Não creio grandemente nas virtudes e alcance prospectivo ou retrospectivo desta quase instituição literária e muito portuguesa que é o In Memoriam ('), e afigura-se-me que se no outro mundo (em que aliás não acreditava) Viana da Mota pudesse ter conhecimento de que também a sua memória estava em vésperas de ficar arrumada nas páginas de um mais ou menos copioso e laudatórío volume, não deixaria por certo de fazer uma daquelas suas tão expressivas visagens em que fina e discretamente se misturavam a ironia e a piedade pelas fraquezas e ridículos dos mortais.
Adiantará esta homenagem póstuma alguma coisa no conhecimento, na compreensão, que os portugueses tiveram da figura do ilustre músico? Duvido. A verdade é que, se nunca em vida Viana da Mota teve a consagração que a sua invulgar estatura merecia, se na hora do traspasse lhe não foram prestadas as honras a que como poucos tinha direito, não será agora, ano e meio volvido sobre o seu passamento, que essa injustiça se reparará com o improvável reconhecimento, por parte dos seus compatriotas, da grandeza de um artista que era insofismavelmente um vulto nacional.
Mas não estarei eu a cair em erro de utopia, supondo que as coisas poderiam ter-se passado de maneira diferente, de maneira mais conforme aos ideais
que nos fazemos dos deveres e ilustração do homem
civilizado? Pendo a crer que sim. ..
Num país avesso, parece que por natureza ou má sina, à consideração dos valores superiores da inteligência e da sensibilidade; num país lamentavelmente propenso à subestimação das coisas da arte e do pensamento, e onde o culto, a fascinação de quanto é vazio e medíocre vem atingindo, há uns anos a esta parte, aspectos e proporções verdadeiramente alarmantes; num país onde a maioria da população só tem duas paixões, só vibra, só se electriza com duas funções: o fado e a bola; num país onde até os melhores, os mais esclarecidos, se deixam facilmente contaminar da inanidade geral e lá fazem também cortejo atrás da «vedeta» desportista, cinematográfica ou radiofónica que a moda lançou e a desenfreada publicidade jornalística consagrou — quem é que se lembra de honrar o talento que nobremente se soube conservar afastado do barulho da feira pública, que não desceu a contemporizar com a mediocridade, que não pagou a arautos que sonorosamente lhe proclamassem o génio, que não adulou os príncipes da finança ou da política, que não ingressou em confrarias e capelinhas de elogio mútuo e até à última manteve um decoro, uma compostura, uma ética (para empregar uma destas palavras mágicas muito ao gosto dos tempos que correm), que não pode deixar de incomodar uma sociedade que, acima dos altos valores humanos e dos rigorosos imperativos da consciência moral, põe as delícias da vida fácil, o amor do luxo e da ostentação, a sede do oiro, a ânsia da glória, qualquer que ela seja, por qualquer modo que se possa obter, e ainda que seja a... curto prazo?
Foi Viana da Mota um dos maiores pianistas do seu tempo, um artista admirado e respeitado pelos seus pares como um Mestre? Frioleiras...
Foi Viana da Mota durante algumas décadas o nome português mais europeu, um verdadeiro embaixador espiritual do seu país? Ninharias...
Foi Viana da Mota amigo ou correspondente de algumas das figuras mais notáveis da música e do pensamento musical da sua época? Bagatelas...
Foi Viana da Mota como compositor o iniciador do nacionalismo musical português, o pioneiro de um movimento que, se não produziu melhores frutos, não teria sido positivamente por culpa sua? Bugiarias...
Esteve Viana da Mota durante cerca de vinte anos à testa do primeiro estabelecimento musical do País, a que emprestou o prestígio do seu nome, nome a que incontroversamente ficou ligada a mais esclarecida, actualizadora e progressiva reforma que ainda tal estabelecimento conheceu depois da sua fundação? Lendas...
Foi Viana da Mota, como pedagogo, o fundador da moderna escola de tocar piano em Portugal e mestre, directo ou indirecto, de quase todos os artistas que hoje no País usufruem de alguma notoriedade como virtuosos do teclado? Invencionices...
Foi Viana da Mota, como artista e como professor, um modelo de probidade profissional, um trabalhador e um estudioso sempre ávido de superar-se a si próprio, procurando constantemente, apaixonadamente, penetrar mais fundo nos segredos, nos problemas técnicos e estéticos da sua arte? Maravalhas...
Foi Viana da Mota, pela cultura e ilustração intelectual, um homem superior, um tipo de artista-humanista raro no nosso país? Patacoadas...
...não monta mais
Semear milho nos rios
Que querermos por sinais
Meter coisas divinais I
Nas cabeças dos bugios.
Como tantos outros artistas portugueses dos maiores, Viana da Mota foi uma vítima da incompreensão, da maldade e da pequenez de um meio com o qual a sua invulgar estatura não podia ter medida comum. Negaram-lhe o talento, disputaram-lhe a glória, moveram-lhe campanhas ultrajantes, dificultaram-lhe a vida, regatearam misérias nos seus modestos cachets de concertista, esforçaram-se por fazer cair sobre o seu nome e a sua obra a pedra vil do esquecimento, deixaram-no morrer num isolamento e numa solidão terríveis, e mesmo depois de morto se procurou evitar que a sua vera fisionomia de artista e de intelectual pudesse ser revelada em toda a sua luz.
Entretanto, os medíocres que o guerreavam subiam, os nulos que lhe invejavam a fama triunfavam, os incompetentes que lhe deslustravam o nome floresciam, os néscios que desdenhavam da sua arte alcandoravam-se — e agora são capazes de aparecer a fazer-lhe o comovido panegírio...
Que a meia dúzia de amigos e admiradores sinceros que lhe permaneceram fiéis se não agastem:
Adhuc sub judice lis est.
(1)Fernando Lopes Graça ( texto escrito como contribuição para IN MEMORIAM de VIANNA DA MOTTA, foi contudo recusada a sua publicação com alegação em invencíveis mas não explícitas dificuldades quanto à sua inclusão nele)
1949
Pode parecer descabido este texto de F. Lopes Graça num sítio que pretende falar de GUILHERMINA SUGGIA. No entanto, dada a enorme cumplicidade quer em termos de amizade quer em termos de trabalho, existente entre ambos, e que é bem notória nas cartas que aqui têm sido transcritas, parece-me ser de toda a oportunidade a sua inclusão no blogue. Também nos revelamos, e muito, através dos nossos amigos.
Além do mais parece-me, infelizmente, que o texto continua cheio de oportunidade.
É deliciosa a correspondência com Vianna da Motta, publicada num dos "Opúsculos" de Lopes Graça, de onde foi extraído este belo texto.
Todos os portugueses deveriam ler este pequeno volume, para saberem o que se passava nos meios culturais do Portugal da década de 1940, se deliciarem com as reacções de uma alma verdadeiramente nobre, como era a de Vianna da Motta, e compreenderem, enfim, a preferência de Guilhermina Suggia pelos meios musicais estrangeiros. Como ela deveria sentir-se sufocar, aqui, com tanta mesquinhez!
De facto, esqueci-me de referir o livro onde fui buscar o excelente texto de Lopes Graça : OPÚSCULOS (3). Aqui ficam as minhas desculpas.
Também é verdade que a mesquinhez continua a "matar" talentos neste país.Por isso temos, por exemplo, Ana Bela Chaves em Paris e não em Portugal. Enfim!