junho 23, 2004

CARTA A VIANNA DA MOTTA

15, Queen Anne’s Gate
S.W.1

5573 Victoria

Sabbado, 29-11-24

Dearest Jay,
Tinha tenção de lhe escrever ainda para Vigo, de Mansfield, mas não houve meio. Dois concertos no mesmo dia, dias seguidos e com viagens e debaixo dum tempo muito feio, escuro, húmido e frio.

Ao Chegar a Londres recebi a sua carta de (?)e creia que sinto muito todos os contratempos que tem tido. É horroroso, essas viagens matam o artista e destroem todo o prazer que se pode ter depois mesmo de um concerto magnífico que não duvido foram os seus em Vigo.
Também recebi carta de minha irmã dizendo-me que tanto ela como o seu marido ficaram encantados com a sua visita e que o tinham achado muito simpático.
Já deve ter recebido a minha carta na qual lhe dizia que certamente não fez mal algum em fallar de meus projectos para o futuro. Por enquanto ainda está tudo na mesma excepto que sempre me decidi a comprar a casa para meus pais, o que os alegra muito.

Desde que Jay partiu que tenho recebido vários “engagements” que me destroem as minhas “vaccances”. O mais engraçado é que não hesitam a aceitar seja o que for que eu peça como condições. Imagine que terei que voltar a Inglaterra em fins de Março, antes de ir a Hespanha, e os concertos ahí terão que ser realizados da seguinte forma:

-1º Concerto com orchestra, quarta-feira, 11 de Março
-2º Concerto (1º com piano) 13
-O 3º (com piano) domingo 15
-Porto-1º Concerto 17
-2º Ctº 19
-Viseu dia 20
Partida para Londres dia 21, chegada a Paris 22 e a Londres 23. Concerto em Londres 24.

Importantíssimo: já vê que terei justo o tempo de o fazer e creio que seria melhor que o primeiro concerto de todos fosse com orchestra . Também terei que fazer uma modificação no programa, mas isso brevemente lho direi. Envio-lhe esta carta para Lisboa pois creio que já não o apanho em Barcelona. Recebi hontem à noite a sua carta de Vigo.
(...)
Não vale a pena ganhar por um lado para ser roubado por outro!
Espero que encontre a sua família de boa saúde e desculpe-me esta carta escripta à pressa, mas tenho tido muitíssimo que fazer.
Na próxima carta incluhio as críticas.
Hoje o dia aqui é bem preto. Não se vê do outro lado da rua, e é bem aborrecido.
Muito lhe agradeço pelas suas cartinhas.
Muitas lembranças de minha mãe e de sua irmã e admiradora
Gi

(espólio de Vianna da Motta- Museu da Música)

Publicado por vm em junho 23, 2004 12:00 AM
Comentários

Todas estas cartas ao Vianna da Motta são interessantíssimas!
Ser-me -ão de grande utilidade para o 2º livro, em que vou falar do relacionamento entre os dois.
Obrigada!

Afixado por: isabel Millet em junho 25, 2004 02:18 AM

Por esta carta se depreende que a mãe de Guilhermina, D. Elisa, a acompanhava em Londres.
Vianna da Motta relacionava-se com toda a família, tendo visitado recentemente a irmã de Guilhermina, Virginia, que residia havia já muitos anos em Paris, depois de ter desistido da carreira de pianista para se casar com um editor, de apelido Pichon (não me lembro agora qual era o primeiro nome, tenho de ir procurar).

Afixado por: isabel millet em junho 27, 2004 01:45 AM

Guilhermina, no fundo, sente uma grande nostalgia de Portugal, o clima soturno de Inglaterra não se dá bem com o seu feitio exuberante, que gosta de luz e Sol. Guilhermina gostava de desporto, de nadar, jogar ténis e também jogava às vezes golf.
Adorava Inglaterra e os Ingleses, mas sentia saudades da sua terra, não só por causa do clima. Há uma carta em que ela diz:
"Gosto muito do meu país e daqueles que lá habitam".
E ainda há uma outra em que ela afirma:
"Sou mais feliz na minha terra do que no estrangeiro".

Afixado por: isabel millet em junho 27, 2004 01:53 AM

São várias as provas de que G. Suggia gostava, na verdade de Portugal. Aqui deixo mais uma. Há um postal escrito de "Cintra" em 5/9/1924 para Vianna da Motta onde ela escreve "Vou alterar a minha partida para o dia 18 em vez de 15.Sinto-me mais feliz neste meu país do que lá fora."

Afixado por: vm em junho 27, 2004 10:19 AM

Era exactamente a essa carta a Vianna da Motta que me referia, mas como não a tinha bem presente, alterei sem querer as palavras. No entanto o sentido é o mesmo, e é uma prova da sua grande nostalgia por Portugal.
Guilhermina era muito afeiçoada aos pais e aos amigos e a pátria e a casa eram, no fundo, o que havia de mais importante para ela.
Há uma carta que ela escreve à irmã, de Leipzig, com dezassete anos apenas e na qual diz:
"Quando penso que tenho de passar o meu dia de anos só com o papá e num país tão longe, não posso fazer-te sentir o que sinto no meu coração".

Afixado por: isabel millet em junho 27, 2004 08:34 PM