Nesta carta à amiga, Guilhermina Suggia resume a travessia de recentes acontecimentos e emoções com os detalhes suficientes para se poder imaginar cenários e o modo dela se mover neles.
16. Cheyne Walk - Chelsea - S. W.3
9 de Novembro de 1946
Minha boa amiga Ernestina,
Mais umas linhas para lhe dizer do grande successo que foi a noite de quarta-feira passada. Fui felicíssima na execução do Concerto d'Elgar no Real Albert Hall aonde havia cerca de 8.000 pessoas. Os ensaios tinham já sido bons e gostei imenso do chefe d'orquestra Warwick Braithwaite que por sua vez ficou encantado comigo. E que discrição a orquestra! Uma maravilha! Foi pena não ter sido radiodifundido mas corno a orquestra é a London Symphony não costumam radiodifundir. No dia 18 também não será transmitido. Apenas no dia 21 pela BBC pois nessa ocasião serei acompanhada pela Orchestra da BBC com Sir Adrian Boult.
O meu vestido de renda branco fez sucesso e todos me acham bem.
Felizmente tenho passado bem apesar de nem sempre poder seguir a minha dieta por falta de muitas coisas essenciais. É tudo por racionamento, pão, manteiga, açúcar e carne é raro comer - só em condições. Isto enquanto estava no Hotel. Aqui nesta casa já é outra coisa porque os donos têm casa de campo com vacas e galinhas, assim temos manteiga e ovos frescos. É um sonho esta casa como situação e como recheio.
Apesar de muitos compromissos tenho tempo para estudar à vontade porque aqui tudo se faz com pontualidade. Estou ansiosa por saber se me ouviu falar esta noite e se ouviu as palavras que o Sr. Pessa disse a meu respeito.
Eu estava mais excitada para falar para o microfone do que para o concerto no Albert Hall, pois lá estava muito calma. Sentia uma divina protecção como senti quando da viagem por avião. Penso muito no meu marido e na maninha e recebo poucas notícias de lá. Que Deus permita que eles melhorem e que vá encontrar tudo e todos o melhor possível no meu regresso.
Mrs. Melville esteve comigo uma semana no Dorcbester Hotel e esta tarde veio tomar o chá comigo a esta casa aonde eu tenho um salão magnífico para estudar com fogão enorme e um quarto de dormir que é um encanto e uma cama tão fofa que parece feita de seda e algodão em rama. A comida também é óptima. Gostei tanto de falar com a rainha mãe Queen Mary, que simpatia.. O tempo agora está lindo e o sol entra por esta casa dentro tendo o rio «Tames» por defronte. Tudo o que há de mais poético!
Na próxima terça-feira os nossos embaixadores Duques de Palmella dão um jantar em minha honra no Claridges Hotel aonde eles estão hospedados e na quinta, há urna soirée aqui com Gerald Moore. aonde tocarei Valentini, Brahms (mi menor). Bach suite. Falla, etc. Várias recepções com os ministros ingleses e uma festa no Anglo-Portuguese Sociely.
Tenho os meus dois violoncelos comigo. Tive grande alegria ao abraçar o meu Montagnana que está lindo, mas só toco por enquanto no Stradivarius.
Agora, um grande abraço para a minha boa amiga e manas e tia e espero ter notícias suas brevemente. As saudades já apertam e não pouco.
Sua muito amiga,
Guilhermina Suggia Mena
Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo