Roland Gardens
South Kensington,
London
30 de Setembro de 1924
Mein liebe meister,
(...).
Acabo de receber hoje a sua carta do dia 26 e com respeito aos concertos de Portugal, estou disposta a fazer concepções, somente seria preciso garantir, por ex. um número mínimo de concertos, diremos 6 concertos “to an average fee of 50 pounds”. Está bem assim? Eu compreendo bem que em cidades pequenas é impossível exigir muito, mas talvez se possa elevar um pouco o preço dos bilhetes para esses nossos concertos. E depois também é preciso que o “meu irmão” imponha as suas condições, senão o ratinho vai morrer de fome.
Já comecei a tratar do reclame para aqui – e brevemente já virão os nossos programas publicados.
Recebi há dois dias o seu lindo “VITO” e quase que o sei de cor – os “doigtées” para aquela passagem rápida levaram uma tarde inteira a achar e no dia seguinte tive uma “migraine” muito forte. Apesar de tudo decidi de o tocar no primeiro concerto. Os meus solos serão pois: Suite de Bach, Kol Nidrei deMax Bruch, Rondo de Dvorak e Vito do “Jay”.
Agora tem que haver uma alteração na forma dos concertos, Isto é, o recital Beethoven vem a ser o último dos três concertos, fechando assim com chave de ouro. Teremos mais tempo para ensaiar.
Mr George Reeves só está livre nos dias 3 e 10, mas em 19 tem que acompanhar Casals em Birmingham. O segundo programa fica sendo o terceiro e os meus solos nesse são os seguintes: Sonata de Sammartini, Sicilienne de Veracini e Allemande de Senallié. É mais interessante que só a sonata de Locatelli que é muito tocada aqui.
Espero que o ter mudado a ordem dos programas sem lhe pedir licença, não o contrarie. Creio mesmo que é melhor para preparar o público. Há outro motivo também e é que, como para as sonatas de Beethoven uso o Stradivarius, posso preparar melhor, não tendo assim que mudar de instrumento em poucos dias.
Escrevo-lhe esta muito, muito à pressa. Brevemente lhe respondo a mais detalhes das suas cartas. Junto lhe envio carta de IBBS and TILLETT a seu respeito.
Não se esqueça de ver se pode arranjar alguma coisa para a Argentina em meados de Maio, e Brasil em Julho, Agosto do ano próximo. Já agora eu podia fazer Portugal em Março, Espanha de Abril até meados de Maio, depois Argentina. Se não for tarde e no verão Brasil – a regressar em Setembro para descansar até Outubro. A América do Norte tem-me feito as “démarches” mas ainda nada que valha a pena. Isso será mais tarde.
Much love for you, little sister
G.
Espólio de Vianna da Motta- Museu da Música”
Todas estas cartas e informações me são muito úteis, pois encontro-me a escrever um romance biográfico sobre Guilhermina Suggia (será uma trilogia)
Muito obrigada por este site!
Afixado por: isabel millet em maio 31, 2004 12:43 PMNesta correspondência, são impressionantes os indícios de uma terna amizade entre estes dois espíritos tão opostos: a arrebatada, dramática, mimada, bem meridional Guilhermina e o discreto e contido José Vianna da Motta, educado no amor austero e intransigente da casa paterna, e completado nos rigores do espírito germânico.
Ela mostra admirar nele a arte e a cultura - p.ex. na referência à carta enviada a Hudson, em inglês (25 de Novembro de 1924) – mas vai deixando sempre transbordar um enorme fascínio pelo homem de grande encanto físico e extraordinárias qualidades morais. Vê-se que quer experimentar-lhe todas aquelas que características que a assombram por tão pouco comuns, aventurar-se a penetrar no grande abismo que os separa.
Tal como ele a ela, a violoncelista dirige-se-lhe na 3.ª pessoa, mas destaca, nesta carta, o tratamento por irmão, por ele escolhido, enquanto mostra preferir brincadeiras levemente provocantes como este outro por “gato”- “rato”. Não se contenta com o título de “irmãzinha” - que prefere na versão inglesa, mais íntima: “your little sister” - única manifestação de ternura que ele, cauteloso, inclui na carta que escreve (18 de Maio de 1924) àquela “grande e querida artista”, falando de “nostalgia (não de saudades) de tocar consigo, com a minha irmã artística”. É Vianna da Motta inteiro: discreto, humilde, solidário, corajoso, a grande alma que nunca deixou de ser – nem mesmo quando preterido pelos invejosos, no seu país.
Ana Maria Costa
É extremamente agradável que uma filha de uma aluna de Guilhermina Suggia - penso não estar enganado, trata-se da filha de Sra. D. Isabel Millet - vir aqui intervir. Espero que o faça mais vezes. Podem ser muito úteis os comentários. Seria importante que as pessoas com referências, directas ou não, a G.Suggia, falassem mais dela. Que esta página não fosse apenas um depósito de informações e documentos, mas também um meio de discussão e, quem sabe, ajudar a resolver alguns problemas relacionados com o não cumprimento dos seus desejos testamentários.
Espero o livro com ansiedade. Parabéns
À nossa já habitual comentadora, Sra D Ana Maria e depois desta ausência de férias, é bom sabê-la de volta. Na verdade sente-se que a relação entre G. SUGGIA e V. da Motta era uma relação de grande amizade. Foram tão cumplices que, embora não tenha a ver directamente com G. Suggia, o próximo texto a editar neste blog, será um texto escrito por Lopes Graça sobre o grande pianista, compositor, pianista Vianna da Motta. Aquele mesmo que tinha o seu nome num avião e foi substituído.
Afixado por: vm em maio 31, 2004 05:46 PM