junho 19, 2004

O QUADRO VAI PARA A AMÉRICA

Em 28 de Maio de 1923 uma notícia no Daily Express refere a inauguração da exposição de August John, no dia anterior, na «Alpine Club Galleries».

A exposição era dominada por temas espanhóis, designadamente estudos de ciganos espanhóis. Figuras ilustres como a Infanta Beatriz de Espanha e o Embaixador espanhol retribuíram a homenagem prestada pelo pintor, aparecendo com amigos na inauguração. Diz, no entanto, o autor do artigo que «Mme. Suggia num casaco de peles, apesar do calor e um pequeno chapéu escarlate e dourado, aguentava uma recepção em frente do seu retrato».

Nesse mesmo ano de 1923 o quadro é vendido a William P. Clyde Júnior de Nova York, accionista da «Clyde Steamship Company». Este americano, que na altura se encontrava em Monte Carlo, soube que este quadro de August John seria exposto em Londres. Voou para a Alpine Club Gallery e comprou-o por um preço entre 4.000 e 5.000 libras, fazendo um seguro de 10.000 libras.

Durante muito tempo o nome do comprador permaneceu secreto por desejo do próprio. É que receou que o pai, ao saber o preço do quadro, lhe reduzisse a herança por extravagância. Na América, o quadro é exposto nos museus de Filadélfia, Cleveland, Washington e Michigan. Milhares de pessoas que não a tinham ouvido pessoalmente, puderam admirá-la suspensa nas cores de John.

O facto do quadro sair de Inglaterra não agradou a ninguém. Suggia confessa em Fevereiro de 1925 que «Mr. Clyde veio ter comigo, disse que me reconheceu como Mme. Suggia e que tinha comprado o meu quadro. Acho que não fui muito simpática com ele, dizendo-lhe que não tinha o direito de levar aquela obra de arte para a América».

O quadro acabará por ser recuperado por Sir Joseph Duveen que o oferece à Tate Gallery. August John, no seu livro de memórias "Chiaroscuro", refere-se também a este movimento do seu quadro:

«O meu retrato de Mme. Suggia foi comprado pelo Sr. Clyde, de Nova York, quando foi primeiramente exibido em Londres. O Sr. Clyde enviou-o para Pittsburgh, onde ganhou o primeiro prémio. Mais tarde Duveen comprou-o, tendo vindo a apresentá-lo à Tate Gallery para grande satisfação de Mme. Suggia e de mim próprio. A distinta violoncelista não aprovou a transferência deste quadro para a América, onde, a não ser por reputação, ela era desconhecida; quanto a mim, claro, só queria concordar com a Guilhermina em todas as ocasiões possíveis.»

Quando Sir Joseph Duveen telefonou a um amigo a confirmar que o quadro voltaria para Inglaterra, esse amigo levou a notícia imediatamente a Suggia.
Estamos em Fevereiro de 1925. Estava ela rodeada por admiradores no camarim, no fim de um concerto no Queen's Hall, depois do concerto da Women's Symphony Orchestra e responde com humor:

- “Ah, assim já não preciso de ir à América, se o meu quadro voltar para cá. Tenho tido muitos convites e tenho-os recusado todos, mas já estava a pensar em aceitar, só para ver o meu quadro outra vez.”

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre”


Publicado por vm em junho 19, 2004 01:09 AM
Comentários

São muito interessantes todas estas vicissitudes porque passou o quadro "La Suggia" de Augusto John.
Guilhermina Suggia era completamente apaixonada por este quadro, e posar para o grande artista foi para ela uma aventura fascinante.
Já agora vou contar uma curiosidade:
por detrás da papeleira que tenho na sala e que pertenceu a Guilhermina Suggia, fui encontrar uma fotografia do quadro, mas infelizmente reparei que estava danificada. Mandei fazer uma digitalização e ficou perfeita! Mandei encaixilhar, pendurei-a na parede e está lindíssima! Mas mesmo assim ainda vou tentar restaurar a fotografia original, que tem imenso valor porque é antiga.

Afixado por: isabel millet em junho 27, 2004 02:27 AM