julho 19, 2004

OUTRA CRÍTICA AO CONCERTO DO TEATRO RIVOLI DE 5/5/1937

Noite de inolvidável arte, noite de encantamento - como justamente a considerou o sr. dr. Joaquim Costa – a de ontem no Rivoli! Efectuava-se o segundo e último concerto da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, com a preciosa colaboração da grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA.

Encheu-se o vasto teatro. Reuniu-se ali a maior representação social portuense. Um grande nome constituía a atracão. Sentia-se, transparentemente, um palpitante interesse em ouvir a Artista. Para muitos ela havia proporcionado já, por diferentes épocas, horas de adorável prazer espiritual. Para outros ela era uma figura de relevo no mundo artístico, cujos méritos se conheciam apenas através da informação de autorizados críticos. A noite de ontem foi de realidades. A grande “virtuose” que conquistara as elites do nosso país, atravessara há muito as fronteiras, percorrera pelo estrangeiro, os grandes centros artísticos e impusera, vitoriosamente, o seu nome, a sua categoria, a sua personalidade de concertista. GUILHERMINA SUGGIA, na terra onde nascera, neste Porto, berço de várias notabilidades da arte musical, ia, novamente, proporcionar momentos de adorável prazer espiritual.

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O concerto iniciou-se com uma linda composição de Tartini, “Adágio”, em que SUGGIA documentou esplendidamente a sua técnica. Naquela compostura de sóbria elegância que é ao mesmo tempo uma graciosa imagem arrancada à preciosa tela de museu, dominando o Stradivarius, SUGGIA arrancou uma autoridade que empolgou a assistência.
Tocou, depois, a “Suite Ancienne” de Sammartini. Três andamentos em que se fundem delicadas harmonias. Execução primorosa onde se salientou o estilo inconfundível da concertista, marcado na pureza do som, na envolvente porção de sentimento e na vigorosa interpretação.
O concerto de Antonin Dvorak – composição em que se reúnem caprichosos temas – foi um mimo de interpretação. A assistência esteve suspensa das suas atitudes integradas no espírito da obra, sentindo a vibração da sua correctíssima arte.
A orquestra, que Pedro de Freitas Branco conduziu com inteligência e pormenorizadamente nos seus efeitos manteve-se em perfeita unidade com as execuções de SUGGIA, atingindo o conjunto dos dois valores um invulgar brilho.
A solo, a grande violoncelista tocou a “Suite em dó” de Bach, numa segurança perfeita, arrancando do instrumento “nuances” de cor, de poesia, sentimento e vivacidade.
Ravel na “Pièce en forme de Habanera”; Glazunov na “Sérénade espagnole”, e Sinigaglia na “Humoreske”. Três composições cheias de contrastes e de motivos de sugestiva delicadeza assentes em construções ricas de efeitos – foram interpretadas com mestria, com a expressão e o carácter só possíveis na arte e na técnica de GUILHERMINA SUGGIA.
A grande artista foi demorada e entusiasticamente aplaudida, num frisante testemunho de admiração, numa clara demonstração de apreço. Dos aplausos compartilharam o ilustre maestro Pedro de Freitas Branco e os professores que formam a orquestra.

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No final da primeira parte procedeu-se a uma significativa homenagem à insigne artista. No palco, rodeada de Mestre Teixeira Lopes, Drs. Carlos Ramos, Joaquim Costa e Aarão de Lacerda, Freitas Gonçalves, Pedro Freitas Branco, Henrique de Castro Lopes, Máximo de Carvalho, dr. Carteado Mena, Manuel Reis, Pinto Machado e inúmeras pessoas de destaque social, GUILHERMINA SUGGIA foi alvo de uma grande ovação.
O sr. dr. Joaquim Costa, ilustre escritor e director da Biblioteca Municipal, improvisou um discurso. Enalteceu a figura artística, “extraordinária figura humana” de SUGGIA, em cujas veias girava sangue italiano, árabe e português. Apontou os primores da sua técnica e as suas grandes qualidades de artista. Referiu-se à cultura literária de SUGGIA e destacou-a com orgulho, como portuense ilustre, que os portuenses devem venerar. Recordou o concerto da noite anterior em que brilhou uma jovem concertista, artista de instinto e de largo futuro, obra cultural de SUGGIA, Mlle.Maria Alice Ferreira.
Largos aplausos coroaram as palavras do sr. dr. Joaquim Costa.
A seguir foi descerrada na sala, por Mlle Maria Alice Ferreira, uma lápide com o nome da eminente artista, acto que foi sublinhado com calorosos aplausos.
O sr. Manuel dos Santos, gerente do Rivoli, que representava o empresário e director daquela casa de espectáculos, sr.M. J. Pires Fernandes, leu o auto da inauguração da lápide.
SUGGIA, emocionada, agradeceu, dizendo não merecer tão expressiva homenagem. A assistência, de pé, novamente lhe manifestou a sua consideração em aplausos carinhosos. E vieram flores. Lindas “corbeilles” ocuparam a ribalta dando uma nota de cor ao recinto.

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A Orquestra tocou com todo o carácter e ampla sonoridade “El Sombrero de três picos” de Manuel de Falla – peça conhecida do nosso público – que foi muito aplaudida.
A pedido, SUGGIA executou duas composições sempre com apreciável brilho, sendo muito aplaudida. Foi-lhe oferecida uma coroa de flores de lindíssimo efeito.
Uma memorável noite de Arte que deixou inolvidáveis impressões! - M.F.

“O PRIMEIRO DE JANEIRO”, de 6/5/1937

Publicado por vm em julho 19, 2004 12:00 AM
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