João de Freitas Branco concede esta confidência no seu discurso proferido no Porto em 12 de Julho de 1989:
«Passou-se isto numa época em que eu fui uma espécie de seu assistente para os concertos da Emissora Nacional. Tinha ido buscá-la( a GUILHERMINA SUGGIA) ao hotel para a levar ao concerto em que ia tocar e, durante o caminho, reparei que ela se mostrava um tanto deprimida. (Ao contrário do que era costume, pois ela era sempre muito exuberante.) A certa altura, disse-me: «Sabe, hoje vou tocar muito preocupada, porque quando saí do Porto a minha cadelinha adoeceu... Não sei como é que hoje vou poder tocar bem».
No final dos anos 40, o encontro de Suggia com Maria Adelaide de Freitas Gonçalves tem consequências para a vida cultural portuense.
Formaram um duo piano-violoncelo, tendo sido com Adelaide Gonçalves que Suggia tocou pela última vez em público, na delegação do Círculo de Cultura Musical de Aveiro. Maria Adelaide Gonçalves, que era directora do Conservatório de Música do Porto, lançou também as bases preparatórias da orquestra, com elementos dessa escola de música, seleccionando, por exemplo, alunos finalistas. Guilhermina Suggia superintendeu com mestria e eficácia o naipe dos violoncelos, na sua maioria constituído por alunos seus! Dizia-se que era o naipe mais seguro da orquestra. Karl Achatz, de nacionalidade sueca, devotou-se à preparação de um conjunto musical de 72 elementos. Enraizada no Conservatório, a Orquestra foi chamada «Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto». Foram, no entanto, convidados a integrar a Orquestra outros elementos, alguns deles estrangeiros residentes no Porto.
A inteligência e empenhamento de Adelaide Gonçalves para concretizar esse desejo artístico e cultural do Porto, de ter uma orquestra sinfónica, atraiu algum apoio de entidades oficiais e patrocínios particulares.
O concerto para apresentação oficial, em primeira audição, da Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto dá-se na noite de 21 de Junho de 1948, no Rivoli, no Porto. A estreia foi um acontecimento sensacional. A solista foi Guilhermina Suggia que executou obras de Weber, Beethoven, Saint-Saëns, Max Bruch e Liszt. A assistência, que enchia completamente a vasta casa, aplaudiu entusiasmada. O ministro da Educação Nacional, em representação do presidente da República, no final do concerto elogiou a iniciativa e a convicção, depois de cumprimentar elogiosamente Suggia, a Orquestra e o seu maestro Karl Achatz.
Em 1949, Guilhermina Suggia já com sinais visíveis de doença, tem a corajosa iniciativa de criar o Trio do Porto, constituído por ela, pelo violinista Henri Moton (professor do Conservatório e concertino da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto) e pelo violetista François Broos.
A estreia foi no sábado, 21 de Maio de 1949, no salão nobre da Faculdade de Medicina. O concerto foi organizado pelo Centro Universitário do Porto da Mocidade Portuguesa. O programa foi consagrado a Beethoven: trio n° 5 em dó menor op. 9 n° 3; o trio nº 3 em sol maior op. 9 n° l e o trio n° 2 em ré maior op. 8 (conhecido por l.a serenata). O êxito foi total e os aplausos calorosos.
Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo