Guilhermina Suggia
(variações sobre um retrato)
1.
No escarlate do vestido
entre os joelhos avulta
o versátil companheiro
que em voz grave lhe responde
desde esse Porto marítimo
da infância, muito antes
da era dos petroleiros e
da boçalidade dos banhistas.
2.
O arco descreve
o intenso itinerário
de Leipzig a Paris,
de Berlim a Varsóvia,
o fascínio dos palcos, o
secretismo dos camarins,
na arritmia do pulso
que o fulgor persegue.
3.
Num crescendo vibrátil
desenha o andamento,
seus motivos ascendentes de
harmónica tensão. E na pausa
final, que um ímpeto antecede
o arco se suspende
augúrio e êxtase.
4.
No atelier londrino
de Mallord Street,
o pintor fixa o instante
de uma metamorfose.
Na tela cresce a silhueta
unida ao Stradivarius,
num corpo mútuo
de exótica mariposa,
olhos cerrados no meridional
abraço. Nem Pablo,
o virtuoso, nem qualquer outro
amante, desatará jamais
esse abraço sem fim.
por Inês Lourenço
No outro dia conheci a Inês Lourenço, na apresentação de um livro que ela fez no bar Triplex, no Porto.
Aprecio muito a poesia dela, e também a sua personalidade.
No fim fui ter com ela e falei-lhe de Guilhermina Suggia, disse-lhe que estava a escrever u m livro sobre ela.
A Inês Lourenço tem uma filha pianista, que é professora no Conservatório de Música do Porto.
Este poema foi publicado sem autorização de Inês Lourenço, dado não saber o modo como a contactar. Espero que não se importe.
Afixado por: vm em julho 7, 2004 09:55 AM