julho 15, 2004

CRÍTICA AO CONCERTO DE 5/5/1937 no TEATRO RIVOLI

A glória de Guilhermina Suggia, firmada há muitos anos, não se avoluma – entre nós, pelo menos – com mais um concerto em que a grande violoncelista se apresente. Para os admiradores de Guilhermina Suggia – e quem, tendo-a ouvido, não a admirará? -, a glória da mestra do violoncelo é como um dogma inalterável: por mais audições que lhes proporcione, não ficam a admirá-la mais, porque mais não podem já admirá-la!

Guilhermina Suggia, a quem não é exagerado qualificar de genial, porque só o verdadeiro génio é susceptível de realizar prodígios como os que ela realiza com o violoncelo, tem para nós, de todas as vezes – e são tão poucas... – que a ouvimos, algo de novo e de surpreendente. Riquíssima de qualidades artísticas, de qualidades que se fundem, quando toca, no bloco maravilhoso que subjuga todas as atenções. A Artista apresenta-nos, por assim dizer, facetas desconhecidas, à medida que a ouvimos e lhe analisamos – se o encantamento consente qualquer espécie de análise ...- a excepcional personalidade. É assim, de audição para audição, Guilhermina Suggia oferece-nos novos motivos de assombro que, se não lhe aumentam a glória, tornam a sua grande figura artística, por multiforme, um prodígio – diremos assim, convencidos de exprimir noção verdadeira – em constante renovação de si mesma.

Ontem, ao terminar, sob aplausos frenéticos, o concerto, essa impressão radicara-se-nos no espírito. Guilhermina Suggia, soube ser a instrumentista máxima da sua especialidade, afigura-se-nos, sempre diferente – gigantescamente diferente -, da Guilhermina Suggia que, no concerto anterior, havíamos observado.

Desde que há anos, num sarau de arte efectuado no sumptuoso Salão Árabe do Palácio da Associação Comercial do Porto, a eminente concertista se apresentou aos “dilettanti” portuenses, não voltámos a deliciar-nos com a arte duma das mais notáveis concertistas do mundo, na actualidade. Os musicófilos lisbonenses ouviram-na, há poucos meses, em dois concertos que ficaram memoráveis na vida musical de Lisboa. Por seu turno os “dilettanti” da grande capital britânica, mais felizes do que os portugueses, têm tido o ensejo de aplaudir a artista gloriosa, várias vezes, nos últimos anos. Eis porque repetimos: Guilhermina Suggia que é nossa e vive no Porto, sua terra natal, não pode nem deve estar tanto tempo sem que os portuenses, seus conterrâneos, a oiçam. Porque há-de um tesoiro de tal valia permanecer oculto durante anos?

Os concertos de anteontem e ontem provaram, uma vez mais, que o Porto, quando lhe proporcionam arte autêntica, não se escusa, não se retrai e aflui aos concertos, em massa, antegozando o prazer de poder aplaudir, aplaudir com entusiasmo e sem reservas, como aplaudiu, nestas duas últimas noites, no recinto da nossa mais vasta casa de espectáculos. É preciso que Guilhermina Suggia apareça em público mais vezes. Cada audição dessa artista incomparável é sempre um banho lustral para quem ama e admira a música.
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Passava das 22 horas – como anteontem – quando Pedro de Freitas Branco subiu ao estrado da regência, acolhido por palmas estrepitosas. E quando Guilhermina Suggia entrou no palco, vestida de preto, com simplicidade e elegância, os aplausos cresceram em intensidade. Todo o público prestava, assim, a sua primeira homenagem dessa noite à concertista que, principalmente o levara ali.
Como na véspera, notaram-se no teatro todas as figuras de destaque nos meios social, cultural, artístico do Porto. O aspecto do recinto impressionava, pela imponência. Era um grande mar de cabeças, distribuído por todos os sectores do teatro. Muitos vestidos de noite, lindíssimos alguns, muitas casacas, muitos smokings também. Um grande interesse, um interesse apaixonado a transparecer de todas as fisionomias. Ambiente de sensação, a sensação justificada por um concerto de Guilhermina Suggia.
Numa frisa, a triunfadora da véspera, Maria Alice Ferreira, com a família, frechada pelos olhares admirativos dos que a haviam ouvido já. Noutra frisa, com o marido da Artista, Sr. Dr. Carteado Mena, mestre Teixeira Lopes, miss Muriel Tait, a pianista D. Ernestina da Silva Monteiro. E não acabaríamos de citar nomes representativos se pudéssemos dar-nos a esse trabalho impossível...

