Seguindo uma tradição a todos os títulos simpática, a Universidade do Porto vem comemorando, nos últimos anos, a data camoneana – 10 de Junho, com solenidades de carácter nobremente, elevadamente, artístico.
Este ano, pode dizer-se que a Universidade do Porto obteve o seu maior triunfo trazendo até nós GUILHERMINA SUGGIA, a mais notável individualidade musical portuguesa da actualidade e, no dizer de críticos eminentes, a "primeiro" violoncelista de todo o mundo.
Para que o “Recital Suggia” tivesse todo o carácter de sumptuosidade e grandeza a que tinha jus conseguiu o devotado reitor do nosso primeiro estabelecimento de ensino que a Associação Comercial do Porto cedesse a mais importante dependência da sua Sede.
O Salão Árabe do Palácio da Bolsa, sendo único no país, presta-se, naturalmente, às festas e solenidades da mais requintada distinção.
E, ao vê-lo, no domingo pretérito, polvilhado de vestidos elegantíssimos, de casacas e de smokings, compreendia-se logo a supremacia daquele recinto de maravilha em relação a todos os outros que possuímos.
Na primeira parte do programa, D. GUILHERMINA SUGGIA fez-se ouvir em “Sonata em Sol Maior” de Sammartini; “Melodia” (Orpheu) de Gluck; “Allegro Spirituoso” de Senallié, acompanhada por D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, pianista de nome consagrado, e “Sonata em Sol menor, op. 5 nº 2” de Beethoven, acompanhada por D. Ernestina da Silva Monteiro, outra pianista cujos méritos se evidenciaram também.
É impossível com uma Artista como Suggia, dizer que isto foi melhor que aquilo. E festivamente por ela tudo é bem tocado, sempre.
Tanto uma como outra das sonatas tiveram a interpretação assombrosa que só Suggia pode dar.
Na segunda parte, o prof. Adriano Rodrigues, na sua qualidade de Reitor da Universidade do Porto, proferiu algumas palavras sobre o significado da festa, transformadas de resto, num interessante discurso, em que a figura, musicalmente excepcional de Guilhermina Suggia e o vulto incomparável, o vulto máximo do cantor dos Lusíadas, perpassaram e brilharam.
O prof. Adriano Rodrigues justificando a realização daquela comemoração camoneana com o Recital Suggia, consignou à Artista e ao Poeta as expressões que a uma e a outro, de verdade se aproximavam.
Na terceira parte, novamente Suggia. “A Suite em dó” de Bach para violoncelo (Prelude, Alemande, Courante, Sarabande, Bourrées I e II e Gigue) teve todos os requisitos para obter do auditório a ovação que obteve.
Depois “Sicilienne” de Marie-Therese von Paradis, “Gavotte” de Méhul, em primeira audição, e “Rondo” de Boccherini, uma das mais belas páginas que existem para violoncelo, tiveram também a interpretação própria, o mais rigoroso, o mais brilhante que é possível dar a obras tão características e de tanta preciosidade.
D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves fez os acompanhamentos destas três obras de maneira superior.
E o programa fechou com “Arte em Estilo Antigo”, de José Franco, outra primeira audição. “Malagueña” de Albeniz, “Pièce en forme deHabanera”, de Ravel, e “Sérénade espagnole”, de Glazunov, obras que Suggia teve D. Ernestina da Silva Monteiro por acompanhadora primorosa.
Fora do programa, correspondendo aos aplausos vibrantíssimos do auditório, que não arredava pé da Sala e da Galeria, a Artista tocou, ainda, “Andalucia”, outra saborosa página espanhola de Nina, e essa Formosíssima “A Abelha”, de Schubert, cujo vôo a violoncelista, admiravelmente descreve.
Todo o sarau, pode afirmar-se sem exagero, foi para Guilhermina Suggia, uma alta consagração.
O público recrutado no escol da sociedade e da intelectualidade portuense, saudou a Artista com uma veemência que não pode ser superada.
De resto, pela sua maneira de tocar, pessoalíssima, a violoncelista eminente merece bem todos os aplausos que se lhe consagram.
Vivendo, intensamente, apaixonadamente, a sua arte, Guilhermina Suggia é uma concertista poderosa que, pelas próprias atitudes, que seriam exageradas se não fossem, como são, sinceras e naturais. Conquista e subjuga a alma dos auditórios.
Resta dizer que a Artista foi felicíssima na escolha das suas colaboradoras.
Tanto D. Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves como D. Ernestina da Silva Monteiro pertencem como pianistas, ao nosso primeiro plano musical.
Desde o rigor e a expressão duma à emoção e à vibração da outra, todos os encómios são devidos às duas senhoras que tanto enobrecem, entre nós, a arte dificílima do piano.
D Guilhermina Suggia recebeu das mãos dum distinto estudante universitário um violoncelo miniatural em oiro filigranado com o símbolo da Universidade. Delicada e valiosa prenda esta. E às suas preciosas colaboradoras foram oferecidos pequenos corações, também em linda filigrana de oiro.
Suggia recebeu ainda, das mãos da sua discípula dilecta, D. Madalena Moreira de Sá e Costa, filha do eminente pianista Luiz Costa, um admirável ramo de flores.
O recital tinha, como dissemos, um objectivo altamente meritório. Era dado em benefício dos estudantes universitários pobres.
E a verdade é que apesar dos preços elevados, que foi mister estabelecer, o Salão Árabe quase se encheu da Sala à Galeria.
O COMÉRCIO DO PORTO, 12 de Junho de 1934