carvalho. Transcreve-se aqui algumas passagens de uma entrevista por ele concedida à Emissora Nacional, num programa produzido por D. João da Câmara e radiodifundido em 30 de Julho de 1974:

D. João da Câmara: Faz hoje 24 anos que faleceu Guilhermina Suggia, uma grande violoncelista portuguesa, que fez carreira em todo o Mundo: uma longa carreira, sempre em lugar de primeiro plano, e que viria mais tarde a fixar-se no Porto, exercendo aí uma notável acção pedagógica que contribuiu decisivamente para a formação de alguns dos nossos melhores violoncelistas.
O Celso de Carvalho foi um desses escolhidos, por isso, peco-lhe que recorde para nós a grande artista.

Celso de Carvalho: Não é sem emoção que recordo esse relacionamento. A minha convivência com Guilhermina Suggia foi marcada principalmente pela oportunidade de poder ser seu discípulo. Pude assim conhecer e apreciar mais de perto a sua rica personalidade, tão fértil em valiosos conhecimentos, como no bom acolhimento que me dispensou.
Em cada lição vivia a proximidade da sua arte. Era como se o tempo se tivesse dilatado e ganhasse uma nova dimensão.

D. João da Câmara: Foi um trabalho regular ou teve interrupções?

Celso de Carvalho: Por essa altura, Suggia estava a residir no Porto com mais frequência e a série de lições que em princípio se tinha combinado foi-se prolongando e veio a durar três anos.

D. João a Câmara: Esse trabalho continuado revela, evidentemente, um interesse da mestra pelo discípulo.

Celso de Carvalho: É verdade. Esses três anos representaram para mim um alto benefício pois, de facto, devo-lhes a melhor parte da minha formação artística.

D. João da Câmara: Seria interessante que nos revelasse alguns aspectos do modo como decorriam as lições.

Celso de Carvalho: Guilhermina Suggia como Mestra era também uma pessoa excepcional, não só pelo valor dos ensinamentos mas, sobretudo, pela sua capacidade de os transmitir.
Por exemplo: durante as lições ela nunca se preocupava com o decorrer do tempo previamente estabelecido, estava sim preocupada em que as coisas se aperfeiçoassem e fossem conseguidos os melhores resultados possíveis.
Um dos aspectos mais importantes dessas lições resultava do hábito de se sentar junto do aluno e, servindo-se sempre de um dos seus magníficos violoncelos, corrigir e exemplificar aquilo que julgava necessário, deixando-se, muitas vezes, levar pelo gosto de concluir uma frase ou até a própria obra.
Eram esses os grandes momentos em que me era dado seguir o seu pensamento, admirar mais de perto a sua mestria.

D. João da Câmara: Falemos agora de outro aspecto da sua personalidade. Guilhermina Suggia era uma pessoa com muito interesse; muito agradável, de disposição alegre e comunicativa.

Celso de Carvalho: E também de uma grande simplicidade. Ocorre-me relatar alguns factos que o testemunham bem.
A sua popularidade no Porto, estendia-se até ao Mercado do Bolhão (o mais famoso da Cidade) onde, diariamente, fazia as suas compras discutindo os preços com as vendedeiras a quem, de seguida, oferecia bilhetes para os seus concertos.
Ou então, estando hospedada no Palácio-Hotel do Buçaco, uma tarde apareceu inesperadamente, com o seu violoncelo, na pequena sala privativa onde os músicos do Sexteto que tocava no Hotel principiavam a jantar. Com a maior naturalidade disse-lhes: «Vocês tocam para nós enquanto tomamos as refeições; hoje venho eu tocar para os meus colegas e amigos — é a lei das compensações», e sentando-se presenteou-os com algumas peças do seu vasto repertório.
Recordo-me ainda que, quando se apresentava com a Orquestra Sinfónica do Porto, onde fui solista do naipe de violoncelos, muitas vezes me pedia que fosse ouvi--la da plateia, querendo saber de imediato a minha opinião sobre o que acabara de realizar. E, certa vez em que o Maestro pretendia continuar o ensaio enquanto trocávamos impressões, ela retorquiu-lhe que esperasse, pois tinha em muita consideração as minhas observações.
Eram assim as suas reacções: tinha dentro de si aquela aguda e fina sensibilidade, sem a qual não se é verdadeiramente um grande artista.
Um concerto representava sempre para ela uma grave preocupação: «Para tocarmos em público (confessava muitas vezes) queimamos os nossos nervos».

D. João da Câmara: Suggia era a menina-bonita do Porto.

Celso de Carvalho: Sem dúvida. Quando, em 1948, a Orquestra Sinfónica do Porto fez a sua primeira apresentação em público — no Teatro Rivoli — foi ela a solista escolhida. As intermináveis ovações que culminaram a sua actuação eram também de reconhecimento pela grande influência que exercera para que se concretizasse aquela realidade que se oferecia à Cidade do Porto — ter uma Orquestra Sinfónica.
Quero ainda dizer quanto lamento não existir em Portugal um único disco seu em boas condições técnicas (no apogeu da sua carreira estávamos ainda muito longe dos actuais processos de gravação) de modo a que nos fosse dado guardar em toda a sua plenitude o raro prazer de a ouvir. . .»


de "PONTO E CONTRAPONTO". Revista da Academia de Música de Santa Cecília

Publicado por vm em maio 10, 2004 12:05 AM
Comentários

São assim os grandes pedagogos e os grandes democratas.
Como poderia uma alma tão grande deixar-se comprar, ou mesmo sobreviver, numa terra onde a política era a discrininação, o elitismo e a mesquinheez?

Afixado por: Ana Maria COSTA em maio 11, 2004 01:59 PM

De facto Suggia foi enorme em tudo. Cada vez me apaixono mais por esta MULHER tão grande que nós teimamos em desprezar. Antes fosse a única. Ai portugueses, portugueses!

Afixado por: vm em maio 11, 2004 11:29 PM