maio 14, 2004

O VIOLONCELO (de SUGGIA) NOS LIVROS DE VIRGÍNIA WOOLF

Que GUILHERMINA SUGGIA foi, durante as primeiras décadas do século passado, muito mais conhecida e admirada na Grã-Bretanha do que em Portugal, não restam dúvidas.
Em Londres, “ir ouvir a SUGGIA”, era sinónimo de necessidade ou “dever” que gostosamente se cumpria.

No Diário, de Virgínia Woolf, por exemplo, (volume II – 1920-24 – da Penguin Books) pode ler-se, no sábado, dia 2 de Novembro de 1924: (traduzo): “ Como de costume estou, ou imagino que estou, afogada em trabalho, embora consiga, ainda assim, algumas horas de puro prazer: ir ao cinema esta noite, ir à SUGGIA na segunda-feira, porque desejo a sua música para me estimular e inspirar.”

Em nota de rodapé: (GUILHERMINA SUGGIA, 1888-1950, a célebre violoncelista portuguesa, acompanhada pelo seu compatriota José Viana da Mota, deu um concerto em Wigmore Hall no dia 3 de Novembro de 1924). Tocaram, sabe-se, as duas sonatas de Brahms, a em “mi menor” e a em “fá maior”.


Também no livro THE ART OF DORA CARRINGTON, da autoria de Jane Hill, Londres, The Herbert Press, 1994, existe uma referência à nossa violoncelista (a vida de Dora Carrington foi levada ao cinema – CARRINGTON – com Emma Thompson na protagonista).

Página 26 (traduzo): "em 1912, quando frequentava o 2º ano da Slade, Carrington começou a ter encomendas e a arranjar alunos. Um estúdio em Chelsea custava então cerca de 10s. por semana e cada lição rendia-lhe 5s.
A sua determinação em ser independente era tal que chegou a considerar a hipótese de aceitar o lugar de professora de desenho no liceu de St. Helen, em Abington. Mas, por temperamento, era-lhe impossível ter um emprego fixo, pois tal significaria o fim da sua ambição de se dedicar apenas à pintura.
O que ela realmente necessitava era do incentivo da vida londrina: passar as manhãs na London Library e as tardes, até quase à noite, no seu estúdio – tomar chá com Augustus John num dos cafés belgas de Fitzrovia ou ouvir uma sonata de Bach tocada por Madame SUGGIA no Aeolian Hall ou a “Flauta Mágica” no camarote de Lord Esher’s na Royal Opera House”.

São apenas dois exemplos.
Creio que entre os outros componentes do chamado Bloomsbury Circle existirão muitos mais. Para os estudiosos de GUILHERMINA SUGGIA, que não sou, uma pesquisa nas correspondências e diários, quando os haja, de autores e artistas como Roger Fry, Duncan Grant, Mark Gertler, Lady Ottoline Morrell, Clive Bell, Lytton Strachey, Vanessa Stephen (a irmã de Virgínia Woolf) ou John Keynes, talvez traga resultados muito proveitosos.

Sem falar na leitura, ou releitura de toda a obra de Virgínia Woolf que, confissão sua, com SUGGIA contou para a inspirar e estimular.

Ora aqui está, porventura, o tema para uma interessante tese de doutoramento em literatura inglesa – “O violoncelo nos Livros de Virgínia Woolf” – ( e este violoncelo seria o de SUGGIA, que ninguém duvide!)
Mãos à obra!

Ana Maria de Almeida Martins, escritora-ensaísta

Publicado por vm em maio 14, 2004 12:00 AM
Comentários

Refiro que, contrariamente ao que está indicado o ano de nascimento de Suggia é 1885 e não 1888.

Afixado por: vm em maio 13, 2004 11:38 PM

Os volumes do "Diário" de Virgínia Woolf, foram traduzidos, condensados e editados em Portugal pela Bertrand Editora. O I volume (1915-1926) em 1986 e o II volume (1927-1941) em 1987.

Provavelmente porque quem fez a tradução ignorava quem foi Guilhermina Suggia, ou a grande importância que teve esta Mulher, a referência à grande violoncelista é ignorada!
Até dói!

Numa busca que fiz através da Internet ligando os nomes referidos por Ana Maria de Almeida Martins (Bloomsbury Circle) ao de Suggia verifiquei que todos se referiram a ela .

Guilhermina Suggia foi enorme. Continua a não caber neste país.

Afixado por: vm em maio 14, 2004 12:16 AM

Estudo violoncelo aqui no Brasil meu país natal e certamente Suggia é inspiradora dos amantes do violoncelo ainda nos dias de hoje e o será enquanto houver este precioso instrumento.

Emília Garcés

Afixado por: Emília Garcés em junho 9, 2004 03:16 PM

Não há dúvida que Guilhermina Suggia foi inspiradora em Portugal e no estrangeiro de muitos violoncelistas.

Afixado por: vm em junho 13, 2004 08:51 PM

É de facto uma pena falta de importância que se dá a Guilhermina Suggia e como a ela, muitíssimos outros artistas ou Homens de ciências.
Acho fabuloso um blog dedicado a esta grande violoncelista. Penso que nos ajuda a pôr no seu devido lugar o que foi a importancia de Suggia na sua época e sobretudo deixar de lado as mesquinhas referências que a identificam o seu sucesso com o do seu amante e amor Pablo Casals.
Li todos os livros publicados sobre ela em português e confesso que desconhecia esta referência nos diarios de V. Wolf. Agradeço-vos esta descoberta.
Sou violoncelista e recordo com muito carinho quando, ainda no início dos meus estudos no conservatório, lia pela noite estes livros. A imagem e o caracter de Suggia impulsionavam-me a quere ser cada vez melhor.
Um abraço,
Maria

Afixado por: Maria Cunha em junho 26, 2004 12:06 AM

Obrigado pelas suas palavras de estímulo. Muito maior vindas de uma violoncelista. De facto Suggia foi um caso raro de talento e de sucesso. Pena que, como muitos outros valores, continue a ser esquecida no seu país. Esperemos que este blog contribua de certo modo para que muitas mais pessoas saibam alguma coisa mais desta grande violoncelista. Contamos consigo também.
Um abraço também

Afixado por: vm em junho 26, 2004 12:37 AM