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Adágio, de Tartini, abriu a primeira parte. Obra brilhante, de acentuado cunho clássico, Guilhermina Suggia cuja arcada larga e brilhante tinha o ensejo de se evidenciar, desde logo, executou, magistralmente a bela peça de abertura. Os aplausos com que a premiaram foram, como é óbvio, abundantes e vibrantes. O triunfo começava – no princípio da audição.
Emoldurando a concertista, o conjunto instrumental, comandado, impecavelmente, por Pedro de Freitas Branco, fez sobressair, mais ainda, a página de Tartini.
Depois, a suite ancienne, de Sammartini, primorosamente arranjada para orquestra. Três andamentos – Allegro, Grave, vivace – de nobre classicismo. Motivo de êxito seguro para a execução e a interpretação de Guilhermina Suggia, muito à vontade dentro da bela peça do compositor milanês. Os mesmos aplausos fortíssimos.

Um pequeno intervalo. E logo a concertista reaparece para tocar o Concerto de Dvorak, três movimentos apojados de boa música, de música da melhor. A obra do grande compositor, orgulho legítimo da “Tcheca-Eslováquia” de hoje, encontrou em Guilhermina Suggia uma intérprete admirável, capaz de valorizar, pela riqueza de expressão com que apresenta a riqueza de motivos das páginas, o pensamento musical do mestre.
Findara a primeira parte. O público subjugado pelo génio da concertista, não cessava de bater palmas. Na verdade, a concertista mereceu-as bem. Elas não representavam mais do que um prémio justíssimo.
Que dizer de Guilhermina Suggia que não esteja dito já? Para quê insistir na sua fogosidade apaixonada, marca inconfundível do seu talento de raça? Para quê salientar, se não constitui revelação para ninguém, a sua virtuosidade sublime, que lhe dá azo a fazer do seu violoncelo, ora um leão que “ruge” ora um rouxinol que “gorjeia”, já uma garganta que soluça e geme e estertora, já uma boca fresca e sadia que exorta e gargalha e canta? O violoncelo de Guilhermina Suggia, já de si maravilhoso, tangido pelas mãos milagreiras da Artista, chega a afigurar-se-nos um instrumento mágico. Será preciso dizer mais, exaltar o modo por que ela fraseia, diz, exprime a música que interpreta e executa? A sonoridade magnífica que produz, a vida que comunica a tudo o que toca, o próprio comentário histriónico que lhe é peculiar e acompanha a execução de qualquer peça, exteriorização natural duma pujante e vibrante sensibilidade – tudo modalidades da sua arte magistral, da sua arte de eleita.

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Eis porque foi justíssima a homenagem que, durante o intervalo da primeira para a segunda parte, lhe prestaram os seus admiradores, representados, no palco, por artistas, escritores, jornalistas, pessoas de categoria no meio oficial, na sociedade, na vida superior do Porto.
Nesse acto de consagração, a que se associou, vibrantemente, entusiasticamente o auditório em peso e a que, pela hora tardia a que teve fim o concerto – 1 hora e 5 minutos da madrugada de hoje – só amanhã consagraremos a referência merecida, o sr. dr. Joaquim Costa proferiu um breve e brilhante discurso de saudação e a menina Maria Alice Ferreira, a convite daquele ilustre homem de letras, descerrou uma lápide, na plateia, de homenagem a Guilhermina Suggia, a sua grande mestra. Uma verdadeira e impressionante apoteose à Artista e à sua arte.

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Na segunda parte, Guilhermina Suggia fez-se ouvir, de entrada, a solo, na lindíssima suite, em dó, de Bach, o clássico egrégio, viveu, assombrosamente, sob a arcada da concertista eminente. O Prelude, a Allemande, a Courante, a Sarabande, a Bourrée e a Gigue, as seis partes da obra magistral, agradaram, em absoluto ao auditório, que aplaudiu, com o vigor de sempre, com o entusiasmo de sempre.

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A Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a regência empolgante de Pedro de Freitas Branco, salientou-se, depois na conhecida e admirada obra de Manuel de Falla “El Sombrero de tres picos”, uma das suas coroas de glória. O eminente artiste, valor dos maiores, também, da música portuguesa, foi aplaudido, com frenesi. E as palmas do público envolveram, merecidamente, o seu admirável conjunto instrumental. Regina Cascais esteve ao piano durante a execução da obra já famosa.

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Por fim, Guilhermina Suggia, acompanhada pela orquestra tocou “Pièce en forma de Habanera”, de Ravel, “Sérénade espagnole” de Glazunov, e “Humoresque” de Sinigaglia, três peças de estilo para uma instrumentista como ela obrar prodígios. E o público aplaudiu em delírio, no final.
Correspondendo aos aplausos, Guilhermina Suggia fez-se ouvir, ainda, num delicioso “Andante” de Haydn e no caprichoso “Rondó” de Boccherini, peça para acrobacia de mãos.
É óbvio acrescentar que a grande violoncelista tocou, estupendamente, como as anteriores, estas duas peças fora do programa.
O concerto – acentuamo-lo para rematar – rematou com uma apoteose. Todo o público de pé, aplaudiu, longamente, carinhosamente, Guilhermina Suggia. É impossível que, seja onde for, o público manifeste maior entusiasmo.
Ontem foi o máximo – eis tudo!

“O COMÉRCIO DO PORTO 6/5/1937)


Publicado por vm em julho 15, 2004 12:00 AM
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