QUINTA DOS GIRASSÓIS
Barreiros
Concelho da Maia
Telef:
VERMOIM- 35
31/8/1944
Caro Amigo Loriente,
Enviei-lhe ontem como carta registada as seguintes peças:
Concerto de Haydn (cello), trio Beethoven (cello) Rondo Boccherini (cello que pertence a uma minha discípula ingleza) e a Malagueña de Albeniz, da qual lhe empresto a minha parte de cello com a parte de piano já copiada pelo sr. Oliveira.
Vai tudo dedilhado por mim. Devo dizer-lhe que tive um trabalhão com o Triplo Concerto de Beethoven – horas sem fim de trabalho e paciência pois não foi fácil – fiquei satisfeita com a minha obra que creio se deve parecer bem com as arcadas e dedilhação que há muitos anos ouvi a Casals, que de resto, temos o mesmo pensamento e compreensão na arte de dedilhar. Só lhe pedia uma coisa, e creio de direito. Era ver se arranjava uma outra parte de violoncelo para entregar ao Maestro Freitas Branco, ficando o Loriente com essa cópia que vai dedilhada (que foi feita EXCLUSIVAMENTE para si e só para si) ou então depois de a ter estudado e tocado em público – mandá-la copiar (se não houver em Lisboa) e passar as minhas marcações para a minha cópia, usando depois de uma borracha para apagar tudo o que é meu (para que não se perca o meu trabalho mas também para que não fique prejudicada sendo utilizada por outros violoncelistas que não são meus discípulos).
Era dar pérolas a porcos, desculpe a vulgar mas bem adequada frase.
Gostaria e seria mesmo de grande necessidade para si se pudesse antes de qualquer ensaio dessa obra, vê-la comigo a fim de lhe dar o carácter na interpretação. É difícil e requer um estudo como se fosse um concerto para violoncelo solo – e tinha prazer em que fizesse muito bonita figura – O violino terá que frasear um pouco da mesma forma para que haja homogeneidade.
Fiquei aqui com as cópias da melodia de Bridge, a “Gavotte” de Méhul e também a sonata de Strauss que só mais tarde lha posso enviar. Diga-me para onde lhe devo enviar o Franck Bridge e Méhul no fim da próxima semana.
Estamos a vindimar aqui e fizemos já duas pipas e meia de vinho branco (verde) e hoje estão a colher o vinho tinto que dará outro tanto. Gosto desta época e o tempo tem estado óptimo, sem demasiado calor. Após o vinho é a desfolhada do milho que tem sempre um ar festivo e alegre sobretudo quando se encontra uma espiga de milho preto, o que quer dizer segundo a tradição cá para o norte, que os rapazes têm que beijar as raparigas ou senhoras, seja quem for que esteja presente.
Ainda me demoro por aqui mais uma semana regressando ao Porto no dia 7 ou 9 quando conto partir para Francellos a passar uns dias à beira-mar, para tomar banhos que adoro – e lá pode-se nadar.
Enquanto o meu marido ainda não decidiu quando fará a operação e se terá de a fazer – Felizmente não tem piorado ultimamente, apesar de lhe doer sempre - Coitado, merecia melhor sorte.
Todos os dias estudo no William Forster. Se vir o senhor Celso diga-lhe que em breve lhe mando a Sonata de Samartini, mas não sei para onde. Poderia enviar-me o endereço dele? E o Carlos Figueiredo ainda está no Avenida?
A todos as minhas lembranças em especial para si e sua esposa.
Cumprimentos de meu marido
Yours Sincerely
Guilhermina Suggia
Junto vai a nota do copista- quer que lhe pague? – Dê-me as suas instruções.
carta cedida pelo prof Henrique Fernandes