Galopantemente, a doença esmaga-a.
O Dr. Álvaro Rodrigues, a pedido do seu colega Dr. Castro Henriques, examina-a e aconselha a intervenção cirúrgica: «Vou para Londres preparada para quanto me possa suceder», afirma Suggia, desejando que a operação se realize em Inglaterra.
Na mesa operatória na London Clinic, em 28 de Junho de 1950, perante as lesões da parede da vesícula e do fígado, o cirurgião Maingot e Álvaro Rodrigues assistem à impossibilidade de qualquer esperança.
The London Clinic
20 Devonshire Place - London W. L
5-07-1950
Minha boa Clarinda,
É o primeiro dia em que posso escrever um pouco, apesar de muito fraca ainda -já deve saber da operação que decorreu bem, mas não foi nada d'aquilo que se esperava - não puderam tirar a vesícula nem o apêndice. visto o fígado estar por demais inflamado - tinha sido arriscar a vida -abriram mais do que se tivesse sido tirar a vesícula pois tiveram que cortar umas aderências que eram perigosas para o futuro e tornaram a coser - é um golpe longo, tenho 15 pontos (ao comprido) e está tudo com adesivo. Nada senti da operação excepto um mal estar horrível ao acordar, mas logo atenuado com injecções e drogas que não deixam sofrer o doente. Tenho levado dezenas de injecções nas pernas, nos braços, no tú-tú, enfim já me habituei e estou resignada. Tenho enfermeiras dia e noite, adoráveis, o quarto cheio de flores - a Mrs. Melville passa todo o dia comigo, um bom quarto - os melhores médicos, mas chorei quando o Dr. Álvaro Rodrigues me deixou no Sábado.
Era o meu grande amparo moral. É um santo. Os Srs. Pitman têm vindo aqui todos os dias e o Embaixador de Portugal também e o Dr. Pile um amor e um bom amigo - a Miss Brunch doente de cama mas falo com ela pelo telefone. Foi quem nos foi buscar ao aeroporto. E esta noite tive a grande honra e alegria de receber uma carta da Rainha de Inglaterra com uma caixa cheia de cravos cor de rosa, cheia de pena e simpatia por eu estar doente. Chorei de alegria! Não posso ser melhor tratada e estimada por todos. Bem haja Deus Nosso Senhor que me tem protegido e todas as pessoas que por mim rezam.
Boa noite, obrigada pelas suas cartas.
Recebi tudo. Saudades a todos, sim. Não devo escrever mais. Um abraço.
Guilhermina Suggia
Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre”, de Fátima Pombo
Guilhermina, aqui, é como uma criança doente antes de adormecer. Ao escrever é como se falasse baixinho, com uma tristeza e uma ternura enormes.
Ela era assim, muito frágil às vezes, muito doce e carinhosa, e ainda mais agora, assim tão debilitada, e pressentindo a morte.
vem a des-proposito da nota mas..queria lembrar a leitura do suplemento de sabado de "Publico" mil folhas a proposito de um colecionador que diz ter as gravções em78 de G.S. e estar disposto a cede-las : http://jornal.publico.pt/publico/2004/07/24/MilFolhas/TLCLASS02.html
Afixado por: abel roldão em julho 28, 2004 09:06 PMNão me parece que seja exactamente correcto o que diz. Trata-se do Engº Hélder de Macedo Sampaio - penso ser a pessoa a quem se refer - que diz ter vários discos de 78 rpm de G Suggia (faltam-lhe 7 dos 22 que ela gravou - e aqui quero fazer um reparo:Suggia parece ter gravado, pelo menos mais um, que não consta da lista do Engº H. de Macedo Sampaio, onde toca uma peça de Paganini - ) Diz aindao Engº H de Macedo Sampaio que tem vários exemplares de alguns discos e que, gostaria muito de os ver editados em CD.
As minhas desculpas se o que eu digo não está de acordo com o referido no Mil Folhas do jornal Público.
De qualquer modo os melhores agradecimentos pela informação
Isso seria fantástico, se se pudessem editar as gravações de Guilhermina Suggia em CD! Acho que devíamos contactar esse senhor e, não sei, talvez procurar uma editora! Com certeza se há-de arranjar uma editora nem que se faça, de início, uma pequena edição.
Afixado por: isabel millet em julho 29, 2004 01:04 AMHoje, nem de propósito, tive nas mãos a "ultima carta a Clarinda", que o Virgilio aqui divulga tão oportunamente, apenas a poucos dias do aniversário da morte de Guilhermina.
Se esta carta já me comovia, agora ainda me senti mais profundamente tocada, ao segurar nas mãos aquelas folhas em que Guilhermina escreveu apenas a vinte e cinco dias da sua morte, numa letra um bocadinho incerta, e a tinta esborrata-se um pouco em certos sítios onde parecem ter caído lágrimas.