Pode ser prontamente compreendido que, com um método de trabalho tão cuidadoso, as poses fossem razoavelmente prolongadas. Em regra, eu posava duas horas, mas perto do fim, quando John se encontrava ansioso para terminar o quadro, eu posava duas horas de manhã e outras duas à tarde. Nessa altura, contudo, havia entre as poses, o conforto de um delicioso almoço com o artista.
John é um brilhante conversador por um lado, e um homem silencioso por outro. O que significa que ele não conversa grande coisa, mas nunca fala sem dizer algo que mereça ser dito. Ele é mordaz na sua conversação, por vezes sarcástico, mas nunca indelicado.
Relativamente aos jovens artistas em especial, o seu discurso é sempre gentil; só o inculto e o hipócrita são susceptíveis de serem cruelmente criticados numa pausa entre as poses.
A minha actuação durante as poses impediu naturalmente muito diálogo, mas o artista apreciava a música e continuava a trautear a melodia depois de eu ter terminado. Por vezes ele começava a andar para cima e para baixo, em simultâneo com a música. Isto recorda-me uma particularidade do John. Quando especialmente satisfeito com o seu trabalho, quando uma determinada técnica de pintura de pestanas ou a aplicação de uma tonalidade lhe corriam bem, ele caminhava sempre nas pontas dos pés.
Assim que eu ouvia a serenidade dos seus passos e o seu andar leve, eu fazia um esforço enorme para manter à justa uma atitude correcta. Num quadro pintado assim, o retrato não só de um músico como também do seu instrumento - mais, do próprio verdadeiro espírito da música - o modelo deve, numa grande extensão, participar na sua criação. O próprio John é suficientemente gentil para lhe chamar o «nosso» quadro.
Isto explica a perfeita felicidade e satisfação que senti ao longo de toda a minha pose, e em todas as vezes que observei o meu retrato, mesmo nas fases iniciais.
John não só permite que os seus modelos vejam o retrato inacabado, como os encoraja a efectuar críticas. Estas, no meu caso, ficaram confinadas a pormenores técnicos relativos à posição do arco e do violoncelo, e assim por diante.
Da primeira vez que observei o quadro, fiquei surpreendida por ver como progredira tão rapidamente. John tem, acima de tudo, a maravilhosa capacidade de criar um esboço em poucos traços. Os dois esboços a carvão que ele fez como um estudo preliminar para o retrato foram descritos como os melhores do seu género desde Rafael.
Passaram alguns anos desde que Augustus John me ouviu tocar pela primeira vez e me perguntou se podia pintar o meu retrato. Quase três anos decorreram enquanto se procedia ao trabalho, mas estou mais encantada com o resultado do que alguma vez pensaria ser possível. Eu sempre me recusei a ser pintada antes, e sinto que não desejo que alguém, a não ser talvez o John, me volte a pintar.
Ele tem, a propósito, um outro retrato meu meio acabado que foi iniciado antes da presente pintura. Nesse a minha cabeça encontra-se voltada no sentido oposto, olhando sobre o ombro esquerdo, e uso uma toga verdadeiramente maravilhosa, de um azul vacilante. John abandonou-o porque não era suficientemente grande - apenas três quartos do tamanho do presente retrato. A tela que ele preparou para o meu retrato possui uma forma original, pois é quase tão larga como longa. Encontra-se particularmente apropriada para o retrato de uma violoncelista e seu instrumento, o que requer uma certa largura.
Algumas pessoas têm-me dito que gostaram mais do quadro antes de me conhecerem, uma vez que pensam que ele não me fez tão bela como elas pensam que eu sou. Como resposta, eu cito o que o próprio John disse à minha mãe enquanto ela olhava para o quadro.
Muito humildemente ele perguntou-lhe se ela estava satisfeita com o quadro. Quando ela replicou que estava extremamente satisfeita, ele respondeu-lhe (em francês): «A sua filha está a ficar cada dia mais bonita, e o que eu lamento é o facto de não ser capaz de a representar tão bonita como ela está agora».
do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo
Publicado por vm em junho 17, 2004 12:00 AM