julho 29, 2004

O ÚLTIMO RECITAL DE G. SUGGIA em 31 de Maio de 1950

O seu último recital é para os sócios do Círculo de Cultura Musical de Aveiro, em 31 de Maio de 1950.
As condições acertam-se uns meses antes.

Círculo de Cultura Musical/Delegação de Aveiro

Aveiro, 18 de Fevereiro de 1950

Excelentíssima Senhora
Dona Guilhermina Suggia

Apresentamos a V. Exa. os nossos cumprimentos da mais alta consideração.
Esta Delegação do C.C.M. pretende encerrar a actividade desta temporada de 1949-1950 no próximo mês de Maio. Porque o nível e brilho desta época está sendo de excepcional relevo, é nosso desejo mantê-lo e fechar com um concerto a que chamaremos "chave de ouro".
Assim, tomamos a liberdade de convidar V. Exa. a dar-nos a grande honra de vir a Aveiro fazer o citado concerto em dia, daquele mês, a combinar, não esquecendo que por exigência da empresa do Teatro Aveirense e da economia desta Delegação do C.C.M. esse dia deverá ser uma quarta ou uma sexta-feira. Finalmente, muito gratos ficamos pela fineza de nos informar de quanto deverá ser o "cachet", com acompanhadora, pedindo desde já a benevolência possível dado o excepcional peso com que esta época está a sobrecarregar as nossas frágeis finanças. Na expectativa das notícias de V. Exa. e renovando os nossos cumprimentos de muita estima e admiração,
Somos de V. Exa.
Atenciosamente gratos
O Secretário

Carlos Aleluia


Círculo de Cultura Musica/Delegação de Aveiro
Aveiro, 3 de Março de 1950

Excelentíssima Senhora
Dona Guilhermina Suggia
Gratamente reconhecido pela amável carta de V. Exa." e satisfazendo a informação que V. Exa." pede, venho comunicar que o «cachet» que pagámos em 1946, foi de 10.000$00 a V. Exa. e 1.000$00 à pianista acompanhadora que foi a Exma. Senhora Dona Berta Alves de Sousa.
A data do concerto achamos muitíssimo bem o dia 10 de Maio.
Aguardando e agradecendo a fineza de notícias de V. Exa. subscrevemo-nos com a mais elevada admiração.
De V. Exa. Muito atenciosamente
Carlos Aleluia


O concerto é no último dia de Maio, executando com acompanhamento ao piano, por Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, a Sonata de Locatelli, a Sonata em dó menor de Saint-Saëns e pequenas peças de Boccherini, Bach, Fauré, Weber, Chopin, Schubert e Falla. As últimas peças que toca extra-programa são a Peça em Forma de Habanera de Ravel, A Abelha de Schubert (que bisou) e o Rondo de Weber.

Regressa ao Porto conduzida pelo motorista, com o carro cheio de flores.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em julho 29, 2004 12:00 AM
Comentários

Ao pedido do CCM de Aveiro para que G. Suggia tivesse em conta um "cachet" razoável dada a difícil situação financeira do CCM, G Suggia terá respondido que não se recorda quanto terá recebido a última vez que tocou para o CCM de Aveiro, mas a situação financeira era a mesma , ela teria feito um "cachet" muito abaixo do que cobrava e portanto seria o mesmo. Eles que vissem quanto lhe teriam pago na altura.

Afixado por: vm em julho 29, 2004 02:01 AM

Naquele tempo, em que um litro de azeite, do melhor, custava 15$00, uma caixa de fósforos $70, o meu pai, que trabalhava noite e dia, como jornalista, ganhava 3.500$00, em dois empregos, e a mensalidade do colégio de freiras que eu frequentava era de 100$00 - e estava entre as mais elevadas - 10.000$00 seria talvez o ordenado de um administrador de empresa privada que fosse político da "situação". Não admira que Guilhermina Suggia, já habituada a ver todos, à sua volta, ganharem muito menos, se contentasse com um “cachet”, para ela, simbólico – tanto mais que tinha já a certeza de não vir a viver muitos anos. Por outro lado, a inflação era pouco evidente, comparada com o que é hoje.
Bem significativo é a pianista acompanhante receber dez vezes menos, por muito competente que fosse. Ainda em 1964, num número da revista “Arte Musical”, apareceu um anúncio de uma senhora diplomada em piano - com 20 valores – que se oferecia para dar lições, em casa. A minha família não me deixou frequentar o conservatório, dizendo que não queria pagar para eu morrer de fome. Não acreditou que eu conseguisse tirar os dois cursos, como fez Adriano Jordão, que é quase da minha idade. Fiquei frustrada, para o resto da vida, mas compreendo a preocupação de qualquer pai, ao ver a vida que o Salazarismo reservava aos artistas, para os ter amordaçados e submissos. Os que não quisessem rastejar-lhes aos pés e prestar-se a todas as baixezas, teriam a sorte de Lopes Graça, constantemente a ser perseguido e preso.
Voltando a Guilhermina Suggia, não existem sobrinhos ou, pelo menos, primos dela?

Afixado por: Ana Maria Costa em julho 29, 2004 03:53 PM

Em 1943 um concerto no Tivoli ficava por 7.500$00, incluindo aluguer de sala, direitos de autor, polícia, bombeiros, arrumadores, limpeza, orquestra, maestro, solista (1.000$00 eram para o solista). O elevado custo dum concerto era uma preocupação por causa do preço dos bilhetes.
Em 1942 no Teatro de S Carlos foi o concerto oferecido por Salazar ao Ministro dos Negócios Estrangeiros de Franco. E Salazar quis "dar" o melhor que tínhamos. Suggia cobrou 60.000$oo. Quando António Ferro tentou negociar o cachet Suggia disse que não via razão para baixar. Era o preço que cobrava normalmente e se queriam que ela tocasse era o que teriam que pagar.

Afixado por: vm em julho 29, 2004 10:00 PM

Em 1949, a 22 de Outubro dá o último concerto em Inglaterra.
No final do concerto perguntaram-lhe como é que ela se sente (o marido havia morrido em Março desse ano).
" Estou sozinha, sem um único parente no mundo".

Guilhermina sabe que familiarmente não tem ninguém, embora confie em Clarinda e num punhado de amigos .

Afixado por: vm em julho 30, 2004 06:25 PM