No artigo «Posando para August John» publicado em 8 de Abril de 1923 no Weekly Dispatch e assinado por Suggia fica a saber-se mais detalhes dessa criação conjunta.
Ser-se pintado por August John não constitui uma experiência vulgar. Se o resultado da pose é uma obra-prima, o processo que conduz à sua criação não é menos excitante. O homem é único, assim como o são os seus métodos.
Para iniciar, o seu verdadeiro estúdio é original. Um grande e belíssimamente bem proporcionado quarto em Chelsea, não iluminado a partir do topo, tal como sucede com a maioria dos estúdios, mas a partir de um dos lados, sendo a totalidade desse lado do quarto uma janela. Quando posei para o meu retrato, estava voltada para a janela, o artista, claro, estava de costas para a luz. Esta posição ajuda a explicar o notável efeito da luz intensa sobre o violoncelo, de modo tão pleno que pode ser observado no quadro. Eu podia ter achado fatigante a prolongada contemplação da luz solar - pois John sempre escolheu dias resplandecentes - não fosse a minha pose ter exigido que eu tivesse a cabeça voltada para o lado.
Pintar a Música de Bach
A minha pose explica o segredo da totalidade do retrato. Eu estava a tocar. No decorrer da quase totalidade das poses, eu estava realmente a tocar - não meramente a fingir que tocava, como faria a maioria dos artistas, mas expressando realmente a música de Bach. Toquei principalmente Bach, porque, sendo música clássica, ajustava-se à atitude exigida pelo artista.
Permitir este constante movimento nas suas poses constitui talvez o segredo do génio de John. Tal requer, claro, constantes alterações. O meu braço esticado, por exemplo, naturalmente que variava um pouco em posição, e John pintou cada uma destas variações até aperfeiçoar o resultado final. Tal como com a expressão; as disposições de cada pose, ou antes, cada movimento realçado pela minha música, foram registados pelo artista.
Esta capacidade de pintar e repintar tão rapidamente e facilmente encontra-se talvez melhor demonstrada pelas alterações que o artista efectuou no meu vestido. Ele iniciou o retrato seleccionando um clássico vestido de gala dourado, e um dia, em alguns minutos, alterou-o para branco. Este efeito, embora muito angelical e elegante, não era bem o que ele desejava, e então concebeu o traje vermelho que eu uso no retrato final.
Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo