julho 27, 2004

CARTA A CLARINDA

Guilhermina Suggia continua a queixar-se com dores. Não tem apetite e emagrece bastante.
Apesar disso, ainda aceita participar, em Agosto de 1949, no Festival Internacional de Edimburgo, no Usher Hall, tocando o Concerto em dó de Eugène d'Albert, com a Orquestra Escocesa da BBC, regida por lan Whyte.

Sobre esse acontecimento podem ler-se palavras de Suggia, numa carta a Clarinda, criada da sua completa confiança:

Caledonian Hotel - Edinburgh 3285L
28 de Agosto de 1949

Clarinda,

Até que enfim, terminei ontem à noite os meus concertos n'esta cidade que foram dois autênticos triunfos. Graças a Deus tudo correu o melhor possível e eu estava bem disposta e fui felicíssima nas minhas interpretações. Foi o grande, o maior sucesso do Festival o que representa uma grande honra para Portugal, (...) As salas cheias e à saída foi preciso a polícia intervir pois não me deixavam passar e no meio da rua eram dezenas e dezenas de pessoas a dizer adeus e a aplaudir.
Uma coisa extraordinária, parecia que estavam loucos.

Eu sinto-me tão feliz, pois estava um tanto nervosa antes de principiar, pois é uma grande responsabilidade, no meio dos maiores artistas mundiais e perante um público internacional. Americanos, austríacos, noruegueses, franceses, etc., milhares de pessoas e já está mais ou menos combinada a ida à América!
Bem dizia o Dr. Castro Henriques.
Esta carta serve para as pessoas que por mim se interessam.

Lembranças às moças e António.


do livro: "GUILHERMINA SUGGIA - A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em julho 27, 2004 12:00 AM
Comentários

Interessante a Carta. Obrigado ao bom gosto que a seleccionou.


Avancei até onde o infinito
Congelava a memória desta data
E o apego nos saciava, aflitos
Reféns do nosso amor e acrobatas
Sabendo que a inveja dos delitos
É dos outros e dos beijos de prata
Que perduram na montra duma mente
Onde um sorriso sucumbe o ausente.

albertovelasquez.blogspot.com

Afixado por: Velasquez em julho 27, 2004 01:13 AM

Obrigado pelos poemas que nos deixa aqui. Parabéns!

Afixado por: vm em julho 27, 2004 01:44 AM

Guilhermina estava já tão doente. Mas quando tocava transfigurava-se, dava-se totalmente e continuava a ser sublime.
O médico não acreditava na sua doença. Pensava tratar-se de nervos, uma espécie de mania de artista um pouco louca e hipocondríaca.
No entanto, com toda esta inconsciência, sempre foi contribuindo para que Guilhermina não se entregasse ao sofrimento. Dizia-lhe: "não pense tanto em doenças". E encorajava-a a viajar e a continuar a tocar. Através de tudo, sempre lhe ia incutindo uma certa esperança.
Quando em Londres Guilhermina compreendeu que o seu mal não tinha cura, regressou a Portugal e recolheu à casa da rua da Alegria para morrer. Viveu ainda aproximadamente um mês, ou nem mesmo isso. Teve uma coragem enorme e morreu com toda a dignidade, apenas com o auxílio de Clarinda e uma enfermeira que trouxe de Inglaterra.
Às vezes penso que Guilhermina Suggia tinha um carácter muito parecido com o dos felinos.
Não são eles que se escondem para morrer?
Morreu na madrugada do dia 30 para 31 de Julho, faz na sexta-feira 54 anos da sua morte.
Temos de fazer-lhe, aqui no blog, uma homenagem.

Afixado por: isabel millet em julho 27, 2004 02:26 AM